Os peixes nadam livremente no aquário de 2,38 metros de comprimento. São dez animais no total, com dois pangassus, um negro outro branco, reinando absolutos. As paredes pintadas de verde claro contrastam um dragão oriental verde escuro, vermelho e amarelo. É no estúdio de tatuagens Led's, localizado na Avenida Ibirapuera, que Akemi Higashi trabalha há dois anos.
Com onze profissionais, o Led's é um dos mais conceituados estúdios de São Paulo. No hall de entrada estão expostas 244 fotos de trabalhos feitos por alguns dos artistas de lá — entre eles, a única mulher, Akemi, 31 anos. Em média, 36 pessoas saem com marcas novas na pele todos os dias. Mas o ritmo estressante de trabalho não tira a cabeça da tatuadora do mais importante.
— Vocês comeram direitinho? Se o dinheiro acabar, liga para o Lelo que ele passa aí, ok?
Akemi foge do estereótipo. Quem vê os braços quase completamente cobertos de desenhos, nem imagina que a descendente de japoneses é mãe de dois filhos, Douglas, de 7 anos, e Diego, de 9. E apesar de trabalhar com o pensamento nas crianças, a artista confidencia não gostar dos nomes deles.
— Foi o pai quem escolheu. Ele é fotógrafo, mora no interior. Fotógrafo é tudo safado, mexe com a vaidade das pessoas — para, respira, e conclui: — Fotógrafo nunca mais!
O atual namorado é Marco Lelo, um tatuador de Campinas. Eles estão juntos desde 2007 e moram na mesma casa. Lelo, como é chamado entre os tatuadores, já trabalhou no Led's, e hoje está no estúdio Gatto Matto. Akemi era admiradora do trabalho do companheiro antes de conhecê-lo. Também pudera: ele ganhou vários prêmios por onde passou. Não raro, é chamado para tatuar algum cliente especial em outro país, como a modelo londrina Kate Moss. Quando vai ao exterior, traz potes e potes de maquiagens para a namorada, aficionada por cosméticos.
— O Lelo volta da Espanha hoje, disse que achou tudo que eu pedi, Mac, Lancôme e Dior. Só gosto de maquiagens caras, esse é o meu capricho. Para usar maquiagem ruim, prefiro não usar.
A delicadeza da feição oriental de Akemi é, de fato, ressaltada por um fino traço feito de lápis preto nos olhos. Não tão finos talvez quanto os traços que grava na pele de seus clientes. Apesar de afirmar que tatua homens e mulheres em igual proporção, em todas as vezes que falou comigo a tatuadora estava trabalhando em uma mulher.
A engenheira Carolina Mantovanini, de 30 anos, é a primeira cliente do dia. Ela quer cobrir o desenho de uma fada, feito na adolescência. Um buquê de flores rascunhado rapidamente por Akemi dará conta. E por que ela quis tatuar com uma mulher?
— Escolhi Akemi pelo traço delicado, mais feminino. E também, talvez eu fique mais à vontade por ser uma mulher.
Esse tabu segue a artista por todos os estúdios em que trabalha. Em São Paulo, gravou os clientes do PMA e do Nave, ambos na rua Augusta. Mas o começo foi bem longe dali, em Sertãozinho, interior paulista.
Akemi não teve muito contato com os pais, que se separaram quando ainda era bebê. A mãe se mudou para o Rio de Janeiro com o irmão; o pai se casou novamente e constituiu outra família. A solução foi a avó, que a criou em São João da Barra, interior de São Paulo. Quando completou 18 anos, um mundo se abriu para a futura artista. Foi morar em uma república em Ribeirão Preto (SP) e conheceu o pai de seus filhos. Logo ficou grávida de Diego. Em 2000, foi a vez de Douglas vir ao mundo, junto com um enorme trauma.
— Eu tive descolamento de placenta, porque fiz esforço demais. Um dia eu voltei para casa e meu marido havia tentado se matar — se esforça, e continua. — Ele é um cara muito complicado, tentou se matar várias vezes.
Talvez fugindo do passado, Akemi veio para São Paulo. Mas o motivo para morar na cidade, segundo a artista, é mais simples. A independência financeira só viria se trabalhasse no Led's, disse. Quando conseguiu o emprego, foi para a capital de mala, cuia e filhos. Antes, porém, trabalhou no PMA em períodos de quinze dias. De acordo com Teté, um dos sócios do PMA, ela recebia 70% da quantia cobrada aos clientes. No Led's, apenas metade do que o cliente paga vai para a tatuadora — o que, em um dia, significa por volta de 900 reais.
Com o dinheiro das tatuagens, Akemi paga suas aulas de pintura japonesa, a academia e o boxê tailandês, além de natação e tênis para os filhos, e ainda parte das contas da casa. Mas garante: “Sou simples. Eu só tenho um par de tênis! ”.
Seu professor de pintura japonesa, Mestre Ito, 73 anos, acha que o dinheiro é bem gasto.
— A Akemi não me dá trabalho, ela tem talento — diz, em um complicado nipo-português.
As aulas de boxe tailandês, pelo menos, são bastante úteis. E quem garante é a própria artista, que já precisou das técnicas mais de uma vez.
— Bati num cara na Lôca [boate de São Paulo]. Ele veio pra cima de mim, me tocando. Eu não tive dúvida: dei um soco bem no meio do nariz. Ele dormiu na hora — diz, aos risos.
Polêmicas à parte, a tatuadora tem seu lado espiritual bem resolvido. Para ela, não importa em que acreditamos, “contanto que façamos o bem e sejamos honestos”. Depois de alguns segundos, deu um sorriso largo, olhou para um quadro budista na parede e, como se não estivéssemos ali, continuou a trabalhar.
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