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04/11/2008 - 10h09 - Atualizado em 06/02/2012 - 07h40

Desafios de um correspondente

Por Marília Passos, 2º ano de jornalismo e Danilo Braga, 1º ano de jornalismo

O brasileiro Tariq Saleh conta como é a rotina da imprensa no Líbano

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Sobre os refugiados iraquianos: "ver aquelas pessoas reduzidas
a refugiados foi dilacerante"

Nos anos 70, o Camboja, sob a liderança de Pol Pot, líder do partido comunista Khmer Vermelho, passava por uma das muitas guerras civis que o país já enfrentou. Neste cenário, um jornalista do New York Times, que cobria os acontecimentos daquela região, tenta encontrar um amigo. Este é, basicamente, o roteiro do filme Gritos do silêncio (1984), dirigido por Rolland Joffé, e foi este filme que inspirou e fez surgir no menino Tariq Mohd Hassan Saleh, então com 14 anos, a paixão pelo jornalismo.

Gaúcho, de ascendência palestina, Saleh, hoje com 34 anos, é correspondente da BBC no Líbano.  Mas por pouco aquela vontade desperta desde cedo não foi concretizada, pois antes de se formar em jornalismo na Unisinos, do Rio Grande do Sul, Saleh ingressou na faculdade engenharia. Dois anos antes de ingressar na faculdade de jornalismo, no entanto, Saleh já trabalhava com o ofício. Formado há três anos, o correspondente partiu “sem emprego, sem dinheiro, mas com muita esperança” para o Oriente Médio assim que as tensões entre o partido xiita Hezbollah e o Estado de Israel se intensificaram.

Em uma quinta-feira, dia 15 de agosto de 2008, Saleh foi detido pelo Hezbollah enquanto produzia uma reportagem sobre uma famosa lanchonete na região de Dahiye, no Líbano. Junto com Paulo Pimentel e Marcos Losekann, ambos da TV Globo, Saleh passou cerca de 5h com o grupo. Pimentel conseguiu gravar algumas imagens no momento da prisão, que podem ser vistas no site que Saleh mantém. De uma região remota, nas montanhas do Líbano, Saleh concedeu entrevista ao Site, em que fala sobre a vida de um correspondente no Oriente Médio.

Quais conflitos você já cobriu no Oriente Médio?
Bom, aqui no Líbano eu cobri o conflito de Naher el Bared, em 2007, os conflitos internos políticos, assassinatos políticos e atentados a bomba, também em 2007, além do conflito armado entre governistas e oposição liderada pelo Hezbollah, no início deste ano.

Quais são as maiores dificuldades de ser um correspondente internacional?
Ser jornalista estrangeiro em qualquer parte do mundo já é muito difícil por uma série de fatores, mas numa região conturbada como o Oriente Médio é ainda mais. A sociedade árabe, não importa se cristãos, judeus ou muçulmanos, é muito conservadora e estrangeiros lidam com fatores como religião, política e costumes. Para se ter uma idéia, eu seguidamente sou questionado sobre minha religião, preferências partidárias ou ideológicas. O jornalista precisa manter-se sereno e equilibrado e mostrar que ele está na região para fazer seu trabalho, não para uma cruzada por este ou aquele lado. Para mim, especialmente, é ainda pior, pois tenho origem árabe e acham que eu tenho uma ideologia definida, sem contar que querem saber minha religião. Acontece que sou agnóstico, não acredito em religiões (apenas em Deus) e sou um humanista. Mas fazê-los entender isso é muito difícil. Também não tenho princípios baseados em minha origem - sou muito crítico aos árabes tanto quanto sou em relação a Israel, por exemplo. Com essa dificuldade eu lido diariamente, a todo momento, mas é algo que tenho que fazer para manter minha posição como observador "mais neutro possível", uma vez que não existe neutralidade. Eu sou crítico, penso e tenho opiniões que não influem necessariamente no meu texto. Os grupos políticos aqui sempre tentam puxar o jornalista para seus lados, isso também deve ser observado e o profissional precisa tomar cuidado. Outro problema são as fontes. Todo mundo adora falar, todo mundo se acha autoridade e entendido. É preciso identificar as boas fontes. Mas é justamente garimpá-las que é um problema. Quando se fala o árabe, isso fica mais fácil, mas aí entra a questão da confiança. No Líbano há muitos espiões, às vezes disfarçados de jornalistas. Antigamente ser jornalista era sinônimo de confiança, mas hoje as pessoas ficam com um pé atrás, especialmente após 11 de setembro. Mesmo assim, jornalistas são bem recebidos pela população, isso não quer dizer que o repórter terá as portas abertas.

