Presidente da Comissão do MEC explica as mudanças na graduação em jornalismo

No início do ano, o Ministério da Educação (MEC) instituiu uma Comissão para revisar as diretrizes dos cursos de jornalismo. Até chegar ao texto final, entregue ao MEC no dia 18 de setembro, foram pouco mais de seis meses de reuniões mensais e audiências públicas.
Agora, depois de ser analisado pelo MEC, o texto será encaminhado para o Conselho Nacional de Educação. Para esclarecer os principais pontos abordados nesta reforma, conversamos na tarde de sexta-feira (2) com o professor José Marques de Melo, presidente da Comissão, na sede da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) Brigadeiro. Sobre uma possível falta de diretrizes mais direcionadas às novas tecnologias, ele avisa: “O mundo hoje não se reduz à internet”. A seguir, os trechos dessa conversa.
Formação e trabalho da Comissão
A indicação foi feita por competência. Eu convidei sete pessoas que são competentes na área e tinham disposição para trabalhar voluntariamente, já que esse era um trabalho não remunerado. Esse documento não é o que eu penso e nem o que os membros da comissão pensam. É um apanhado geral, uma tentativa de obter um consenso nacional em relação às diretrizes.
Nós fazíamos pelo menos uma reunião mensal em Brasília, às vezes até mais. Uma equipe do MEC nós ajudou a controlar o processo, porque além das três audiências públicas, nós criamos um site para receber sugestões das pessoas.
Realidades brasileiras
As diretrizes anteriores eram burocráticas e exigiam disciplinas. Você vai verificar aí que nós não estamos burocratizando nada. Nós estamos, na verdade, incitando as universidades à criatividade. Cada um vai ter de fazer o seu projeto pedagógico e aplicar as diretrizes de acordo com as suas condições locais e regionais. Nós [do eixo Rio-São Paulo] vivemos em um mundo completamente distinto do resto do Brasil. Temos algumas instituições que já estão plenamente integradas a essas diretrizes, mas a maioria não está. Nós estamos propondo que mude o eixo do ensino, que os professores sejam integrados em equipes a partir de determinados indicadores que sejam colhidos junto às aspirações dos estudantes, mas também às aspirações das empresas e da sociedade.
Repercussão
A esperança das pessoas em relação a esse documento é o que eu costumo chamar de “complexo do colonizado”. A gente sempre imagina que existe uma coisa mais avançada fora do País e quer trazer isso para cá. Nós trabalhamos com outra lógica, que é a das necessidades nacionais. Nós não precisamos ter um curso de jornalismo neste momento além do que nós já temos. Qual é o déficit que nós temos no País? A grande maioria da população não lê jornal, não passa pela informação jornalística. Nós não vamos fazer um currículo para implantar coisas da pós-modernidade para atender a meia dúzia de grupos que querem elementos super sofisticados. Estamos pensando em cursos de jornalismo capazes de formar jornalistas que vão arranjar emprego na sociedade que nós temos. Eu espero, aliás, depois que fizermos uma avaliação daqui a cinco anos, constatar que houve alguma mudança. Vai depender das escolas. Se elas não fizerem nada, elas vão continuar como estão.
Expectativa do mercado de trabalho
Eles não querem técnica [os órgãos de imprensa]. Eles querem profissionais que tenham bagagem cultural suficiente para não precisar passar uma pauta e dizer “você vai ler primeiro dois livros para você saber do que você vai tratar”.
Estágio obrigatório
Estágio em qualquer profissão é uma observação da realidade. Porque você aprende uma série de conhecimentos na faculdade que não são aplicados. Você não vai fazer o trabalho, você vai ver como é feito, vai acompanhar um profissional, e não ocupar o lugar de um profissional. Como vai funcionar a fiscalização eu não sei, mas as instituições vão ter de buscar soluções. O estágio é reivindicação histórica dos estudantes de jornalismo. É a única profissão neste País em que o estágio supervisionado é proibido.
Órgãos Laboratoriais
Os órgãos laboratoriais não são órgãos reais. São experimentais, não tem ritmo. Só existe nesse País uma faculdade que tenha o que todas as universidades americanas têm, que é um jornal diário circulando feito pelos alunos - que é a Universidade Positivo, de Curitiba. Mas se a faculdade tiver um órgão que seja diário, tenha ritmo, o aluno pode fazer seu estágio lá. O que não pode é ser um estágio fajuto.
Trabalhos de Conclusão de Curso
O aluno pode integrar uma equipe e entregar a parte dela, mas a avaliação é feita individualmente. Ele tem de provar que tem capacidade de fazer. Integrar uma equipe é fundamental na atividade do jornalista.
Novas Tecnologias
O mundo hoje não se reduz à internet. Nós não acreditamos que deve haver uma ênfase em novas tecnologias. Mas se a faculdade quiser um curso com matérias mais específicas sobre isso, ela pode fazer. O MEC estabelecia uma camisa de força e todos os cursos eram iguais uns aos outros. Nós estamos abrindo as possibilidades para a criatividade e a imaginação. Nós esperamos que as faculdades procurem ter suas identidades. Nos Estados Unidos, cada faculdade de jornalismo tem uma personalidade.