Quem já leu o livro “Lolita”, de Vladimir Nabokov, não se sentirá decepcionado ao ver a versão cinematográfica, dirigida por Stanley Kubrick (1962). Não que o filme seja uma tradução fiel e definitiva da obra, em questão, mas porque ele conseguiu exprimir, de forma amena, a história de obsessão de Humbert pela sua amada ninfeta. Com atenuantes, como o mistério, e com uma pitada de sarcasmo e ironia.
Na obra original, narrada em primeira pessoa, temos a ambiguidade e a incerteza de seu narrador, já que ele conta a própria versão sobre o acontecido. O professor Humbert Humbert, um homem doentio e pedófilo, conta-nos sobre a vida e a obsessão que alimenta por sua amada, de 12 anos de idade, Dolores (Lolita), e o motivo de sua prisão, de onde escreve o livro.
O protagonista, com muita eloquência e poesia, narra a infância que viveu na França, o primeiro e triste amor, seu interesse por meninas mais novas, o casamento que terminou, e sua partida para os Estados Unidos. Em Ramsdale, onde se hospedara em casa de Charlotte Haze, uma viúva e pacata mulher, que morava com uma filha de 12 anos, Dolores, uma garota passiva e inocente, por quem Humbert se apaixona. Mesmo após se casar com Charlotte, Humbert não quer perder a menina, já que ela iria para um internato.
Humbert convence Lolita a viajar com ele. Entretanto, após a notícia da morte da mãe, – Charlotte leu o diário do marido, que continha passagens sobre o amor que sentia pela enteada. E morre, acidentalmente – Lolita foge com Quilty, outro amante pedófilo da “ninfeta”.
Humbert volta a vê-la, mais velha e abatida, grávida e casada com um homem pobre, vivendo de modo simplório. Por vingança, o protagonista mata Quilty, mas morre antes de ser julgado.
Apesar do tema, pavoroso e mórbido, a história é sedutora, pelo carinho e dedicação que Humbert tem pelo seu amor. Até mesmo, sente-se pena dele, pela sensibilidade da narração, que nos aproxima dele.
Kubrick, para amenizar o impacto da imagem do pedófilo, Humbert, envelheceu Lolita (Sue Lyon) quatro anos e ocultou a infância do protagonista. O filme começa de maneira intrigante. em que Humbert (James Mason) assassina Quity (Peter Sellers), mas sem contar o motivo que o levou a cometer tal ato. Humbert não é retratado como um pervertido, já que Lolita tem a iniciativa da relação amorosa entre os dois.
Quilty aparece com interessante força, tão louco e genial quanto a personagem principal, iludindo-a e corrompendo-a. A importância desta personagem para a obra, em contrapartida ao que acontece no livro, fica exposta já no cartaz do filme, em que Quilty está ao lado da cama de Lolita.
A história, também, é contada pelo protagonista, por meio de falas em off, que dão, ao espectador, a noção do foco narrativo do filme. Humbert trama para matar a mulher, mas, não consegue atirar. Charlotte lê escondido o diário do marido e, desesperada, corre pela rua e morre atropelada. No final, Lolita, já grávida e casada, amarra a trama e explica, a pedido de Humbert, os detalhes de sua fuga, para viver com o amor da sua vida, Quilty. E, com um último artifício, um epílogo conta sobre a prisão do protagonista e a morte dele.
Apesar das disparidades, o filme leva a base de enredo do livro, com cenas curtas e objetivas. Uma história bem contada que adapta os dramas da obra original, sem grandes perdas.
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