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09/12/2009 - 09h05 - Atualizado em 06/02/2012 - 12h36

Para pensar Cultura

Por Heitor Ferraz, professor de Jornalismo Cultural


Três livros e um tema: a crítica cultural no âmbito do Jornalismo

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Reprodução

Nas páginas do Suplemento Literário, encartados aos domingos em O Estado de S. Paulo, podia se encontrar o mais seleto time de críticos literários do país.

Além disso, também havia, na última página, um espaço dedicado à criação literária. Em seus anos de vida, grandes nomes da literatura brasileira publicaram ali seus poemas e contos ainda inéditos.

No miolo do Suplemento, a vida cultural do país pulsava em críticas sempre criteriosas, que não abriam mão de um rigor intelectual, mas numa linguagem acessível ao leitor do jornal. Elizabeth Lorenzotti, em Suplemento Literário, que falta ele faz! remonta a história deste que foi um dos mais importantes espaços de reflexão da cultura no Brasil principalmente entre os anos de 1956, quando circulou o primeiro número, a 1974, quando sofreu sua primeira mudança, até tornar-se Suplemento Cultural, depois Suplemento Cultura e sumir abrindo espaço para o Caderno 2, a partir de 1986.

Em sua criação, estava a dupla da influente revista Clima, ou seja, Antonio Candido e Décio de Almeida Prado (que foi o editor efetivo de 1956 a 1966). A partir de 1966, ele passou a ser editado pelo jornalista Nilo Scalzo. Recuperar esta história, os propósitos do Suplemento, sua concepção e o seu desejo de intervenção na vida cultural do país, nos faz pensar nos caminhos da crítica de cultura no país até os nossos dias, quando esses espaços começam a desaparecer para se tornar, cada vez mais, uma vitrine dos lançamentos culturais, com pouca mobilidade crítica.

Além de traçar a história do Suplemento Literário do Estadão, Lorenzotti também inclui entrevistas com Antonio Candido, Italo Bianchi (que foi o responsável pelo projeto gráfico inicial) e Nilo Scalzo. Como lembra Candido, no prefácio da obra, “o livro de Elizabeth Lorenzotti é uma contribuição que vai além do mero valor monográfico, pois constitui uma análise pertinente das relações entre jornalismo e cultura, à luz de um caso que soube estudar com rigor e competência”.


Ensaio Geral
Nuno Ramos
São Paulo: Globo, 2007

É cada vez mais forte a especialização crítica dentro do mundo da cultura, principalmente aquele que é tratado no jornalismo. Há o crítico de artes plásticas, o de música, o de cinema, o de literatura, o de teatro, criando pequenos feudos defendidos por altas muralhas. Chega a ser um paradoxo diante do próprio mundo da criação artística, especialmente no século 20, quando a barreira entre as artes se tornou cada vez mais frágil.

Muros foram derrubados em busca de uma maior expansão da expressão artística na vida contemporânea. Um livro que segue na contramão dessa limitação crítica é Ensaio geral, do artista plástico Nuno Ramos, um dos mais notáveis artistas brasileiros em atuação.

Nessa obra, que leva como subtítulo “projetos, roteiros, ensaios, memória”, o artista promove, em suas 416 páginas, uma forma híbrida de abordar a arte, incluindo ensaios sobre futebol, arte, canção, literatura, além de alguns estudos e reflexões sobre seu próprio trabalho de criação. O autor justifica esse hibridismo na apresentação do livro. E vale à pena copiá-lo aqui, pois a questão da especialização perpassa suas reflexões: “Para quem produz cultura no Brasil, há sempre, de um lado, as tentações da ausência de especialização, um sentimento de que tudo ainda está por ser feito, responsável pelo entusiasmo presente em algumas de nossas figuras intelectuais e em alguns de nossos momentos culturais decisivos. De outro, há um cansaço complementar e renitente, devido à inconclusão e impermanência de tudo e de todos, um sentimento de que a pedra que arrastamos não descansará jamais no alto da montanha. Como nada se fixa de todo e nenhuma conquista consegue enraizar-se, parece que estamos condenados a um eterno presente curiosamente intransitivo, voltado para o mesmo, descolado do que veio antes e do que deveria vir depois. Diante desses extremos, e de alguma forma mimetizando-os, acho que procurei, ao longo dos anos, manter meu trabalho numa espécie de latência, pronto para direcionar-se para sentidos quase opostos”.

Certamente, o jornalista cultural terá muito a aprender sobre a crítica diante de uma obra dessas, que trata de Euclides da Cunha, Nelson Rodrigues e o futebol, e de samba no ensaio “Ao redor de Paulinho da Viola”, cuja sensibilidade do artista-crítico soube ouvir a beleza do samba para além das categorias mercadológicas que regem a crítica atual de arte.


Razões da crítica
Luiz Camillo Osorio
Coleção arte +
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005


Publicado em 2005, na simpática Coleção arte +, da Jorge Zahar Editor, Razões da crítica, de Luiz Camillo Osorio, teve pouca visibilidade na crítica jornalística, muito mais afeita, hoje, aos livros mirabolantes, com imagens coloridas e uma enorme parafernália gráfica, que quase chegam a impedir a leitura das obras. Porém, este livrinho, sim, um livrinho de 70 páginas em formato de bolso, traz uma análise das mais consistentes sobre a crítica de arte hoje.

Osorio, que é professor de Estética e História da Arte da UniRio e da PUC-RJ, e autor da monografia Flavio de Carvalho (Cosac Naify, 2004), procura refletir sobre o presente e o futuro da crítica — não só de artes plásticas — nos periódicos e na academia. Para ele, a crítica é um espaço da reflexão.

Como ele diz, “o papel da crítica não é criar polêmica, mas procurar espaço para o confronto de idéias e a disseminação de sentidos para as obras de arte”. Para sua reflexão sobre a crise da crítica atual, ele procura trabalhar com conceitos da história da arte e da filosofia, principalmente comentando a Crítica da faculdade do juízo, de Kant.

Em poucas páginas, Osorio coloca a crítica em discussão buscando não soluções miraculosas para o impasse atual, mas sim propondo uma maneira de a crítica se colocar de forma mais atuante no contexto histórico em que vivemos, participando do processo de produção artística, em toda sua complexidade, no lugar de ser apenas um exercício de esnobismo e de julgamentos frágeis.

*Publicado originalmente na revista Communicare, publicação do Centro Interdisciplinar de pesquisa da Faculdade Cáper Líbero.