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08/12/2009 - 09h42 - Atualizado em 15/05/2012 - 08h03

Shots de Silêncio

Por Pedro de Biasi, do 1º ano de Jornalismo

33ª Mostra - 35 Doses de Rum

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Reprodução
O filme de Claire Denis é calcado
em silêncios

O enredo de “35 Doses de Rum” é bem vago. Leonel (Alex Descas) vive com a filha Joséphine (Mati Diop), estudante de vinte e poucos anos. No mesmo prédio, moram a balzaquiana Gabrielle (Nicole Dogué) e Noé (Grégoire Colin), que têm vínculos quase familiares.

A aposentadoria do colega de Leonel, René (Julieth Mars Toussaint), é uma das forças que impulsionam a história, assim como a aproximação entre Noé e Joséphine. Além disso, o departamento de antropologia da faculdade da jovem está sob a ameaça de ser fechado, e trará mais conflitos.

O filme de Claire Denis é calcado em silêncios. Cada um dos raros diálogos serve para abalar emoções que vivem em paz na quietude. É nos abraços, nos beijos, nos gestos e nas expressões que os personagens estabelecem suas relações. As palavras emotivas indicam que eles não estão prontos para se aceitar intimamente e precisam verbalizar. Elas são cuspidas com dificuldade e doem, mas são necessárias.

Demonstrações de afeto como abraços e beijos são reproduzidas exaustivamente. A diretora mantém o enquadramento idêntico, para reforçar a repetição. Em certos momentos, frases breves também são usadas para afagar. Essas cenas de carícia verbal, no entanto, começam e terminam em silêncio e mantêm contato corporal constante.

René embarca na maior fala do filme: um monólogo de tristeza e angústia profundas. É como se o mero ato de falar já trouxesse infelicidade. O mundo sentimental criado para a obra é plano e se limita a uma mesmice afetiva. Sempre que alguém, especialmente Gabrielle, tenta falar mais, encontra resistência. De fato, os diálogos variam do funcional ao banal. Quando saem dessa linha estável, continuam curtos, mas adicionam uma camada de preocupação que acompanha o roteiro até o fim.

O título é uma referência ao secreto. Como Leonel faz questão de mostrar, as 35 doses de rum talvez sejam uma história, mesmo. Porém, mais do que isso, elas são um estado de espírito. É disso que a obra trata. Há um passado por trás daqueles personagens e suas ligações emocionais, mas revelações não têm importância. A pura emoção do momento e o modo como ela é transformada por acontecimentos externos, revela muito mais.

Denis e o co-roteirista Jean-Pol Fargeau não se reportam a fatos, acontecimentos e picos dramáticos. Logo, não há espaço ou tempo para se investigar eventos. Sempre que um elemento novo surge, a diretora dá enfoque ao sentimento que ele causa. Só perto do final há uma exposição, há um choque que destoa da história sentimental velada até então. Mesmo assim, o filme com um impecável elenco consegue enquadrar o que há de mais abstrato na vida humana com muita sobriedade.