Contribuição da Faculdade para o debate “Diretrizes Curriculares do Jornalismo”

A Faculdade Cásper Líbero entende que debater e refletir sobre o ensino de Jornalismo é uma iniciativa importante, sobretudo frente ao desafio das novas tecnologias da informação que colocam a atividade diante de outros desafios e propostas. Hoje o egresso tem de estar preparado não apenas para as clássicas atividades de entender e interpretar o mundo em que vive, apurando e reportando fatos que interferem na vida do cidadão, como tem de desenvolver habilidades num espectro muito mais amplo: desde elaborar um texto interpretativo de alta complexidade como uma notícia de 137 caracteres para alimentar o banco de dados de notícias por celular. Discutir o ensino e novas matrizes curriculares é sempre oportuno.
1. O perfil desejável do jornalista diante das transformações políticas, culturais, sociais e tecnológicas contemporâneas.
A escola deve estar comprometida e atenta em fornecer formação e aprendizado com forte ênfase no referencial das ciências humanas, pois o jornalista deve ter uma bagagem ampla de conhecimentos (de história, de economia, de sociologia, de antropologia) para enriquecer o seu olhar e o modo como entenderá e interpretará os fatos dentro desse contexto. Essa formação é fundamental também para o modo e eficácia que irá exercer sua cidadania. Ao mesmo tempo, a escola deve proporcionar ocasiões de aprendizado com as novas tecnologias e linguagens (captação, edição e pós-produção de imagens, recursos de edição gráfica, conhecimento do software livre, participação nas redes sociais, linguagem dos blogs). Essa formação é condição fundamental para que o egresso saiba ler e interpretar os fatos que vivencia, com sensibilidade para o uso democrático e cidadão dos meios, na busca pelo desenvolvimento do país, como diz no juramento do exercício da profissão. Ele deve ter clareza sobre qual é seu ofício, para que serve sua formação, e por que faz diferença na sociedade.
Diante disso, há a necessidade de uma revisão no perfil do egresso, que deve ter como horizonte de expectativa não ser um “especialista”, mas um profissional “multimídia” e com espírito empreendedor, capaz de atuar num campo em transformação, que exige o domínio das novas tecnologias da informação. O perfil desse jornalista multimeios apresenta características de versatilidade (faz reportagem visualizando a cobertura como texto ou audiovisual) e embute o conceito de interatividade na forma como produz o conteúdo jornalístico.
Esse profissional exercerá sua atividade em diferentes meios: internet, vídeo, áudio, texto, meios eletrônicos, atento à convergência das mídias. Ao acompanhar o lançamento de um serviço de saúde, gravará entrevista (imagem e som), anotará idéias para redigir artigo para uma agência noticiosa ou jornal e ou SMS (Short Message System), dando vazão à sua produção pela mídia sonora (rádio na internet), jornal, celular, apto a adaptar-se às demais plataformas de distribuição da informação que surgirem nos próximos anos.
2. As competências a serem construídas na formação superior desses profissionais em termos de conhecimento, habilidades, atitudes e valores.
A Cásper Líbero entende que seu programa atual é modelar: oferecer formação aprofundada nos diferentes campos das humanidades (sociologia, filosofia, antropologia, ciência política, história, economia, estética), com disciplinas concentradas nos primeiros anos do curso. A partir daí se dá a formação específica para o exercício profissional (rádio, telejornalismo, novas linguagens e tecnologias da comunicação, convergência das mídias e experimentação de linguagens). Isso se dá com a oferta de situações de aprendizagem prática em órgãos laboratoriais (Rádio Universitária, programa de TV Edição Extra, revista Esquinas, boletim mensal A Imprensa, o Site de Jornalismo) e a aprendizagem em pesquisa com projetos orientados no CIP (Centro Interdisciplinar de Pesquisa).
Competências: além da formação humanística e de dominar as habilidades específicas da prática jornalística (podendo atuar na reportagem e edição de impressos, internet e TV e rádio), o aluno é estimulado a desenvolver novos empreendimentos, com capacidade crítica de entender, analisar e interpretar o mundo em que vive.
Habilidades: apurar, pesquisar, selecionar e interpretar fatos, colher opiniões, interpretar relatórios, gerenciar conteúdo, mediar redes sociais, dando forma noticiosa a acontecimentos sociais, utilizando a linguagem jornalística mais adequada ao meio para o que ele reporta.
Atitudes e valores: o egresso fornecerá boa parte dos elementos que o cidadão utilizará para interpretar e interagir com o mundo em que vive (no sentido de formador de visão e fornecedor de visões de mundo para seus leitores, espectadores, ouvintes, internautas. Por esse motivo, deve ser preparado a se questionar e assumir um comportamento ético e uma reflexão crítica e embasada, para não passar adiante visões preconceituosas ou ideologizadas, notícias não confirmadas ou versões não contrastadas (a prática do contraditório é uma regra de ouro em nossa atividade e docência). Por esse motivo, além da disciplina de legislação e prática, há um curso de ética com alto teor de discussão filosófica.
3. Criação de cursos de graduação e mestrado e doutorado em jornalismo, e não meras habilitações ou linhas de pesquisa de cursos de comunicação. Qual a sua opinião sobre essa proposta?
Retirar o curso de Jornalismo do guarda-chuva dos “Cursos de Comunicação” implica a idéia ou a oportunidade prática de que uma faculdade ofereça um ciclo básico comum aos cursos sob essa denominação (Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Editoração). Não é isso o que ocorre na Cásper Líbero, onde as coordenadorias de ensino montam a matriz curricular com independência, não oferecendo esse “básico” comum a todos os cursos da área da comunicação. Portanto, a saída desse guarda-chuva não irá alterar em nada a graduação em jornalismo oferecida pela Cásper Líbero.
