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13/01/2010 - 09h43 - Atualizado em 16/05/2012 - 22h09

Morto ou não, Nietzsche ainda fala

Por Paulo Lutero II, aluno do 2º ano de Jornalismo

Deus morreu? Nietzsche morreu?

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Beatriz Dos Santos
O Café Filosófico no Parque
Trianon

Há uma velha história que diz que num muro na Alemanha certo dia foi encontrada a seguinte inscrição: “Deus está morto. Assinado: Nietzsche”. Quando o filósofo alemão morreu, embaixo da primeira frase, passou-se a ler: “Nietzsche está morto. Assinado Deus”. Algum tempo depois uma nova oração foi adicionada à parede: “E eu não me sinto bem”.  Foi com esta anedota e com a leitura do aforismo 125 de A Gaia Ciência, no qual Nietzsche proclama a morte de Deus, que se abriu na última quinta-feira o Café Filosófico do mês de setembro no Parque Trianon.

O evento começou e terminou ao som da flauta transversal de Nícolas Brandão e do teclado de Henrique Gomide. Os meninos tocaram desde composições próprias até um choro de Pixinguinha. Uma brecha nos dias de chuva, num quase início de primavera que mais parecia meio de outono. Enquanto algumas folhas caíam e aqueles instrumentos faziam a plateia tamborilar os dedos no colo, cerca de cem pessoas se prepararam para ouvir o professor Rodrigo Rosas Fernandes, doutor e mestre em Filosofia, graduado em Direito e especialista em pensamento nietzscheano.

Um seguidor otimista do filósofo, Rodrigo acredita que nos dias de hoje o pensamento de Nietzsche tem sido assassinado pouco a pouco pelos estudiosos, por aqueles que confundem obra e vida ao invés de estudar o filósofo alemão por completo e separar devidamente os dois aspectos, algo enunciado por Nietzsche no início de sua autobiografia, Ecce Homo, e, finalmente, por aqueles que o citam sem critérios. Este Café Filosófico tinha como tema duas perguntas: “Deus morreu? Nietzsche morreu?”. À segunda questão, o professor logo respondeu: “Sim, Nietzsche morreu e foi de pneumonia em 1900”.

Já a primeira exigiria um pouco mais de reflexão e um tanto de presunção. Ela implicar em incitar muitas outras indagações – Como morreu? Por que morreu? Quando morreu? – do que propriamente encontrar uma resposta. Tentando chegar o mais perto possível de um roteiro que pudesse iluminar a questão principal, Rodrigo traçou um panorama de nomes e ideias que influenciaram Nietzsche e todo o pensamento ocidental contemporâneo a partir do Iluminismo.

A saga começa no fim do século XVI quando os deístas proclamam que apesar de Deus existir, Ele se ausentou de sua criação e “cada um ficou na sua”. Inicia então o desfile dos grandes nomes dos séculos seguintes que começam a amolecer um a um cada pilar da fé cristã. David Hume questionava a existência dos milagres e considerava uma grande farsa o mistério da ressurreição de Cristo. Auguste Comte, pai da sociologia, dizia que o conhecimento humano evoluía em três fases: religiosa, metafísica e científica. O geólogo Sir Charles Lyell apresentou em seus estudos a ideia de que a Terra era muito mais velha que os quatro mil anos defendidos por teólogos. A partir de 1830, uma série de autores começa a buscar indícios da vida de Cristo e a escrever sobre o “Jesus histórico”. Para Rodrigo, o verdadeiro ponto de virada no pensamento ocidental vem em 1859 quando Charles Darwin publica A Origem das Espécies e “abre a porta para o acaso”.

Influenciado por todos esses pensadores e em especial por Darwin, Nietzsche, que foi muito mais que apenas um filófoso ateu destinado à crítica da religião, sintetizou que a consequência desses últimos séculos foi que tudo aquilo que era eterno e verdadeiro, deixou de sê-lo. Desse modo, a sede de ciência possibilitou a morte de Deus.

E enquanto envelhecia, Nietzsche foi se tornando um filósofo cada vez mais crítico do cristianismo. Por fim, Rodrigo Rosas imaginou o que teria acontecido se a resposta para a segunda pergunta tema do encontro fosse “não” e o filósofo alemão estivesse vivo até hoje. O que ele diria? “Nietzsche se perguntaria quando é que teríamos outro Renascimento? Quando é que iríamos sair desse estado de cãibra, de letargia?”. E então, quando?



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