Livro é resultado de dez anos de pesquisa jornalística
Laurentino Gomes, jornalista e escritor, esteve na Faculdade Cásper Líbero no dia quatro de março de 2009 para ministrar a aula magna do curso de jornalismo. De sorriso fácil e fala pausada, Laurentino palestrou aos alunos sobre a carreira de jornalista e sobre seu sucesso recente, o livro “1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.
O simpático paranaense de Maringá, que entrou na carreira de jornalista quase por acaso, já que havia optado por psicologia e foi convencido por amigos a tentar também o curso de jornalismo, buscou com o livro resgatar a história da corte portuguesa no Brasil, usando uma linguagem simples e acessível, sem sacrificar o rigor e a fidelidade aos fatos históricos.
Como jornalista, passou por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira, como a revista Veja e o jornal O Estado de S. Paulo e, em 2008, tornou-se conhecido do grande público pelo lançamento de “1808”. O livro, inicialmente rejeitado pela editora Sextante, que não acreditava no sucesso de uma obra sobre história do Brasil, acabou saindo pela editora Planeta e, em um ano, virou best-seller, ultrapassando a marca de meio milhão de exemplares. Foi a obra de não-ficção mais vendida no Brasil em 2008, segundo ranking divulgado pela revista Veja.
A idéia nasceu de uma série de especiais históricos encomendados pela própria Veja, onde trabalhava como editor executivo em 1997. O projeto incluía um especial sobre o Descobrimento, um sobre a fuga da família real e um sobre a Independência, mas apenas o primeiro título foi publicado. As outras duas pautas caíram por falta de gancho. O autor, no entanto, contaminado pela pesquisa já iniciada, seguiu em frente em uma investigação que durou dez anos e resultou na obra vencedora do “Prêmio Jabuti de Livro do Ano de 2008”, categoria não-ficção, e eleita o “Melhor Ensaio de 2008” pela Academia Brasileira de Letras.
Em entrevista ao site, Laurentino Gomes falou sobre a produção do livro e os planos para sua próxima obra.
Antes de “1808” você já pensava em escrever um livro ou foi uma idéia que surgiu a partir dos especiais da Veja?
Eu já pensava em escrever um livro, mas era um daqueles sonhos com os quais você sonha a vida inteira e nem sempre realiza. Trabalhando em jornais e revistas eu sempre convivi com o prazo de fechamento e, ao fazer o livro, eu descobri que também tinha a necessidade de cumprir um prazo. Percebi que teria que lançar no ano da efeméride dos 200 anos da corte no Brasil. Era o dead line. Se eu deixasse para lançar esse livro daqui a cinco anos eu provavelmente perderia a oportunidade. Assim, “1808” antecipou meu plano de, ao me aposentar, escrever livros de história. Para mim, foi uma felicidade.
Você costuma dizer que o livro nada mais é do que uma grande reportagem. Como foi adaptar o processo de apuração jornalística à história?
A diferença entre fazer uma reportagem e fazer um livro de história como este está na profundidade da apuração, no tempo disponível e numa outra característica curiosa: nenhum dos personagens está vivo. Mas a técnica de apuração é mais ou menos a mesma, ou seja, você tem que ler muito e confrontar fontes. Nem tudo o que está nos livros é confiável, é preciso checar e ver o que a historiografia aceita como fonte autorizada. É preciso também ir ao local onde as coisas aconteceram para sentir o clima. É daí que vem a emoção. O calor da reportagem é você sair da redação e ir entrevistar pessoas, conhecer os lugares e viver o ambiente da notícia. Foi o que eu fiz em “1808”. Embora o acontecimento tenha se passado há 200 anos, ainda hoje é possível visitar os palácios, os locais onde a corte esteve, onde ela embarcou, onde desembarcou, visitar os inúmeros museus que fazem referência a esse episódio, etc. Tudo isso ajuda a construir o sabor da reportagem, é o que dá tempero à narrativa.
Você conta na abertura do livro que trabalhou com mais de 150 fontes diferentes. Como foi lidar com um volume tão grande de informação?
