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05/11/2008 - 14h37 - Atualizado em 09/09/2010 - 21h05

Roubos e arroubos de João Coutinho

Por Rafael Cabral, 2º ano de Jornalismo, e Igor Prado

O colunista português da Folha fala sobre política, colunismo e suas influências



Rafael Cabral
Para ele, o público brasileiro reage mais ao que escreve que os lusos

João Pereira Coutinho é, assumidamente, um ladrão. Fala de boca cheia: rouba tudo a quem pode furtar. De Nelson Rodrigues, tirou o estilo enxuto nas crônicas, as frases curtas. Já de Paulo Francis, tomou o gosto pela polêmica. Do norte-americano Henry Louis Mencken, o tom pessoal que imprime em todos os seus escritos e o jeito virulento de expressar suas opiniões. Na infância, pegou um pouquinho de Machado de Assis, outro tanto de Eça de Queirós.

O colunista português é às vezes acusado de tragar não só as maneiras, mas personalidades inteiras de outras pessoas. Na sua terra, é constantemente comparado ao escritor Miguel Esteves Cardoso, cronista veterano e fundador do jornal O Independente (“Não há comparação, ele é muito melhor”). No Brasil, é por vezes tachado de ‘O novo Diogo Mainardi”, colunista que admira e coloca como o ‘maior do país’.

Custou, mas o jornalista, de 32 anos, conseguiu fazer com que os outros reconheçam sua marca. Com uma prosa límpida e sem grandes rebuscamentos, além de idéias que fogem ao consenso, hoje, diz ele, já estão a aparecer alguns postulantes ao cargo de o ‘O novo João Pereira Coutinho’. Ele, no entanto, reclama: é uma redução, um pastiche (imitação ruim de uma obra literária ou artística) do que escreve.

Desde 2005, publica colunas quinzenais no site da Folha de S.Paulo e semanais no caderno Ilustrada, além de escrever também no tablóide luso Expresso. O primeiro de seus textos no Brasil, “Lauren Bacall, por favor”, era uma defesa uma liberdade dos fumantes. Pedia que as embalagens de cigarro não mostrassem apenas pulmões enegrecidos, mas também imagens de glamour da diva hollywoodiana entre a fumaça. Só para termos os dois lados na hora da escolha.

Continuou na mesma linha: reclamou dos alarmistas do aquecimento global e, ironicamente, falou da ligação entre as pessoas que estão acima do peso e o derretimento das geleiras no Ártico. Depois, riu daqueles que aplaudiam o filme do Batman: “homens feitos, alguns casados, que continuam a acreditar que um super-herói em pleno vôo compensa todas as ereções falhadas”. O personagem principal e o vilão Coringa não eram mais que “dois dementes em pijamas que fugiram do asilo da cidade”. Mas não se engane, ele fala também de suas paixões. Jane Austen na Literatura; Woody Allen no Cinema; Art Buchwald na Crônica. 

João Pereira Coutinho nasceu no dia 1º de Julho de 1976, Dia Mundial da Criança, coincidência que vive ironizando. Formou-se em História da Arte pela Universidade do Porto, e depois em Ciência Política na Universidade Católica de Lisboa, onde hoje leciona. Começou um doutoramento em História Clássica na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mas foi-se embora quando admitiu que o seu latim “era razoável, mas o grego, uma miséria”.

De passagem por São Paulo, onde foi professor em um curso sobre as ligações entre a Literatura e a Política (com 'p' maiúsculo), Coutinho nos falou sobre o futuro da imprensa, reafirmando sua crença na permanência dos meios impressos - mais narrativos, mais analíticos, feito a New Yorker - e sobre a importância atual do cronista.

Como você começou no colunismo?
Comecei a escrever uma coluna em um pequeno jornal regional do Norte de Portugal, o Jornal de Matosinhos, pelo qual eu cheguei à imprensa nacional, mais especificamente a um jornal que já não existe, mas que foi muito importante nas décadas de 80 e 90, O Independente. Cheguei até lá porque, ainda cronista no jornalzinho regional, eu tive problemas judiciais. Fui processado por abuso de liberdade de imprensa. Na minha idade, com 18 anos, isso foi insólito e me deu uma grande visibilidade. Mas fui bem condenado. Talvez eu tenha sido gratuito. Hoje teria mais cautela, ou tentaria dizer a mesma coisa de outra forma.

Quando suas crônicas começaram a ser publicadas pela Folha, houve muita comparação entre você e o Paulo Francis. Já em Portugal, você era constantemente equiparado ao Miguel Esteves Cardoso. Isso te incomoda?
O Miguel Esteves Cardoso influenciou toda uma geração de jornalistas em Portugal, e o difícil é encontrar alguém da minha idade que não tenha tirado algo dele. Mas em termos de comparação, não há como. O Miguel é melhor. As pessoas sempre comparam com o que já conhecem. Aqui no Brasil, falam que sou o ‘Novo Francis’, o ‘Novo Mainardi’, mas pessoalmente me é indiferente.

