Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso
O Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na zona norte de São Paulo recebeu o guitarrista dos Mutantes, Sérgio Dias. Por quase duas horas, ele comentou o passado e o presente do conjunto, além de alfinetar a divulgação na internet de material da banda sem autorização.
Junto do baterista Dinho Leme, Sérgio Dias é o único remanescente da formação original do grupo, formado no final dos anos 60. Trinta e cinco anos depois de Tudo Foi Feito Pelo Sol (1974), o último álbum de inéditas, os Mutantes lançarão Haih no dia 8 de setembro, com novos integrantes.
Dias comentou a semelhança do novo trabalho com o auge da carreira. “Uma coisa eu te garanto: é Mutantes. Agora, é Mutantes do século XXI. É Mutantes comigo com 58 anos de idade. É Mutantes com garotos de 22 anos tocando.”
Um parceiro na nova fase do grupo é Tom Zé, que já colaborou com o conjunto quarenta anos atrás. “Quando conheci o Tom Zé, eu tinha 16 anos. Não conseguia nem conversar com ele”, conta Sérgio Dias que não esconde sua admiração pelo compositor. “O Tom Zé sempre foi um mestre, um gênio. Eu fui entender letras dele 20 anos depois. Quando a gente se encontrou no show [do aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro de 2007] do [Museu do] Ipiranga, eu disse: ‘Eu quero fazer música nova’. E ele disse: ‘Vamos nessa!’.”
Dias relembrou a influência familiar no processo de composição dos Mutantes. “Meu pai tinha uma livraria imensa. Quando fiz 13 anos, ele me deu Os Lusíadas. O lado cultural da gente era muito forte. A gente vivia no Teatro Municipal assistindo à minha mãe, às óperas. Minha casa sempre foi um centro de cultura.”
Sobre o efeito do uso das drogas na carreira do conjunto, o guitarrista declarou ter feito uso do ácido lisérgico (LSD) durante a gravação de apenas um álbum. “O único disco feito à base de drogas foi O A e o Z (gravado em 1973 e lançado em 1992). Todos os discos que são reverenciados e do qual eu acredito que sejam os mais criativos foram completamente caretas. Existem músicas do O A e o Z que foram compostas na hora, com três letras separadas ao mesmo tempo e cada um cantando a sua letra, o que para nós era ‘mágico’ ou ‘impossível’.”
Sérgio Dias elucidou os motivos pelos quais não assistiu ao documentário Loki – Arnaldo Baptista, sobre seu irmão e ex-parceiro do Mutantes, ainda com as sequelas da queda do quarto andar de um hospital psiquiátrico, em 1982. “É muito dolorido para mim, beira ao masoquismo. Prefiro guardar os momentos bons [com o Arnaldo] do que ficar vendo o depoimento da minha mãe, o meu depoimento. É chato.”
O “mutante” também criticou a atitude de muitos fãs que publicam conteúdo de artistas na internet sem autorização. “Imaginem uma banda nova que vocês admirem. Você diz: ‘Puxa, essa banda é demais, é genial, vou colocar no YouTube, na internet.’ Como é que o cara vai fazer o segundo disco? A ideia da ‘democratização’ da música é muito bonita, mas, ao mesmo tempo, é um tiro no pé, porque é o trabalho dele.”
Para o guitarrista, grandes artistas saem do Brasil por conta da exposição indevida de seus trabalhos na rede. “Onde está todo o manancial da música brasileira, que está viva e desaparecida? Onde está Milton Nascimento, Edu Lobo, essas pessoas que são tão sérias e importantes? Eles são a essência disso tudo. É uma pena ver esse tipo de talento ter que ir embora do Brasil, que, no fim das contas, é isso que acontece. Essa é a questão maior que vocês estão vivendo: se vocês querem ter a música popular brasileira aqui ou fora do país, o que é um negócio muito chato.”
Haih será lançado mundialmente, exceto no Brasil. O “mutante” justifica a exclusão: “Quando fui falar com os diretores da Sony, os caras já não acreditaram no trabalho. ‘Bixo’, eu conheço a indústria [fonográfica] brasileira. O negócio que não tem sucesso cai por terra. Imagina se ninguém pagasse ônibus, não teria ônibus. Estamos vivendo um momento extremamente sério. Como é que isso vai ser resolvido? Por que os Mutantes não estão lançando o disco no Brasil?”, uma questão deixada em aberto para o debate dos fãs.
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