É aquela velha história, uma fonte puxa a outra. No começo tive a orientação de uma historiadora muito importante, Maria Odila Leite da Silva Dias, autora de um livro fundamental para entender esse período chamado “A interiorização da metrópole e outros estudos”. Foi ela quem me deu a bibliografia básica, indicando autores como [Manuel de] Oliveira Lima e Tobias Monteiro. A partir dessa bibliografia básica eu fui construindo minha própria sequência de pesquisa. Na bibliografia de um livro você descobre outros que precisa ler. No final eu tive que ser muito disciplinado ou esse processo nunca teria fim. Sempre vão surgindo fontes novas.
Qual foi a contribuição da imprensa na sua pesquisa? Você usou fontes jornalísticas?
Usei sim, até porque saíram muitas matérias sobre esse assunto nos últimos anos. Usei matérias da Veja, da Superinteressante, da Revista de História da Biblioteca Nacional, artigos antigos de jornais sobre a viagem da família real, etc. Pesquisei, por exemplo, um livro fascinante que conta a história do Rio de Janeiro depois da chegada da corte através de anúncios de jornais: “O Rio antigo nos anúncios de jornais (1808-1850)”, de Delso Renault. É um livro incrível que traz anúncios publicados na Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal a ser publicado em território nacional a partir de dez de setembro de 1808 – já que o Correio Braziliense era publicado em Londres. No começo, eram anúncios muito simples como “compra-se um cavalo”, “vende-se uma casa” ou “recompensa-se pela captura de um escravo fugitivo”. Depois de dois ou três anos, nota-se uma sofisticação e os anúncios passam a oferecer chapéus, perfumes, vestidos da última moda de paris, cabelereiros que penteavam as senhoras da corte, aulas de latim, de canto, de inglês, de francês, enfim. Pelos anúncios dos jornais da época você consegue observar uma transformação do Rio de Janeiro e do Brasil depois da chegada da corte.
Enquanto pesquisava e escrevia o livro, você passou por algum apuro?
Esse livro é uma narrativa secundária da história do Brasil. Eu raras vezes fui aos documentos originais. O que eu usei foi a bibliografia já construída por outros historiadores. Mas em alguns aspectos eu fiz sim pesquisa primária e a situação mais desafiadora que eu enfrentei foi quando eu descobri que o arquivista real Luis Joaquim dos Santos Marrocos tinha uma filha que não aparecia nos livros de história. Ele é um personagem importante da história da corte portuguesa no Brasil e eu fiz a descoberta pesquisando no site de genealogia dos mórmons. Isso me transtornou profundamente porque eu fiquei no dilema que todo repórter vive quanto descobre uma boa informação: você não pode ignorar o que descobriu, mas tem que tomar cuidado com o jeito como vai publicar, para não cometer uma barrigada [publicar informação errada]. Decidi aprofundar a pesquisa e, com ajuda de alguns colegas jornalistas do Rio de Janeiro, fui aos arquivos da Catedral da Sé. Pesquisamos as certidões de batismo da época e conseguimos assim comprovar a informação. Essa menina, nascida em 1814, me tirou o sono durante várias noites e me deixou muito inseguro a respeito do rumo que essa investigação poderia tomar.
E algum historiador prosseguiu com esta pesquisa?
Sim, uma historiadora argentina residente em Portugal chamada Cristina Norton está fazendo uma biografia do Luiz Joaquim dos Santos Marrocos. Ela afirma que será muito utilizada a informação de que ele teve uma filha fora do casamento, revelada em primeira mão pelo “1808”.
Alguns historiadores se ressentem quando jornalistas resolvem escrever sobre história. Você notou alguma reação dos historiadores ao seu livro? Houve alguma resistência acadêmica?
No começo sim, mas felizmente passou. Inicialmente houve uma sensação de estranheza, mas eu não culpo os historiadores. Talvez a culpa seja dos próprios jornalistas. Existem casos de jornalistas que, ao se aventurarem por livros de história, banalizaram excessivamente o conteúdo e misturaram ficção com não-ficção. Existe o caso de um jornalista famoso, chamado Luiz Edmundo, que escreveu sobre a corte portuguesa no Brasil. São livros banais, que floreiam demais a informação e dão opinião excessiva. Isso desqualifica os jornalistas como escritores de livros de história. Mas acho que está em nossas mãos reconstituir essa credibilidade. No “1808” eu procurei ser muito fiel às fontes. Não há uma linha de ficção no meu livro e todas as informações têm referências bibliográficas. Eu acho que isso ajudou a legitimar o livro junto à academia. De fato, eu percebi que no começo os historiadores ficaram receosos, mas à medida que eles foram lendo o livro e observando o método de apuração usado, fui ganhando uma credibilidade que no começo eu não tinha. Hoje está tudo bem, somos amigos.
