O cuidado de Mann em um clássico da Literatura
O livro A Morte em Veneza, de Thomas Mann, apresenta temas como a beleza idealizada, as inquietações do artista e a intensidade das paixões humanas. O contexto da história é a Belle Époque, além da cólera que invadia Veneza naquela época. Tanto a novela de Mann quanto o filme de Luchino Visconti refletem acerca das oscilações do protagonista, Aschenbach, entre o autocontrole e a ruptura dos princípios. Literatura e cinema utilizam os respectivos recursos a fim de exaltar elementos significativos do texto de Mann.
O autor abusa de descrições minuciosas e escolhe cuidadosamente as palavras. Já Visconti se alia a imagem, evidenciando a expressão e os gestos dos personagens, além de utilizar a música em favor do audiovisual. Sendo assim, a linguagem cinematográfica, para ser fiel na adaptação, transforma Aschenbach, no livro tido como um escritor, em um compositor. Enriquece a película ao utilizar sons e músicas que ilustram a obra do protagonista.
A chegada triunfal de Aschenbach a praia do Lido, em Veneza, é grandiosamente narrada no texto de Mann. Porém, ao mostrar a paisagem, o filme impressiona com maior eficiência, já que não conta apenas com a imaginação do público e com os adjetivos do texto, mas também com os recursos visuais. O protagonista é um artista regrado e sem excessos, um asceta. É disciplinado e controlado. Ao retratar as vestimentas e a postura dele, Visconti mostra como o “desmoronamento” do músico parece improvável.
Na história, o compositor conhece Tadzio, jovem admiravelmente belo. O artista se esforça para descrever a beleza tanto na escrita quanto na música, esta no caso do filme, que se admira ao ver Tadzio expressar toda aquela perfeição espontaneamente e de maneira natural nas características que possuía. Na adaptação cinematográfica, são evidentes os olhares lançados por Aschenbach a Tadzio. Já no livro, estes fatos não são tão explícitos. Por isso, na obra de Mann, o amor do escritor parece se destinar à beleza de Tadzio, independentemente de seu sexo. E no filme, de fato há a homossexualidade, que sugere desejos físicos por parte do compositor. Porém, tais vontades não chegam a ser consumadas no decorrer do enredo.
Visconti suprime o narrador, adicionando Alfred, amigo de Aschenbach. Em flash backs, Alfred é quem conversa com o compositor, discutindo as próprias inquietações, anseios, e principalmente a postura excessivamente recatada e equilibrada. Enquanto o músico defendia que o artista deveria ser um modelo de equilíbrio e força, Alfred afirmava que em tudo havia ambigüidade, inclusive nas músicas compostas pelo próprio protagonista.
A paixão por Tadzio modifica Aschenbach. As máscaras que encobriam o artista caem, e os parâmetros, as certezas e o autocontrole se dissolvem. A arte do músico, que vinda do equilíbrio excessivo dele, é perdida. No filme há uma cena em que o protagonista sonha estar sendo vaiado por não conseguir compor música como antes. Isso é indício de que a mudança foi completada com sucesso – o protagonista não era mais o mesmo e sua arte também não.
Aschenbach, tencionando fugir das inquietações, da impossibilidade daquele amor e da cólera, decide ir embora do Lido. Contudo, quando ele finalmente parte, a bagagem acaba sendo enviada para outro lugar, impossibilitando-o de deixar a cidade. O sorriso de satisfação de Dirk Bogarde, ator que interpreta o compositor, é único. O livro jamais descreveria de forma eficaz tão expressiva alegria. O protagonista, porém, não conseguiria se salvar a tempo. Livro e filme contam como a deterioração da cidade, infectada, se confundia com a decomposição física do artista.
Na cena final, rica em detalhes tanto no filme quanto no livro, Aschenbach é entregue ao seu destino. Numa cadeira de praia, observando Tadzio, ele contempla pela última vez a beleza do jovem. E então morre de cólera e de amor, no cenário dos últimos ímpetos que teve – Veneza.
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