Conheça as curiosas histórias dos obituários da Folha de S.Paulo

Os obituários brasileiros costumam resumir-se a pequenas notas de falecimento. Esporadicamente, há menção a algum morto famoso, mas o texto confunde-se com uma espécie de mini-biografia. A Folha de S.Paulo, no entanto, vem investindo há cerca de um ano na publicação diária de um obituário mais criativo, nos moldes dos publicados nos jornais ingleses e americanos e, em especial, no do New York Times. Inicialmente comandada por Willian Vieira, hoje a coluna tem como responsável o jornalista Estevão Bertoni.
Estevão, que já trabalhou como redator nos cadernos Cotidiano, Folhateen e Ilustrada, responde pela seção desde meados de 2008. Seus textos destrincham detalhes curiosos da vida de personagens inusitados. “Certa vez achei um boxeador que havia ficado cego e continuou lutando sem avisar a federação. Ele morreu após tentar levantar 150kg na academia”, lembra ele.
Para encontrar os personagens, Bertoni utiliza como fonte notícias de internet, TV e de outros veículos impressos. A partir daí, ele tenta filtrar boas histórias. Além disso, está sempre atento a profissionais que foram importantes em seu meio, como por exemplo, professores, médicos e engenheiros. “Gosto de escrever sobre pessoas que têm histórias interessantes, sejam elas conhecidas ou não”, afirma ele.
Quando não consegue extrair nada destas fontes, Estevão usa a lista de óbitos do Serviço Funerário Municipal, a mesma que abastece os anúncios de falecimento gratuitos, publicados pela Folha e pelo Estadão. São notas curtas, com informações básicas do falecido, enviadas diariamente às redações, informando apenas mortes naturais de idosos. Segundo a assessoria de imprensa do Serviço Funerário, a publicação das notas é uma tradição e um serviço prestado à comunidade.
O espaço gratuito também pode ser usado para informar qualquer falecimento, a pedido direto dos familiares ou amigos. Lúcia Bakri, responsável pelos anúncios da Folha, garante que “todas as notas enviadas são publicadas”. As famílias contam ainda com a opção de pagar por um espaço destacado no jornal. Neste caso, os preços vão de cerca de R$1,7 mil a mais de R$310 mil, dependendo do tamanho do box e do dia da semana.
Relembrar a vida
Já o texto da coluna diária de Estevão Bertoni é gratuito, e demanda uma relação mais próxima do obituarista com parentes e amigos. Para extrair detalhes e curiosidades da vida do personagem, o jornalista conversa com pessoas próximas do falecido. “Acho a família mais indicada pra dar as informações, mas é bom sempre falar com muita gente, quando o tempo para a apuração ajuda”, afirma.
Outra boa fonte de informações, revela o jornalista, são os enterros e velórios. “Certa vez fiz um perfil sobre uma psicóloga assassinada. Quando expliquei para a família que eu queria conversar sobre o lado pessoal, e não sobre o crime em si, o pai dela conversou numa boa e, depois de publicado, agradeceu-me. Uma conversa assim é muito mais tranqüila”, revela Bertoni.
Os e-mails para Bertoni são freqüentes. “Tem muita gente que comenta a coluna, alguns dizem ter conhecido o morto. Há também quem se identifica com o personagem e decidem desabafar, escrevem sobre a própria vida. Outro dia, um rapaz mandou uma mensagem elogiando a coluna e pediu para eu escrever um obituário dele quando morrer. São coisas assim que chegam”, diz.
Por lidar diariamente com a morte, Estevão aprendeu a tratar o assunto com mais naturalidade. “Já percebi que o melhor remédio é sair falando dos mortos. Lembrar das coisas que a pessoa fez, recordar episódios e histórias deixa os familiares mais aliviados. Os obituários acabam sendo um conforto a mais. Pelo menos é o que me dizem depois que leem o texto publicado”, comenta.
Livro das vidas do NYT
Traduzido para o português em 2008 pela Cia. das Letras, O Livro das Vidas – Obituários do New York Times traz uma coletânea dos famosos obituários do jornal americano. Os textos têm um requinte raramente visto no jornal diário e algumas das narrativas são dignas de epopéias, como o caso do desastrado piloto de avião que decolou com destino a Los Angeles e acabou pousando na Irlanda, ou do apaixonado por máquinas de escrever que passou a consertá-las com maestria após sobreviver aos campos de concentração nazistas.
Estevão, o obituarista da Folha, chegou a ler alguns capítulos de O Livro das Vidas, escritos por jornalistas que se tornaram verdadeiras lendas do ramo, mas nega qualquer influência dos obituários americanos: “Às vezes as pessoas me fazem perguntas sobre o livro, como se eu tivesse obrigação de conhecer cada linha dos obituários do jornal. Não conheço e não sinto falta. Ler meus escritores favoritos me ajudou muito mais a escrever meus textos”.