Poucos metros separam a residência setuagenária, hoje um centro cultural, da movimentada Avenida Paulista. Batizada de Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, a construção de 5.500 m2 é um recanto de agradável contraste na metrópole. Ao seu redor foram se enfileirando edifícios comerciais e automóveis barulhentos, mas a casa conservou intacta a atmosfera onírica e seu belo roseiral.
Projetada em 1928 pelo arquiteto Ramos de Azevedo, a mansão foi finalizada sete anos depois e era um presente de casamento à sua filha, Lúcia. Com trinta largos cômodos divididos entre área social, íntima e de serviço, a casa é uma mescla de técnicas construtivas. O estilo, conhecido como “eclético”, ressalta elementos do art déco e do neoclassicismo francês.
Luana Mayra Almata, monitora há dois meses do local, conta que Azevedo – reconhecido como o mais importante arquiteto do período áureo da economia cafeeira paulista – não chegou a ver a casa pronta, pois morreu em 1929. Apesar disso, deixou esboços detalhados que foram materializados em seguida pelo seu escritório. “Ele projetou que cada cômodo da residência tivesse um piso e um teto diferentes das outras salas. Esse espaço que vemos hoje, restaurado, é bem menos luxuoso do que o que chegou a existir. O jardim, por exemplo, ia até a metade da rua e atrás o casal tinha uma quadra de tênis bem grande”, afirma Almata.
Estas transformações na estrutura da Casa das Rosas – apelido devido ao seu roseiral multicolorido – deveram-se, em grande parte, à expansão da Avenida Paulista e à falência da família em meados da década de 1970. Nenhum móvel original, assim, permaneceu para contar história. Mas o esqueleto da residência, de setenta anos atrás, continua ileso, ainda provocando emoções em seus visitantes.
“Este espaço é maravilhoso. Ele contrasta com a loucura lá de fora e assim também é nossa própria vida, cheia de contrastes. O brasileiro precisa mais de lugares desse jeito, preservados e interessantes”, revela a aposentada Lílian Zamith, de 60 anos, que adora freqüentar a Casa.
Essa preservação a que Zamith remete é fruto do tombamento da residência, em 1985, pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). A partir desta data, a construção passou a ser restaurada e transformada em centro cultural.
Primeiro espaço público do Brasil a ser destinado à poesia, o recinto oferece uma biblioteca de aproximadamente 35 mil volumes da coleção pessoal de Campos. O acervo, doado pela família do poeta, tem destaques preciosos, como edições autografadas dos literatos João Cabral de Melo Neto e Octavio Paz.
Alunos consideram a formação profissional como um dos principais motivos para presenciarem os cursos: “Eu descubro novas visões da literatura a cada encontro. Tenho certeza que os conhecimentos que adquiro aqui vão ser utilizados no futuro e isso é uma bagagem cultural mais do que importante para mim”, diz a estudante de Letras Marília Oliveira Juliani.
Segundo Donny Correia, diretor cultural da Casa das Rosas, as atividades, cursos e exposições são sempre pensadas de forma a atingir o público de uma forma virtuosa, aliando diversão com o próprio ato de estudar: “A função do Espaço Haroldo de Campos é trazer a literatura para um ambiente mais lúdico e diversificado, tornando o estudo mais prazeroso”.
Mesmo com as evidências de que não estamos mais em 1935 – o moderno café-restaurante no fundo da Casa e a livraria bem-organizada são exemplos disso – toda a atmosfera compete por nos transportar a um contexto de serenidade, onde o tempo é aliado, e não inimigo como nos tempos atuais.
Talvez a sensação dentro do Espaço seja de fato a que Márcio Fujimoto, funcionário da livraria, tentou exprimir com palavras: “É quase virtual. Sabemos que lá fora existe um mundo apressado, mas gostamos dessa calmaria aqui dentro e tentamos aproveitar o máximo”. É esta a particularidade que faz da Casa das Rosas um lugar excepcional: a capacidade de encantamento e quietude, ainda que localizada numa das avenidas mais movimentadas do país.
Onde fica: Av. Paulista, 37, Paraíso, tel. 3285-6986.
De terças a sextas: 10h às 22h.
De sábados e domingos: 10h às 18h.
Oferece visitas monitoradas.
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