Aluno da Cásper publica trabalho sobre Roberto Dias
No ano passado, o então formando Fábio Matos recebeu nota 9,5 pelo livro-reportagem Dias – A Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960, que apresentou como seu trabalho de conclusão de curso. Era a primeira das recompensas que ele recebia pelo longo trabalho de pesquisa e apuração. Agora, chega mais uma: o TCC de Fábio será publicado pela editora Pontes.
A obra é uma biografia do jogador Roberto Dias, grande ídolo do São Paulo Futebol Clube. Para publicá-la, Fábio fez poucas mudanças no texto do TCC: alterou datas, trocou uma imagem e incluiu a morte de Dias, que aconteceu em setembro de 2007.
O texto da orelha do livro ficou por conta de Celso Unzelte, professor da Faculdade Cásper Líbero e comentarista da ESPN, que foi orientador de Fábio. Para terminar, ainda há um prefácio do jornalista Juca Kfouri, que já fazia parte do TCC.
Mesmo com lançamento tão recente, Dias foi indicado como o oitavo melhor livro de esporte de 2007 pela Grupo de Literatura e Memória do Futebol. Nessa entrevista, Fábio conta como foi todo o processo que levou à publicação, desde a escolha do tema do TCC até as dificuldades para convencer as editoras que há espaço para livros sobre futebol no mercado editorial.
Por que você escolheu o Roberto Dias como tema do TCC?
Cresci numa família fanática por futebol e, mais especificamente, fanática pelo São Paulo. Meu pai e meus tios tiveram em Dias seu maior ídolo “futebolístico” e, por conta disso, desde pequeno me acostumei a ouvi-los falar muito sobre um zagueiro muito bom de bola que jogava no São Paulo nos anos 1960. Eu sempre me questionava: “por que eles gostam tanto de um cara que, em 13 anos como jogador do nosso time, conquistou apenas dois títulos paulistas?”, num raciocínio típico de um jovem que se acostumou a ver o São Paulo campeão no início dos anos 1990. Durante o terceiro ano do curso de Jornalismo, comecei a pensar sobre o TCC e fiquei na dúvida sobre o que fazer. Depois de uma aula da professora Rosangela Petta sobre biografias, comecei a pensar mais a sério a respeito. Exatamente por estar, na época, sem o foco do trabalho, achei que escrever uma biografia, embora certamente muito trabalhoso, me daria a garantia de jamais perder o foco – que seria, obviamente, a vida do biografado. Comecei a devorar várias biografias – do Telê Santana, do Nelson Rodrigues, do Garrincha, do Canhoteiro... – e decidi fazer um TCC sobre um ex-jogador do São Paulo com o qual eu não tivesse tanta ligação “sentimental”. Descartei nomes como Raí e Rogério Ceni, por exemplo, que estão entre os meus ídolos, justamente para não comprometer a obra. E aí, finalmente, cheguei no Roberto Dias.
Como começou a apuração?
Em novembro de 2005 estive no Centro de Treinamentos do São Paulo em um evento anual organizado pelo clube que reúne ex-jogadores de várias épocas. Quando cheguei, Dias já tinha ido embora. Mesmo assim, comecei o livro ali: entrevistei uma série de jogadores que atuaram com o Dias ou mesmo que chegaram depois e ouviram falar muito dele, assim como atuais dirigentes do clube que são mais ou menos como meu pai e meus tios: fãs incondicionais do antigo craque. Assim que cheguei em casa, liguei para a casa do Dias e conversei com ele e a ex-esposa, dona Rosita (eles moravam juntos, mesmo separados), e com o próprio Dias. Ele topou o projeto e a primeira entrevista aconteceu logo no começo de 2006, na casa dele. Desde o início da conversa ele se mostrou super atencioso, mas eu sentia que ainda não levava o trabalho tão a sério quanto eu – embora tenha ficado muito feliz ao ver um jovem jornalista interessado por sua história, já esquecida por muitos.
Durante o trabalho, como foi a sua relação com ele?
Com o passar dos meses e das entrevistas (várias, todas na casa dele, e sempre muito longas – eu passava tardes inteiras lá), senti que o Dias foi se abrindo mais e com ele construí uma relação muito produtiva e transparente. Resolvi dizer logo de cara que a idéia era escrever uma biografia completa, com tudo de bom e de ruim que tivesse acontecido com ele, e acho que isso acabou até me ajudando. Ele não demorou muito para sentir que o trabalho era sério e que eu não estava ali para exaltar a história do maior ídolo do meu pai e dos meus tios. Depois, fui embora: falei com a dona Rosita (ex-esposa), as filhas, vários ex-jogadores do São Paulo e de outros times, além de jornalistas da época, como o Fiori Gigliotti. Nesse sentido, o trabalho ficou bem completo. Ouvi muita gente mesmo.
