Com pouco mais de 84 anos, Altamiro Carrilho continua demonstrando maestria e bom humor no palco. O flautista, que já gravou uma centena de CDs e compôs mais de 200 choros, sambas e até música erudita, esteve em São Paulo para duas apresentações em março.
O novo show do músico traz o lançamento da coletânea Poesia do Sopro, dividida em três CDs; dois são resultado de um show feito no Teatro Municipal de Niterói-RJ em 2006 e o outro conta com gravações memoráveis da década de 50.
Antes do show, Altamiro falou rapidamente sobre os novos lançamentos, criticou a indústria cultural e demonstrou interesse em propor projetos musicais para a educação. Nos poucos minutos de entrevista, foi muito solícito e, quase tímido, pediu desculpas por não poder falar mais nem um segundo. Estava prestes a entrar no palco, sorrindo e arriscando alguns passinhos de dança.
O que o senhor espera do público com o lançamento da coletânea Poesia do Sopro e da caixa contendo quatro DVDs, A fala da flauta, prevista para o final do ano?
Bem, o DVD vem mostrar aspectos da minha carreira que ainda não foram publicados, mostrados, e nem podemos descrever com palavras. É preciso haver músicas, gestos e brincadeiras de estúdio. Em resumo, coisas que acontecem e que o público nunca soube. Quando ele ouve uma música bem executada, bem acompanhada, não sabe o trabalho que deu pra preparar aquilo, mas é a nossa profissão, são “cavacos do ofício”. A intenção é trazer o trabalho para perto do público, algo que nunca foi feito. É uma aposta nova pra mim.
Existem outros planos além destes?
Estou esperando sair este DVD pra começar projetos de música nas escolas. Fazer iniciações musicais em todos os Estados do Brasil com um grupo ensaiado, preparado, e passar para a criança e para os jovens conhecimentos que eles só aprenderiam dali a quinze anos. Porém, todo esse trabalho deve ser feito com trabalho constante, bem elaborado e com boa vontade.
Você em outros tempos se considerava um músico “vira-lata”. Como é isso?
Essa fase já passou (risos). Hoje, até os grandes talentos se reúnem em rodas populares de choro, porque, apesar de todo o talento, falta alguma coisa, e quem sabe isto é o vira-lata. Quem não estudou profundamente a música também tem seu lugar, porque sabe coisas que os outros não sabem. Não adianta ter só o diploma na mão, porque diploma não toca. É preciso vivência, contato com tudo o que é tipo de músico.
Existe alguma flauta especial que o senhor tem até medo de tirar do armário?
Com certeza. Mas acontece que fui obrigado a trazê-la para os shows porque não encontrei nada igual. Foi fabricada há mais de cem anos; é um instrumento de ébano e prata. Foi feita na Alemanha e é uma verdadeira raridade, não se encontra mais um piccolo (versão mais aguda da flauta) desta época tão bem conservado. Eu procuro sempre passar uma flanela nela depois de tocar, tirar a poeira ou uma gota de saliva que possa estar escondida. Tem que haver aquele cuidado de um pai para um filho, senão o músico não se dedica totalmente ao instrumento.
Devido ao grande número de gravações, participações e andanças pelo mundo, muitos de seus arquivos originais foram perdidos com o decorrer do tempo. Qual a gravação mais marcante da qual não se tem notícia?
A gravação original de Flauteando no Chacrinha, uma das primeiras composições minhas, da década de 40, por volta de 1945 ou 1946.
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