Intrigas de Estado traz reflexões sobre o futuro dos jornais impressos

No filme Intrigas de Estado (State of Play/2009/EUA) o repórter especial do Washington Globe, Cal McAffrey (Rusell Crowe) representa o típico estereótipo do jornalista, com seus cabelos mal cuidados, mesa desorganizada e aparente desapego material.
Na adaptação da série inglesa de 2003 (e homônima) da BBC para o cinema, é o espírito apurador de McAffrey que levanta uma conexão entre um assassinato duplo no subúrbio de Washington e a misteriosa morte de Sonia Baker (Maria Thayer), amante e integrante da equipe do congressista Stephen Collins (Ben Afleck) – amigo dos tempos de faculdade do jornalista.
McAffrey descobre fatos que ligam os dois incidentes à indústria armamentista e dão ao longa um caráter político. O jeitão de thriller, porém, divide a cena com um debate sobre jornalismo. A jovem (e inexperiente) repórter do Washington Globe, Della Frye (Rachel McAdams), faz um post no blog de política do jornal sobre o relacionamento extra-conjugal de Stephen com Sonia e está disposta a participar da reportagem.
O veterano jornalista concorda com a ajuda e a dupla, além de render ótimas cenas, representa um confronto entre a nova e a velha mídia, que permeia todo o filme: afinal, o que têm mais valor? O imediatismo do online ou as notícias eternizadas e melhor apuradas (ao menos, na teoria) dos jornais impressos?
Todos os Homens do Presidente
Por causa do debate sobre jornalismo e política, é quase inevitável não comparar Intrigas de Estado com Todos os Homens do Presidente, assumidamente a grande inspiração do roteirista Matthew Michael Carnahan na composição da história. O caso Watergate servia de pano fundo ao clássico de 1976; na adaptação, porém, a trama é fictícia.
No desenrolar do enredo, é a amizade de McAffrey pelo congressista que o motiva a prosseguir a investigação, proximidade contestada por sua editora, Cameron Lynne (Helen Mirren): “jornalistas não têm amigos, têm fontes”. Mas Lynne também não está livre de dilemas éticos: diante da ligação entre os incidentes, o melhor a fazer é apoiar uma reportagem aprofundada ou ceder às pressões mercadológicas (e sensacionalistas) dos novos donos do jornal?
Cheio de reviravoltas, Intrigas é um thriller político que não para um segundo. Ao final, porém, prevalece o questionamento sobre jornalismo. A conclusão que o diretor Kevin Macdonald deixa é bastante clara. Se o espectador vai concordar ou não, é outra história.
O inegável é a pertinência da reflexão de Intrigas, principalmente na atual conjuntura da mídia impressa nos Estados Unidos. Em 2009, devido à crise financeira, diversos jornais fecharam suas portas, migraram para a internet ou reduziram o número de páginas, cadernos e funcionários.
Intrigas de Estado (State of Play)
(EUA, 2009 - 127 minutos)
Direção: Kevin Macdonald
Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy e Billy Ray
Elenco: Russel Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Helen Mirren, Jeff Daniels, Josh Mostel, Michael Weston, Barry Shabaka Henley, Viola Davis e Maria Thayer