Além do episódio em que foi detido com Marcos Losekann e Paulo Pimentel pelo Hezbollah, você teve alguma outra experiência semelhante?
Não semelhante, mas já fui detido por Exército libanês, inteligência do Exército libanês, polícia secreta síria e o próprio Hezbollah. Mas em todas elas foram de no máximo 30 minutos com pergutnas rápidas e averiguações. Jornalista trabalhando no Oriente Médio passa seguidamente por isso, é normal. Como disse antes, jornalistas passam por admiração e desconfiança na região. Certas áreas são estritamente controladas. Faz parte da profissão atravessar certos limites, nem sempre para fazermos nosso trabalho dependeremos de permissões, ainda mais de grupos paramilitares. O que devemos fazer, sim, é calcular os riscos. No caso do Hezbollah, por eu morar aqui, eu sei o procedimento deles, sei que não fazem nada sem ordens superiores e que possuem um procedimento em relação a jornalistas detidos. O que não esperava foi a mudança de procedimento com horas de detenção. Imagino eu que algo vem acontecendo para um aperto no nível de segurança em relação a imprensa.

Houve alguma história de  reportagem que você tenha feito que ultrapassou o profissional e te marcou de uma forma mais pessoal?
Acho que uma reportagem que me marcou muito foi a que fiz sobre os refugiados iraquianos no bairro de Saida Zeinab, no subúrbio sul de Damasco, capital da Síria. Aquele povo, muçulmanos sunitas, xiitas e até cristãos, estava sem perspectiva e esperança. A cada história, uma tragédia. Eles são testemunhas recentes de um processo de destruição de um país, de uma nação e, principalmente, de uma cultura. O Iraque é um dos berços da civilização. O povo iraquiano é muito amável. Mas ali, naquelas ruas sujas e populosas de Saida Zeinab, eu me senti envergonhado, impotente tanto como jornalista quanto como ser humano. No dia-a-dia, eu costumo desligar o emocional para fazer meu trabalho, mas ver aquelas pessoas, alguns deles advogados, médicos, professores e outros profissionais no Iraque, reduzidas a refugiados foi dilacerante. Depois de entrevistá-los, comecei a me perguntar quantas histórias parecidas existiam no mundo e quantos outros povos passaram pela mesma experiência porque nós, ocidentais, brincamos de fazer política e guerra e mudamos as geografias das regiões sem nos importarmos com a vida que corre solta em cada cidade, vila e campo. Mas o que me marcou mais ainda foi o que me disse um iraquiano, um outrora advogado em Bagdá e que tentou retornar ao seu país, mas não agüentou devido à violência. Quando o perguntei o que ele esperava do futuro do Iraque, ele disse: "Não tenho esperança para o meu país. As feridas que foram abertas pela invasão demorarão gerações para serem fechadas. E os nossos filhos - esta geração que está aí agora - sem escola, sem emprego, na miséria e desamparo é uma geração perdida”. Foi a frase que mais me marcou e jamais esquecerei.

Houve algum momento, em que civis estavam no meio do conflito, em que você deixou o papel de jornalista para ajudar alguém?
Durante o conflito de Naher el Bared, em maio de 2007, eu e o fotógrafo americano Sean Hemmerle furamos o bloqueio do exército libanês e ficamos acerca de 200 metros dos combates entre os radicais do Fatah al Islam e militares libaneses. Para isso, passamos 12 horas sob fogo cruzado escondidos na casa de uma família libanesa que nos acolheu e fizemos uma grande amizade. Não foi uma situação de eu ajudar alguém, mas tanto o Sean quanto eu passamos pelas mesmas emoções dos civis que ali estavam, daquela família que não perdia o humor e com quem dividimos momentos de angústia, desabafo, cumplicidade e às vezes até de alegria. Se nós os ajudamos com uma palavra de apoio, eles também nos ajudaram a relaxar e superar uma situação adversa.

Houve alguma situação em que você se questionou sobre a escolha da profissão, se vale a pena?
Não, nunca me questionei. Simplesmente jornalismo é minha paixão.