Livro analisa canção como produto industrial
Em As vozes da canção na mídia, Heloísa de Araújo Duarte Valente fez um estudo sobre a influência que a mídia exerce no sucesso das canções, analisando paralelamente a evolução tecnológica e o comportamento da sociedade, em face dessa evolução. Se no final do século XIX o único contato que o público poderia ter com a música, além do contato direto, era a partitura, hoje é possível assistir ou ouvir uma gravação, feita em qualquer parte do mundo, em tempo real.
Isso acarreta diferenças na qualidade da música no decorrer dos séculos. Em uma época em que as imperfeições não eram corrigidas com os instrumentos que surgiram com a evolução tecnológica, havia a necessidade da busca da perfeição. Na atualidade depara-se com um cenário bastante diferente, visto que artistas e gravadoras dispõe de uma diversidade de artifícios capazes de corrigir falhas e imperfeições do som ou dos intérpretes.
Não é possível falar de qualquer tipo de manifestação artística e cultural na atualidade sem citar a influência da mídia, através da Indústria Cultural, num tempo em que as evoluções tecnológicas acontecem quase que diariamente. A mídia exerce grande poder em todo o mundo, e este poder conduz a indústria musical desde os tempos em que o contato com o público era feito através de gravuras e fotografias até os dias de hoje, em que qualquer notícia atravessa o mundo em instantes, através das redes de comunicação, principalmente a internet.
Não podemos ignorar a presença da musicalidade no cotidiano das pessoas, nas mais diversas sociedades que surgiram no transcorrer dos séculos. Valente afirma que “...é impossível hoje uma pessoa poder passar um único dia sem ouvir uma canção: dos locais públicos à residência, em espaços públicos, ao ar livre, (...) a canção está sempre presente, compondo a trilha sonora da vida cotidiana.” (p.61).
Neste livro, Heloisa Valente mostra a evolução da música, analisando especificamente o tango, através de suas canções e seus mais diversos intérpretes e o sucesso do gênero, além da influência da mídia na divulgação e propagação dos gêneros musicais em nível mundial. Dessa forma, faz uma análise sobre a resistência do tango ao poder negativo da mídia, permanecendo como uma forma de musicalidade imortal entre amantes e conhecedores da música. Valente justifica sua escolha pelo tema afirmando que em uma “sociedade governada pelas mídias, em que as canções tendem a uma vida cada vez mais efêmera” a questão lhe chamou atenção, tornando-se objeto do presente estudo.
Mesmo com essa influência das mídias na criação de música com o propósito imediato da venda, vale ressaltar que existem também aquelas canções que mesmo com o passar do tempo insistem em não morrer, como é o caso do tango e até mesmo gêneros musicais tipicamente brasileiros como a Bossa Nova e o Samba. Segunda a autora, sobre o tango: “uma parte de sua longevidade é devida a uma imagem construída de mitos, estereótipos, não raro alimentados pelos próprios criadores” (p.163).
O livro destaca elementos importantes da sobrevivência deste gênero musical, podendo ser transportado para outros estudos e pesquisas sobre a música em tempos de domínio das tecnologias, onde vivencia-se a perda da qualidade, dando espaço à música de fácil comercialização na geração de lucros imediatos – às custas de sua essência principal, a arte.
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