Não se deixa afetar por nenhum tipo de crítica?
Eu não posso partir do pressuposto que eu posso ter uma opinião sobre o mundo, sobre as pessoas, e que as pessoas não podem ter uma opinião sobre mim. Não me importa, seja repercussão negativa ou positiva. Só agradeço que não critiquem minha família e meus amigos.

Em termos de repercussão, qual a diferença das suas colunas publicadas em Portugal e no Brasil?
Não só no número de leitores, mas no modo como as suas opiniões são rebatidas ou aceitas. A diferença na quantidade de leitores é inevitável. Portugal tem 10 milhões de habitantes, e isso só a cidade de São Paulo já tem. A repercussão, portanto, é maior com o que publico na Folha, do que aquilo que escrevo para o Expresso, que até vende bem, 150 mil, ótimo número para Portugal. Agora, quer seja lá, quer seja aqui, não vejo grande diferença na repercussão. O público brasileiro reage mais, quer pra dizer que gostou, quer não. Mas o uso da ironia é sempre caminhar em gelo fino. A maioria não entende.

Quais suas influências na escrita? Você tem uma coluna em que comenta os autores de quem você teria ‘roubado’.
Roubo tudo que posso, a quem posso. Todos os autores que eu li me influenciaram profundamente. Nelson Rodrigues obviamente me influenciou. Eça de Queirós. Alguns autores norte-americanos, como Henry Louis Mencken. Outros ingleses, como Jeffrey Bernard. A todos esses tentei roubar o máximo possível. Não há alternativa à leitura no colunismo. Roubei mesmo. E agora começo a sentir quando os outros começam a roubar de mim...

Aos 32 anos e já com algum tempo na imprensa, já aparece por aí algum ‘novo João Pereira Coutinho’?
Eu já noto isso, principalmente em Portugal. Há pessoas que escrevem e aquilo parece um pastiche do que eu faço, uma redução beirando até casos de plágio. Mas ainda é pouco. Tenho ainda meus 32 anos, você bem disse. Daqui uns anos talvez.

Você é o pioneiro em Portugal no segmento dos blogs políticos, com a Coluna Infame, site inspirado no diário do jornalista norte-americano Andrew Sullivan, The Daily Dish. Como foi isso? E o formato do blog hoje, amadureceu?
A Coluna Infame foi um blog revolucionário. Criamos a cultura do blog em Portugal. Um pouco inspirados no Andrew Sullivan, surgiu entre amigos, Pedro Mexia, Pedro Lomba, e eu. Mas aquilo era uma brincadeira, para mim. Era um hobby. Mas o sucesso foi tamanho que os blogs se multiplicaram: políticos, literários, à esquerda, à direita. Não vejo os blogs como substitutos à imprensa, mas complementares. Uma alternativa.

Qual o caminho do jornal impresso? Em uma de suas colunas, ‘Para acabar de vez com o jornalismo’, você defende um jornalismo de profundidade, literário, analítico, ao invés de “notícias que chegam às bancas com 24 horas de atraso”.
Não acredito que a imprensa tradicional vá desaparecer. Isso já foi dito quando inventaram o rádio, depois com a televisão. Existem duas tendências que vão se acentuar nos próximos anos. Os jornais vão passar a ser publicados em uma regularidade mais espaçada, e o jornal diário vai perder o sentido, sendo plenamente substituído pela Internet. Os diários passarão a semanais, quinzenais, mensais, whatever. Depois, acho que os meios impressos passarão a ajudar o leitor não mais dando noticiais, mas na interpretação dos fatos. Com análise, reportagem de profundidade e tudo mais.

Nos dois países em que você publica, como anda o debate político? Ainda muito permeado pela dicotomia entre esquerda e direita?
Em Portugal ainda é. Aqui, não sei, não posso comentar a realidade brasileira. Não vivo cá, não pago os impostos cá. Mas em Portugal, ainda existe isso. É muito sentido por lá, principalmente pela divisão da sociedade portuguesa na briga entre esquerda e direita. A Revolução dos Cravos foi em 1974, e temos ainda essa memória recente. Depois tivemos um período com a esquerda no poder. Ainda vivemos traumas de natureza ideológica. E há, e nisso nos assemelhamos ao Brasil, um grande domínio da esquerda nos meios culturais e midiáticos.

Pela sua postura conservadora, você já foi chamado até de ‘fascista’. Hoje a recepção às suas opiniões é mais clara?
Isso eu nem comento. Todos sabem que eu não sou fascista. E eu não estou cá sendo pago para ensinar as pessoas o que foi o regime do fascismo, ideologicamente. Não tenho que estar a dar aulas toda a vida. Isso é coisa de analfabetos. Se eu ficar explicando para as pessoas tudo o que elas dizem, não faço mais nada na vida. Então, um bom caminho é deixá-las falar. Agora, ser chamado de conservador, isso é até um elogio para mim. Não é pejorativo.

