“Não quero epitáfio, não. Meu corpo não vai ficar sob a terra. Quero ar e vento!” Simples e volátil. O novelista e dramaturgo Alcides Nogueira já determinou que seu sepulcro será assim. Mesmo ainda com uma boa estrada pela frente, o botucatuense de 59 anos é obcecado pelo plano arquitetado para o dia de sua morte: será cremado. As cinzas postas em cigarros que serão distribuídos por túmulos no cemitério Père-Lachaise, em Paris.
Esse é um dos sonhos do teatrólogo, que, por precaução, também pensou em um plano reserva. “Se fracassar, quero que joguem minhas cinzas na cuesta de Botucatu”. Deixa claro que quer um fim tão fluido quanto sua trajetória. Mas, antes disso, ele quer realizar pelo menos duas coisas, escrever um livro e um roteiro para o cinema.
De aparência sofisticada, mesmo quando veste jeans e tênis. Tem um olhar sereno e um humor aprazível. Os cabelos são brancos e bem cortados. Usa óculos com armação razoavelmente larga, que emolduram bem o seu rosto.
Pode-se dizer que é bastante reservado, já que não costuma ser uma figura reconhecida na rua, a não ser pelo nome que não soa estranho às pessoas. “Às vezes, quando faço uma compra e assino cheques, as pessoas reconhecem o nome, mas só assim mesmo.” O também novelista Mario Teixeira revela que ele é uma pessoa que nunca se esquece dos outros e afirma: “Ele é a única pessoa que eu conheço que tem dois lados bons”.
Alcides poderia ter passado por um percurso bem diferente. Nascido em uma família tradicional, começou a ler e escrever antes mesmo de entrar na escola. Alcides se formou em Direito pela USP com pós-graduação em Direito Autoral, em Genebra. No entanto, a própria História contribuiu para as digressões do caminho.
Aos 17 anos, o garoto interiorano passou por um “conflito esquizofrênico”, como ele mesmo denominou. A ditadura militar controlava o país e ele precisou conciliar a posição de militante com o exército. “Meu sentimento, na época, era uma mistura de ódio, repulsa, medo e esperança.” Para escapar da turbulência do período, mudou-se para Londres. Ao retornar, no início dos anos 1970, terminou o curso de Direito, ainda que já manifestasse um desejo por outro campo de atuação.
Da cólera, surgiu a obra que o tornou reconhecido e seu maior sucesso nos palcos de freijó. Lua de Cetim foi um jeito, quase compulsivo, de exorcizar os fatos brutais que o atormentaram nos “anos de chumbo”. O autor metamorfoseou o sofrimento, dando origem à criatividade, que pudemos conferir nas novelas Torre de Babel, A Próxima Vítima e Ciranda de Pedra.
Alcides reside no 19º andar de um amplo apartamento na Haddock Lobo. O hall conservador e os pisos bem lustrados remetem à imagem dos prédios das novelas globais.
O autor exibe um semblante de quem está satisfeito com a vida, embora confesse que a profissão é extremamente estressante. “Quando estou escrevendo, o cronograma exige que se entregue, semanalmente, um bloco de seis capítulos. Ou seja, preciso escrever um por dia, não tem descanso. Já passei Natal escrevendo!”. O fato de ganhar bem é apenas uma recompensa pelo tanto que trabalha.
O novelista acha engraçado a forma como os outros fantasiam a vida das pessoas que trabalham para a Rede Globo. “Um dia, uma pessoa ligou em casa e eu mesmo atendi e ela, assustada, disse: ‘nossa, é você mesmo? Você atende o telefone?, respondi que sim. Sou normal, faço tudo o que os outros fazem.” Apesar de ter três assessores para o ajudar, acredita que quem cria a inacessibilidade são os outros.
Alcides Nogueira não está com nenhum trabalho no ar. Tem participado de mesas-redondas com colegas, para divulgar o livro Autores – Histórias da Teledramaturgia, lançado pela Editora Globo. A coletânea conta a vida e obra dos dezesseis autores fixos da Rede Globo. Além disso, irá auxiliar um especial de Mário Teixeira, que entra no ar no fim do ano. Prepara-se também para, em breve, voltar à rotina do “um capítulo por dia”, mas ainda pensa somente no enredo.
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