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11/01/2010 - 13h37 - Atualizado em 16/05/2012 - 19h25

Katia, Marielle e dois pianos fumegantes

Por Fernando Gonzalez, aluno do 2º ano de Jornalismo


Reprodução
As irmãs Katia e Marielle

O culto às celebridades não é uma prática exclusiva do mundo pop. Ao contrário, isso também acontece no meio da música erudita. Na verdade, esse costume de cultivar a admiração por um artista começou com o compositor e pianista Franz Liszt, no século XIX.

Um dos primeiros exemplares do fenômeno Beatle, Liszt era conhecido por cultuar seu status de celebridade e fazer de seus recitais verdadeiros espetáculos de virtuosismo. Sedutor e mulherengo, foi o responsável por determinar a posição dos pianos utilizada até hoje nas salas de concerto, para que seu perfil fosse favorecido.

Atualmente, no entanto, o status de celebridade deixou o mundo dos compositores, freqüentemente anônimos, voltando-se para os intérpretes. Cada qual à sua maneira, pianistas, violinistas e até mesmo regentes arrebatam o público utilizando-se de caras e bocas em nome da interpretação. Para quem conhece o maestro Gustavo Dudamel ou a pianista Valentina Lisitsa já sabe o que esperar de suas apresentações.

Assim, nesse clima de expectativa, as irmãs Katia e Marielle Labèque apresentaram seu já consagrado duo pianístico nos dias 13 e 14 de outubro de 2009 na Sala São Paulo, encerrando a temporada 2009 do Mozarteum Brasileiro. Conhecidas por apresentações memoráveis e algumas vezes até mesmo exageradas, as Labèque, que ganharam fama internacional depois de venderem mais de meio milhão de cópias da versão para dois pianos da Rapsódia em Blue de Gershwin, raramente se apresentam sozinhas. Esse costume, no entanto, é justificado. Estudando juntas desde 1955, Katia e Marielle se olham o tempo todo enquanto tocam e respeitam o ritmo uma da outra, de forma que fica difícil em alguns momentos perceber o que cada uma toca. Tamanha sincronia só pode estar no sangue.

Filhas de um médico francês e uma pianista italiana, as Labèque nasceram na cidade francesa de Hendaye, a menos de dois quilômetros da fronteira com a Espanha. E foi este o país que priorizaram no repertório em sua apresentação no Brasil. Excertos da Suíte Ibèria, de Isaac Albéniz, dominaram a primeira parte do concerto. Trajando calças pretas e blusas desenhadas pelo norteamericano Tom Ford, também interpretaram as peças com arranjos para dois pianos assinados por Enrique Granados, Abel Decaux e Joan Albert Amargos.

Na segunda parte do programa foi a vez de tocarem La Maya  y el Ruiseñor, de Enrique Granados, e Canción de Amor, de Paco de Lucia e Juan Albert Amargo. No entanto, foi com o Bolero, de Maurice Ravel, que as irmãs abandonaram a postura conservadora. Com arranjo para percussão assinado por Arthur Rinaldo e John Boudler, a peça de Ravel foi apresentada com a participação do grupo Piap, formado por alunos do curso de percussão da Unesp. Oito percussionistas trouxeram ao Bolero os sons e timbres do tamborim, pandeiro, berimbau, reco-reco, timbal, atabaque, ganzá, afoxê, chocalho, xequerê, ca-xi-xi, agogô e surdo, adicionando um sabor diferente a uma peça já tão conhecida.

Ovacionados com aplausos efusivos pelo público da quarta-feira, os integrantes do Piap protagonizaram o bis, com uma peça exclusivamente para percussão, que teve uma atuação inédita das irmãs Labèque. E foi com Marielle no pandeiro e Katia batendo palmas e dançando entusiasmada que a França colocou samba em seu beebop.



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