Quais foram as suas principais preocupações na hora de apurar, entrevistar ou escrever o livro-reportagem?
O Celso Unzelte, orientador e grande amigo, é um maluco por futebol. Graças a ele, que ficava no meu pé, tive a preocupação de sempre contextualizar as informações e de não fazer um livro meramente “futebolístico”, que ficasse muito centrado no jogo, no campo. A história do Dias se permitia a abrir um pouco mais esse leque: ele foi um grande craque, um dos maiores da história do futebol brasileiro, mas não só isso. É um baita personagem, com uma história de vida que merecia mesmo ser contada, repleta de dramas pessoais e dificuldades, além das coisas boas. Como todos nós, ele tinha muita coisa legal e muita coisa triste para contar. E aí entra outra preocupação do livro: me policiei para não transformar Dias em uma novelinha em que o personagem principal pintasse como um “coitadinho”. O Celso me ajudou muito nesse aspecto também.
Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou?
O momento que pensei que seria o mais difícil foi quando tive de abordar um tema delicadíssimo: o alcoolismo. Toquei no assunto mais diretamente, pela primeira vez, só depois de várias entrevistas, quando senti que ele já confiava bastante em mim. Para a minha surpresa, ele não ofereceu nenhuma resistência e se abriu bastante.
Como foi que você conseguiu publicar o livro?
Fui alimentando essa idéia porque me dei conta de que não havia rigorosamente nada na literatura esportiva brasileira sobre Roberto Dias. Havia algumas reportagens, mas nada de livro. Muito sinceramente, achei aquilo um absurdo e uma pena. Fiquei comovido, também, com a simplicidade dele, que até se emocionou por alguém tão jovem lembrar de sua história. Depois de apresentar o trabalho à banca, saí à procura de editoras interessadas, também com ajuda do Celso. Até as encontrei, mas as conversas esbarravam sempre no mesmo problema: os editores diziam que livro sobre futebol não vendia nada, que livro sobre um jogador do passado que não era mais tão lembrado vendia menos ainda. Cheguei até a ter uma reunião com o pessoal do marketing do São Paulo, mas as conversas não evoluíram. No meio do ano, cheguei a cogitar a hipótese – inviável, é claro – de arcar com os custos da publicação. Infelizmente, o pior teve de acontecer para que alguém se dispusesse a bancar a publicação do livro: no dia 26 de setembro deste ano, Roberto Dias faleceu após uma parada cardiorrespiratória, aos 64 anos. Fui informado de sua internação na UTI do Hospital das Clínicas desde as primeiras horas da manhã por uma das filhas dele e, daí por diante, passei a ficar em contato direto com o médico ao longo do dia. Até que recebi a notícia da morte. E o pior de tudo: tive que publicá-la no site da ESPN Brasil, onde trabalho. No dia seguinte, fui liberado para ir ao velório no Salão Nobre do Morumbi e nem preciso dizer que foi horrível. Dois dias depois, um conselheiro do São Paulo com quem já havia conversado no início do ano me ligou e me garantiu que pagaria a publicação do próprio bolso. Era Edson Francisco Lapolla, que, ao lado de José Roberto Canassa, outro conselheiro do São Paulo, viabilizou a transformação do TCC em livro. Falei com o pessoal da Pontes Editores, com quem também já tinha conversado desde o começo do ano, e fechamos negócio. Depois, por telefone, a dona Rosita me disse que o Dias sempre falava que tinha ficado feliz com o trabalho e que um dia o livro ia sair.
E quais são suas expectativas agora que o TCC virou livro?
Expectativa? Ah, a minha parte eu fiz, e estou muito feliz. Consegui transformar a história de um dos maiores personagens do futebol brasileiro em um registro inédito e completo que até então não existia em lugar algum; pude exercitar como nunca a prática jornalística ao longo de mais de um ano; tive muito prazer, muito mesmo, durante o trabalho, e gostei do resultado final. Confesso que não tenho muita expectativa em relação às vendas. O pragmatismo dos editores com quem conversei é lamentável, mas real: de fato, no Brasil se lê muito pouco, infelizmente. De qualquer forma, se alguém me dissesse há um ano que o livro estaria nas livrarias em dezembro de 2007, eu provavelmente cairia no riso. Então, se chegamos até aqui, por que não mais um pouquinho de otimismo? No fim, o importante é mesmo o registro para a história: Roberto Dias merecia uma obra mais completa. Sei que ele estaria muito feliz, como eu.