E os jornalistas, como receberam seu livro?
A recepção junto à imprensa foi a melhor possível. Primeiro porque eu conheço muita gente. Diretores de redação, editores, repórteres, muitos deles trabalharam comigo nesses 32 anos de profissão e sabiam que eu não era um aventureiro no campo da história e do livro-reportagem. Eu tinha um patrimônio construído nesse relacionamento dentro das redações. Mas eles também foram muito cuidadosos e, justamente para se resguardarem e não parecerem protecionistas, pediram que historiadores avaliassem o livro. A matéria da Veja, por exemplo, não foi feita por um jornalista, mas por uma historiadora, Mary Del Priori. A matéria da Folha também foi feita por um historiador, Jean Marcel Carvalho França. No Estadão, Elias Thomé Saliba. Foi ótimo porque eles [historiadores] também fizeram resenhas favoráveis.
Você foi eleito pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes de 2008. O sucesso do livro mudou a forma como as pessoas lhe vêem ou lidam com você?
Eu confesso que até hoje estou meio assustado com a repercussão do livro. Existe um culto à celebridade no Brasil e no mundo inteiro, e isso não se restringe a atores de novela, cinema e teatro. Envolve também escritores, principalmente os bem sucedidos. No começo eu me assustei porque as pessoas pedem autógrafos, querem conversar com você, querem cumprimentá-lo. É uma coisa muito emocionante e muito divertida. Eu passei a ser tratado como celebridade no ambiente das pessoas que leram o livro. Mas é preciso tomar cuidado para não passar a impressão de que o autor é mais importante que a obra. Eu procuro manter uma simplicidade no trato com as pessoas e focar no que realmente interessa que é a obra. O resto é muito passageiro. A obra fica, o autor um dia morre.
Em uma entrevista concedida ao provedor UOL, você comenta que adoraria ver seu livro adaptado ao cinema ou a uma série de TV. Surgiu alguma proposta nesse sentido?
Ainda não, o telefone lá em casa até agora não tocou. Normalmente os roteiristas demoram um tempo. Eles têm que ser muito criteriosos porque lidam com um meio que precisa atrair uma audiência muito grande. Eu sei que eles analisam muitos projetos simultaneamente. Imagino que o “1808” esteja sendo analisado porque a Planeta recebeu de uma emissora de televisão uma encomenda grande de livros que seriam distribuídos entre roteiristas. Mas acho que existe um problema de timing. O assunto ‘1808’ foi muito debatido, discutido e noticiado no ano passado. Talvez as pessoas estejam um pouco inseguras para trabalhar com esse tema nos próximos meses, mas em algum momento, fatalmente, pode surgir uma adaptação.
Você já está escrevendo outro livro?
Sim, estou relativamente avançado em uma pesquisa sobre a Independência do Brasil. É uma continuidade do “1808”, ou seja, vou começar de onde parei, no ano de 1821, quando a corte retorna para Lisboa. Eu pretendo mostrar que país era esse que a corte de D. João deixava para trás, um país transformado, pronto para a independência, ou quase pronto. Vou contar como foi o grito do Ipiranga, os tumultos do Primeiro Reinado, a anulação da constituinte, as pressões de portugueses e brasileiros em cima de D. Pedro I, a abdicação dele e a volta para Portugal, numa epopéia em que ele enfrenta o irmão D. Miguel que havia usurpado o trono. Ele consegue derrotar o irmão e colocar sua filha Maria da Glória, que seria D. Maria II de Portugal, no trono luso. Aliás, D. Pedro I é uma figura extraordinária. Ele morreu aos 35 anos de idade tendo feito a independência de um país [Brasil] e recuperado outro [Portugal]. É um personagem fascinante: aventureiro, mulherengo, romântico, um pai adorável e um grande cachaceiro. Uma pessoa de carne e osso.
Este livro já tem previsão de publicação?
Eu espero lançar em setembro de 2010, se o cronograma correr conforme o planejado. Meu plano é concluir a pesquisa até janeiro ou fevereiro do próximo ano, escrever até abril ou maio, entregar para a editora e publicar em setembro, no máximo outubro.