Você tem uma novela publicada em Portugal, Jaime e Outros Bichos, que escreveu aos 18 anos, além de duas peças. Continua a escrever ficção? Se arrepende de ter publicado tão cedo?
Até tenho alguma vontade, mas não é possível quando você escreve três colunas por semana e leva o jornalismo completamente a sério. É impossível ter disponibilidade de tempo para ficção. Mas tenho vontade de escrever para teatro. Uma fase. Mas meu problema com a ficção, estive a comentar recentemente com o Diogo Mainardi e ele é da mesma opinião, é tempo. Quanto à minha novela, ainda hoje leio e acho boa. Não me arrependo de nada que publiquei, nem ficção, nem em colunas. Nem das maiores merdas...

Pode citar alguma?
Ah, são tantas. São milhares de colunas. Para ser colunista, você não pode ter os terrores do Gustave Flaubert, que acordava no meio da noite pensando se tirava ou não uma vírgula. Há de se ter alguma inconsciência, é uma produção de massa.

E o Mainardi, gosta dele?
Gosto muito do Mainardi. Acho um colunista brilhante. Excelente. Talvez o maior do Brasil. Aqui do Brasil gosto de vários outros: Nelson Ascher, Reinaldo Azevedo, e até das crônicas econômicas do Delfim Netto. Bastante pedagógicas.

Qual a sua opinião sobre o governo Lula?
Nenhuma. A opinião de um analfabeto. Pelo menos ele não trilhou o caminho de outros países aqui da América Latina. E isso já é bom. Mas não tenho nenhum grande conhecimento para fazer um juízo acertado sobre ele.

Como a Crônica vem sendo tratada no mundo?
Para falar a verdade, depois da morte do Art Buchwald [colunista do Washington Post, falecido em 2007], acho que não há ninguém por quem eu tenho muito respeito como cronista. Acho que tem muita gente boa: PJ O’Rourke, Christopher Hitchens, mas ninguém que seja acima da média como o Art Buchwald, que talvez tenha sido o maior cronista do século XX. Ele conseguiu reunir na crônica todos os elementos indispensáveis: a erudição, a informação, a ironia, o humor. Tudo concentrado em um pequeno texto. É o caso mais extraordinário de alguém que levou a crônica a uma forma de arte.

A Crônica é - como vivem repetindo por aí - um gênero menor? O fato de sua coluna, um dia depois, estar embrulhando o peixe na feira, contribui para esse desprestígio na opinião popular?
Jamais. É um gênero com suas regras, comparável a qualquer outro, ao romance, ao ensaio, à poesia. O problema é, por exemplo, os ‘romancistas que fazem crônicas’. Aquilo é uma merda. Essa coisa de ser publicada em jornais influencia muito no desprestígio. Mas não é a realidade. A crônica tem regras e é preciso dominá-las. Prefiro uma boa crônica a um mau romance. Infinitamente.

Na infância, como começou o seu interesse pela Literatura? Li que você tinha um problema ortopédico nos pés, e ficava muito na cama. Isso teria favorecido seu interesse pelos livros...
Cresci em uma casa de duas pessoas interessadas em leitura. Meus pais são historiadores, e vivia cercado de livros. Achava que aquilo era normal. Se eu estivesse nascido em uma casa de esportistas, estava cá a saltar com vara. Quando criança, eu não podia correr, jogar bola. Tinha que ficar quieto. E aí, das duas uma: ou dorme, ou lê. Li imensamente, os clássicos portugueses e brasileiros: Eça de Queirós, Machado de Assis, Camilo Castelo Branco.

Qual a função do colunista hoje? Continua sendo a do formador de opinião, mesmo com tanta gente produzindo conteúdo, repercutindo na Internet? E como se chega a esse posto?
Eu acho que a função do colunista é, por ordem hierárquica de importância, informar, entreter, e divertir. Para conseguir uma coluna, das duas uma: ou muita sorte, o que eu tive, ou conhecer alguém muito importante. Enfim, ou se conhece o dono de um grande jornal, ou se opta pelo caminho da delinqüência, como eu. Tive sorte por ter um processo aos 18 anos, e isso deu o que falar. Não quero ser pessimista, mas você tem que ter os conhecimentos certos.

Como é o seu processo de escrita? O Paulo Francis dizia que, muitas vezes, falava nem sempre o que pensava, mas aquilo que iria incomodar ‘os bobos’ que o liam.
Não, comigo não é assim. Escrevo para me entreter. O meu colunismo é onanista. Sou o meu leitor. Tenho um leitor ideal? Sou eu. Às vezes leio minha coluna no jornal, de manhã, e parece que aquilo foi escrito por outra pessoa. Curiosamente, quando isso acontece, gosto muito das minhas colunas. Escrevo para mim. Se as pessoas gostarem, melhor. Quanto à polêmica, também faz parte. Às vezes você tem que abrir o roupão, mostrar as partes pudicas no metrô. Exibicionismo faz parte.