No entanto, no caso do mestrado e do doutorado, tirar o curso de Jornalismo desse marco parece um retrocesso, sobretudo diante do quadro de convergência das mídias em que vivemos hoje. Compartimentar é voltar a uma mentalidade não compatível com os tempos transdisciplinares que nos cabe viver, com a ampliação das competências para o exercício das profissões – e das habilidades e competências. É este, aliás, o conceito que serve de fundamento para o Programa de Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero. Tendo como área de concentração a Comunicação na Contemporaneidade e, como linhas de pesquisa, Processos Midiáticos: Tecnologia e Mercado e Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento, o programa trabalha o ensino, a orientação e a pesquisa nesse sentido amplo – de intercruzamentos inter e transdisciplinares, com a atenção voltada tanto para a produção midiática, com foco no jornalismo, quanto para os processos tecnológicos que marcam, com expressivo vigor, a Comunicação e o Jornalismo nos dias que correm, como já se disse.
4. Dupla diplomação: deve o exercício profissional do jornalismo ser permitido a profissionais de outras áreas após uma formação complementar em jornalismo? Em caso afirmativo, como deveria ser essa complementação?
A Cásper Líbero entende que o exercício da profissão não deve ser uma reserva de mercado, portanto concorda que qualquer profissional bacharelado em outras áreas pode exercer a atividade jornalística, desde que preparado num curso complementar, que pode ser de dois anos, como vem sendo discutido. A própria faculdade montaria um curso de qualidade para habilitar profissionais de outras áreas, mas entende que esse curso seria oferecido separadamente, como no nível de uma pós-graduação, supondo dos candidatos uma preparação, experiência e maturidade prévias. Afinal, a prática jornalística no contexto atual é entendida não como atividade de especialistas simplesmente, mas como direito e condição para o exercício da cidadania e da democracia.
5. Formação do profissional multimídia. Deve ser feita? Com que perfil?
A formação do jornalista como um profissional multimídia está implícita na descrição do perfil (item 1). Esse profissional multimídia é um generalista com sólida formação cultural e humanística, mas com um conhecimento, aprendizado e domínio das novas tecnologias que permite atuar num campo em veloz mutação, que exige o domínio e compreensão de diferentes linguagens e de diferentes mídias e tecnologias e suas consequências (sociais, estéticas e econômicas). Ele deve saber trabalhar em equipe e reconhecer quando um acontecimento tem cobertura mais eficaz se reportado em áudio, vídeo, foto ou texto – ou a combinação dessas distintas linguagens, reconhecendo as possibilidades de cada uma. Esse profissional aumenta sua empregabilidade pela versatilidade em atuar em várias etapas e segmentos da comunicação e pela percepção de novas aplicações e possibilidades de emprego de suas habilidades (empreendedorismo). Uma das variantes a que a Faculdade pretende estar atenta é a formação e visão para “o negócio”, permitindo o egresso empreender, criar e ocupar novas posições. Há cinco anos, ao pensar uma matriz curricular, ninguém fazia idéia de que os alunos de nosso curso estariam hoje criando notícias para celular, para a TV Minuto ou BusTV, que veiculam notícias sintéticas em vagões do metrô ou ônibus. Paralelamente a isso está a sensibilidade do egresso em promover o uso democrático e cidadão das tecnologias multimídias, como meio de alavancar o desenvolvimento cultural e social do país em que vivemos.
6. Sugira modificações:
a) nos processos de autorização e reconhecimento dos cursos? Quais?
Os cursos de Jornalismo deveriam abrir uma variedade maior de cursos de extensão para estudantes universitários, participantes de organizações cidadãs e do terceiro setor, agentes de movimentos sociais. Habilitando um número maior de cidadãos comprometidos com mudanças a exercerem a prática da comunicação num contexto democrático e cidadão – e não fechar a oferta do curso como uma reserva de mercado. Além disso, é importante que haja maior seleção e rigor nos processos de autorização e reconhecimento dos cursos. Não se deve, sob qualquer pretexto, reduzir as exigências para uma formação de qualidade, na linha já apontada, não por último tendo em conta a responsabilidade social e política do profissional jornalista. A mesma seleção e rigor deve ser exigida na autorização e reconhecimento de cursos complementares de Jornalismo para bacharéis de outras áreas – caso aprovada a proposta –, de tal forma que o resultado final não se traduza no crescimento numérico de diplomados que, de resto, já existem em excesso, muitos egressos de cursos aprovados sem muito critério.
b) no sistema de avaliação de cursos? Quais?
A avaliação deveria estar mais focada em privilegiar cursos que pensam e buscam propostas criadoras, que ousam pedagogicamente. Não se ater apenas a contagem de mobiliário e titulação ou número de artigos publicados pelos docentes, mas a efetiva criação didática e inovadora dos mesmos. Essa avaliação deveria estar atenta e pontuar experiências de novos formatos de ensino-aprendizado de práticas transdisciplinares.
7. Que outras sugestões, propostas e avaliações acredita que devam ser feitas à Comissão do MEC?
O Ministério deveria buscar incentivar a criação de mentalidades menos rígidas, matrizes mais diversificadas, que contemplem e atendam demandas regionais e locais, dentro de uma proposta que seja ao mesmo tempo global (a característica do local no chassi global das novas tecnologias da informação).
Ao mesmo tempo, os avaliadores do Ministério deveriam estar atentos à produção jornalística inovadora: de um lado, a produção e geração de conteúdos multimídias para novos canais (como é o caso da TV Minuto, BusTV, celular, iPods), de outro a participação da escola em projetos de organizações cidadãs e do terceiro setor, junto a agentes de movimentos sociais.