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11/01/2010 - 10h29 - Atualizado em 17/05/2012 - 12h54

A rosa púrpura do Cairo sob os efeitos da metalinguagem

Por Diandra Sanches Martins, aluna do 3º ano de Rádio e Televisão

Woody Allen e o filme dentro do filme

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Reprodução
Os atores Mia Farrow e Jeff
Daniels

A metalinguagem dentro de um filme acontece de forma visual, auditiva ou ambas. Através dela podem ser feitas críticas e/ou pontuações sobre a obra  em questão ou o cinema e a mídia em geral.
Em A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen, a imagem é extremamente importante, porque é através dela que os personagens fazem o uso dessa opção de linguagem. Isso acontece em vários momentos do filme.

O longa conta a história da garçonete Cecília (Mia Farrow), que cansada de sustentar o marido bêbado e desempregado, decide fugir da terrível realidade assistindo a filmes. Quando vê pela quinta vez um de seus prediletos, também intitulado “A Rosa Púrpura do Cairo”, algo surpreendente acontece. O herói Tom Baxter (Jeff Daniels) sai pela tela do cinema e se declara para ela. A rebeldia dele causa alvoroço entre os demais personagens e o ator Gil Shepherd (Jeff Daniels), que o interpreta, decide ir até o local do ocorrido, saber o que houve e tentar contornar a situação. Em meio a isso Cecília encontra-se dividida entre o personagem do filme e o ator.

Apenas pela sinopse nota-se que o longa é repleto de metalinguagem; a começar pelo nome, mesmo da obra que a personagem de Mia Farrow assiste diariamente. O título de Allen se propõe a contar a história de outro produto audiovisual, logo, um filme dentro de outro.

O cinema procura meios de atrair o grande público envolvendo-o, para que o espectador reconheça a história e se identifique com ela, propõe uma troca, uma visão mais democrática do filme. Para isso a metalinguagem torna-se umas das melhores formas de se auto-retratar. 

Em alguns casos, é necessários que o espectador “mate algumas charadas” para entender que ali está sendo feito uso dela, ou mesmo entender o que se passa na trama. Em A Rosa Púrpura não é preciso; o público entende com facilidade o enredo e para a maioria acredita-se que o recurso metalinguístico utilizado também é bastante claro, mesmo tendo uma visão superficial da trama.

A simpatia de Allen pelo artifício vem de uma de suas influências, o consagrado diretor italiano Federico Fellini. A Rosa Púrpura do Cairo não é o único filme no qual ele lança mão da metalinguagem, em A Era do Rádio (1987), também é possível identificar o recurso. Sendo que o primeiro é inspirado em O Abismo de um Sonho (1951) e o segundo em Amacord (1972), ambos de Fellini.

A Rosa Púrpura é um exemplo de que o recurso presente nas duas narrativas do filme é imprescindível para o andamento da trama. Quando o personagem Tom Baxter desvia o olhar de dentro do filme para Cecília, ele apaixona-se e decide sair das telas para ter uma vida com ela. Porém o herói encontra dificuldade para separar o real do imaginário ao qual estava acostumado, enquanto um personagem de cinema. A mescla de real/imaginário e a confusão de Baxter, acabam por refletir a reação do próprio espectador que durante o filme tem de estar atento às mudanças de uma narrativa para outra.

A metalinguagem no filme de Allen permite ao espectador sentir a paixão de Cecília pelo cinema e sentir-se dentro da história no momento em que ela apaixona-se por Baxter e eles vivem um romance dos sonhos. Situação almejada por muitos fãs aos irem ao cinema e assistirem seus ídolos, ou mesmo para aqueles que sempre sonharam com um romance “desses de cinema”.

Mais que a interatividade descrita acima, em A Rosa Púrpura, o verdadeiro espectador vê o filme que o espectador-personagem está assistindo. Participa em tempo real do que consta no enredo.

Todas as formas de utilização do recurso estão presentes nesta comédia que acaba sendo referência de uso da linguagem.



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