Arte do canal

índice geral



Home / Cultura Geral / Artigos

15/01/2010 - 09h53 - Atualizado em 07/02/2012 - 12h26

Se o sinhô não tá lembrado...

Por Cauê Fabiano, aluno do 2º ano de Jornalismo


Reprodução
Adoniran Barbosa

Lançado em 2002, Adoniran – Dá licença de contar... narra a trajetória musical  de Adoniran Barbosa, sambista imortalizado por suas letras que retratam os mais diferentes lugares da cidade de São Paulo. Conhecido principalmente pelas músicas “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca”, a biografia entra exatamente para mostrar que Adoniran era muito mais do que dois hits na voz dos Demônios da Garoa.

A vida de Adoniran é cheia de controvérsias e versões contraditórias. A começar por sua data de nascimento, 1909 ou 1912. Nas palavras de João Rubinato, nome verdadeiro de Adoniran, o ano seria 1910, o mesmo da fundação do Sport Club Corinthians Paulista, seu time de coração, para o qual até dedicou uma música, “Coríntia”. Em suas entrevistas, ele desmente, cria e narra sua própria história, com muita liberdade e desenvoltura. Isso ocorreu talvez porque o próprio Adoniran Barbosa foi um de seus muitos personagens.

Das diversas profissões que exerceu, de entregador de marmitas, durante a infância; vendedor de meias e até entregador de tecidos na rua 25 de março, as de cantor e compositor talvez fiquem apagadas diante de sua trajetória profissional.

Originalmente, ele era humorista, atuando em telenovelas, longas-metragens e pornochanchadas. Estrelou em “O Cangaceiro” (1953) premiado filme de Lima Barreto, vencedor do Festival de Cannes. Sua carreira no rádio, premiada com quatro prêmios Roquette Pinto, começou em 1941, na Rádio Record, onde, tempo depois, conheceu Oswaldo Molles, que o ajudou a criar diversos de seus personagens.

Com um olhar de flanêur e um texto muito próximo ao gênero crônico, podia passar mensagens profundas e, ao mesmo tempo, bem humoradas. Chegou a escrever uma crônica para a Revista Realidade, em 1969, com todos os erros gramaticais preservados na impressão. Os cenários de suas letras são malocas, sambas nos bairros do Brás, Mooca e Bixiga, passando por pontos turísticos como a praça da Sé e o viaduto Santa Ifigênia.

O “Noel Rosa de São Paulo” viveu de sua arte, sempre de maneira simples e humilde, deixando como pegadas suas construções musicais. Os temas sociais eram debatidos com ternura, mas, ao mesmo tempo, de maneira incisiva. Aliado à figura de anti-herói, o malandro Adoniran, filho de imigrantes italianos, descreveu um mundo underground, cheio de risadas e comportamentos de vassalagem.

Derrubado pelas consequências da boemia, em 1982, João Rubinato se desviou da máxima polidez da MPB. Mesmo com seus “nóis vai” e “nóis fumo”, chegou a musicar uma letra de Vinícius de Morais, e lhe deu um belo banho de água fria, contrariando o poeta que uma vez disse “São Paulo é o túmulo do samba”.

As páginas do livro, publicado pela editora 34, nos levam à compreensão de um contexto histórico, que passa pelas principais rádios e emissoras de TV, suas respectivas fundações, os avanços da indústria fonográfica e, paralelamente, pela vida das personalidades que cruzaram com Adoniran, sejam em fiéis parcerias (como os Demônios da Garoa) ou famosas regravações (exemplo de Elis Regina).

No apêndice do livro, são encontradas informações completas sobre a vida musical e artística de Adoniran Barbosa, como suas músicas, regravações, participações em rádio, TV e cinema, e a crônica publicada em 1969 na íntegra. Para fãs ou para quem deseja saber mais sobre a vida de João Rubinato, a leitura é indicada.

Assinado em cruz, porque não sei escrever.



Comentários Comentários Postados
Comentários Envie o seu comentário

Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler

Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.

Os comentários devem se ater ao texto publicado.

Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.

restam caracteres.