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13/01/2010 - 11h56 - Atualizado em 15/05/2012 - 07h12

Aspirina: a “droga maravilha”

Por Isabella Lubrano Paes Manso, aluna do 1º ano de Jornalismo


Reprodução
Acervo de embalagens antigas
da Aspirina

Em 2009, a indústria farmacêutica comemora os 110 anos de existência de uma droga que é sucesso absoluto. Calcula-se que a Aspirina, analgésico e antitérmico que teria surgido como mero remédio contra as dores do reumatismo, seja consumida em 2500 comprimidos por segundo, o que equivale a 216 milhões de tabletes por dia. E cerca de 35% das vendas de remédios sem receita do mundo são de Aspirina. Assim, este medicamento da empresa alemã Bayer é um ícone pop tão forte quanto a Coca-Cola ou o Fusca, presente em mais de oitenta países.

As histórias mais recorrentes contadas pelo laboratório costumam remontar à origem da Aspirina para muito antes do século XIX, quando sua fórmula foi pela primeira vez desenvolvida e sintetizada em laboratório. Estas versões, mais românticas, sempre citam Hipócrates, além de escritos bíblicos e até as práticas dos índios pré-colombianos, como prova de que o princípio ativo da Aspirina, a salicina (ou ácido salicílico), já era conhecida pelos homens na Antiguidade.

Romanceadas ou não, estas versões nos trazem, finalmente, ao século XVIII, quando o reverendo britânico Edmund Stone observou e descreveu as propriedades antitérmicas das substâncias contidas na casca do salgueiro branco, que contém salicilato. Esta substância, bastante tóxica, deu origem ao ácido salicílico.

Em cerca de 1830, o farmacêutico francês Henri Leroux conseguiu isolar a salicina da casca do salgueiro, conseguindo uma substância cristalina. Em 1838, o químico italiano Raffaele Piria conseguiu, através de novos processos químicos, liberar o ácido salicílico da salicina.

Entre 1859 e 1860, o químico orgânico alemão Adolf Kolbe conseguiu produzir artificialmente o ácido salicílico em laboratório. O novo produto rapidamente passou a ser receitado como medicamento contra dor e, apesar do gosto amargo e dos efeitos colaterais terríveis para o sistema digestivo, obteve bastante aceitação. Em 1874, começou a produção em larga escala, em Dresden, na Alemanha.

Deste modo, em 1897, um pequeno laboratório farmacêutico alemão chamado Bayer desenvolveu uma fórmula para unir o ácido salicílico ao acetato, criando o ácido acetilsalicílico. O novo remédio foi batizado como “Aspirina”. No entanto, a empresa só conseguiu a patente do invento em 1899. A Aspirina era vendida em pó, num frasco de vidro.

A discordância está em quem foi o responsável pela criação dessa nova fórmula. Segundo Walter Sneader, da Universidade de Strathclyde, de Glasgow, teria sido o alemão Arthur Eichengrün, químico judeu que trabalhou na Bayer de 1896 até 1908. Após a criação do remédio, ele clamou autoria pela invenção do novo método, mas seu pedido foi negado.

Em versão oficial defendida pela Bayer o farmacêutico responsável pela criação foi o também alemão Felix Hoffman, cujo pai sofria terríveis dores por conta de um reumatismo. E, como usuário frequente do ácido salicílico, tinha sequelas estomacais terríveis. Então, ele pediu ao filho que criasse um remédio com gosto menos amargo e com menos efeitos colaterais. Atendendo a este apelo, Hoffman desenvolveu a Aspirina, com a ajuda do professor Heinrich Dreser.

A Aspirina foi o primeiro grande êxito da indústria farmacêutica, o primeiro fármaco que não era produzido de acordo com a sua forma na natureza e o primeiro a contar com publicidade e estratégias de marketing.

Em 1898, um ano após a invenção do remédio, a Bayer divulgou à comunidade médica os resultados altamente eficazes obtidos em testes com 50 pessoas. O produto passou a ser testado pelos próprios médicos, que atestavam a eficiência da Aspirina desde o combate à dor de dente até à febre provocada por viroses – e não tinha inconvenientes como os da morfina, muito popular na época. Além disso, 30 mil médicos europeus receberam um livreto de duzentas páginas falando das vantagens do novo medicamento.

A repercussão foi estrondosa, já que, por volta de 1900, a Aspirina era objeto de 160 artigos científicos sobre a versatilidade da droga. As pesquisas e testes continuavam e constatou-se que o remédio tratava de dor de cabeça,  de dente, nevralgia, gripe, indisposição alcoólica, artrite, amidalite, febre e até diabetes.

O sucesso se refletiu nas vendas. Rapidamente, a Aspirina dominou o mercado não só na Alemanha, como na Europa e na América. Por volta de 1906, a imprensa americana criou a alcunha, “the wonder drug” (“a droga maravilha”), até hoje explorado pelos slogans da Bayer, como “Expect Wonders” (“espere maravilhas”).

Porém, após a 1ª e a 2ª Guerra Mundial os países vencedores impuseram às empresas alemãs severas punições. A Bayer perdeu a patente da fórmula do ácido acetilsalicílico e dezenas de aspirinas genéricas multiplicaram-se, o que contribuiu para a popularização definitiva da Aspirina. No Brasil, a Bayer conseguiu comprar de volta os direitos sobre o nome, mas a fórmula continua livre para outras empresas.

As vendas de Aspirina receberam ainda novo impulso por volta da década de 1950, quando o médico californiano Lawrence Craven divulgou as primeiras pesquisas sobre se a Aspirina poderia ser eficiente para combater ataques cardíacos. A receita para prevenir os entupimentos de artérias era “One Apirin a day” (“uma Aspirina por dia”). A versatilidade da droga seguia fascinando os consumidores.

Em 1985, constatou-se que um comprimido por dia diminuía em 20% a probabilidade de um segundo ataque cardíaco. Entretanto, o consumo diário de Aspirina em pessoas saudáveis nunca foi recomendado, devido aos efeitos do consumo excessivo da droga – azias, náuseas, vômitos, sangramentos, úlceras e até perfurações no aparelho digestivo.

Nos dias atuais, a Bayer dedica-se ao aperfeiçoamento do remédio que ainda representa, para a empresa, faturamento estimado de 600 a 700 milhões de euros anualmente. Hoje, existem Aspirinas próprias para crianças, Aspirinas conjugadas com cafeína, com vitamina C ou com cálcio, Aspirinas mastigáveis e em gel, Aspirinas sem açúcar. Além disso, são feitas pesquisas para descobrir novos usos e efeitos colaterais do medicamento. As descobertas mais recentes sugerem que o remédio é eficaz em prevenir algumas formas de câncer.

Se o século XX foi o século da informação, da liberação feminina e dos direitos humanos, também foi o século da indústria farmacêutica. O sucesso da Aspirina abriu espaço para o desenvolvimento de novos e mais eficazes tratamentos, como anestésicos, antibióticos, anti-inflamatórios e vacinas.

Em apenas um século, a humanidade experimentou revoluções, no âmbito da farmácia, sem as quais não podemos imaginar a vida nos dias de hoje, como anticoncepcionais, tranqüilizantes e antidepressivos. A Aspirina é um símbolo desta era.



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