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13/05/2010 - 15h25 - Atualizado em 17/05/2012 - 13h49

Último dia de II Congresso de Jornalismo Cultural

Texto de Helder Ferreira (1º ano), Izabela Raphael (1º ano) e Lidia Zuin (3º ano)


Para José Luiz Proença, coordenador do curso de
Jornalismo da ECA/USP, “o curso de jornalismo não
existe fora de uma universidade”

A primeira palestra da quinta-feira (“As faculdades de jornalismo e o treinamento nas empresas. Diferenças e convergências na formação”), 6 de maio, tratou da formação do jornalista e seu ingresso no campo de trabalho nos dias de hoje. Mediada por Mário Mazzili, jornalista e gerente-geral da CPFL Cultura, a mesa contou com a participação dos coordenadores do curso de jornalismo das principais instituições universitárias de São Paulo, além da presença de Ana Estela de Souza Pinto, editora do programa de treinamento do jornal A Folha de S. Paulo, e de Edward Pimenta, coordenador do Curso Abril de Jornalismo. 

Representando a Faculdade Cásper Líbero, o professor Carlos Costa discursou sobre o jornalismo contemporâneo, dissertando sobre a principal característica do curso de jornalismo da Cásper, o mote de “formar para o mercado, voltado à prática”. Logo em seguida, a editora da Folha explicou as maiores exigências que o órgão pede de seus trainees, como a visão crítica, boas técnicas de apuração e o conhecimento da linguagem. Ela também denunciou cursos de jornalismo que não ensinam a seus alunos o suficiente do ponto de vista intelectual e conceitual.

Em seguida, Edward Pimenta explicou sucintamente sobre o Curso Abril de Jornalismo, projeto que seleciona 50 alunos de 3000 candidatos, visando integrá-los às redações da Editora Abril para que sejam conduzidos dessa maneira ao campo de trabalho: bem orientados e situados. Posteriormente, o professor José Luiz Proença, coordenador do curso de Jornalismo da ECA/USP, defendeu a noção do ensino público, que diz respeito a um razoável distanciamento do campo empresarial ao curso em si mesmo, alegando que o “curso de jornalismo não existe fora de uma universidade”.

O professor Urbano Nobre Nosoja, coordenador de Jornalismo da PUC/SP, com uma fala pautada na sociedade da informação e nas diferenças entre trabalho e emprego, definiu as intenções de seu curso na PUC, que valoriza mais o pensamento do aluno do que suas técnicas e intenções empresariais. Por fim, o coordenador de Jornalismo da Universidade Metodista, Rodolfo Carlos Martino, dissertou sobre a nova proposta de ensino da Metodista, que dispõe a cada semestre um tema em que os conteúdos são enquadrados em métodos e os alunos podem praticar o que aprenderam em sala de aula nos órgãos laboratoriais da faculdade.  

No fim, todos os palestrantes concluíram suas ponderações sobre a crise pela qual o jornalismo vem enfrentando nos dias atuais, além de perceberem um mau preparo dos novos profissionais, revelando assim, uma preocupação do jornalismo das próximas gerações. 

As dificuldades da crítica teatral

A crítica de teatro Beth Néspoli volta para a segunda
edição do Congresso de Jornalismo Cultural

A crítica do teatro e a produção dramatúrgica contemporânea foram temas abordados na mesa de discussão mediada pelo jornalista, autor e diretor de teatro Oswaldo Mendes. O debate foi composto por Beth Néspoli, crítica do jornal O Estado de S. Paulo, e pelos diretores de teatro Eduardo Tolentino (um dos fundadores do Grupo Tapa) e Sérgio de Carvalho (Cia do Latão).

Néspoli iniciou criticando as mudanças ocorridas nas redações dos grandes jornais, que reduzem cada vez mais o tamanho dos textos e o prazo para escrevê-los, “superficializando” o trabalho jornalístico. Ela acredita em um rompimento com este processo de rarefação textual, que deverá ocorrer em resposta ao crescimento da internet, voltando o jornal a ser um veículo de análises mais profundas.

Por sua vez, Carvalho discorreu sobre a história da crítica teatral, que nasce em um longínquo século XVIII com o objetivo de enaltecer o ator protagonista, para no século XIX adquirir um caráter interpretativo e reflexivo da dramaturgia. O diretor condena a forma como certos críticos analisam uma obra utilizando o que consideram serem “quesitos de escola de samba”, com os quais se divide o espetáculo em partes, julgando-as segundo critérios ímpares e excluindo qualquer tipo de reflexão.

Tal opinião também foi compartilhada por Tolentino, que a ilustrou ao relatar o caso de um crítico teatral que afirmou não ser capaz de escrever a resenha de um espetáculo sem ter tido contato com sua ficha técnica. Na opinião do diretor, isto só demonstra o quanto este ofício pode ser parcial e superficial. No entanto, ele também reconhece que o trabalho de bons profissionais seja responsável pelo fortalecimento e divulgação do teatro, que tem sido sempre relegado ao papel de coadjuvante na cena cultural brasileira.

Ao fim do debate, discutiu-se sobre as relações da crítica com o mercado, questionando-se a falta de espaço às novidades. Para Néspoli, isto decorre do fato de o “mainstream” teatral ser formado por nomes já consagrados e que, por este motivo, merecem maior atenção. Entretanto, ela ressaltou a importância da abertura de espaço aos novos autores.

Investimentos públicos e privados em prol da cultura

O superintendente do Instituto Itaú Cultural, Eduardo
Saron, contou mais sobre o projeto "Rumos"

O penúltimo debate da quinta-feira (“Os investimentos em cultura e a responsabilidade social”) foi mediado pelo jornalista e redator-chefe da revista Cult, Marcos Fonseca. A palestra se iniciou com o discurso da gerente-executiva de estratégias de cultura do Banco do Brasil, Giselle Frattini. Por meio dos Centros Culturais Banco do Brasil, nas capitais de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, a empresa colabora com a cultura nacional realizando projetos de diferentes vertentes artísticas-culturais, além de financiar outras atividades itinerantes pelo resto do país. 

Eduardo Saron, superintendente do Instituto Itáu Cultural, dedicou seu tempo de dez minutos para explicar sobre os programas culturais que a instituição para qual trabalha realiza. Rumos, que são editais dedicados a jovens universitários, intenciona a construção e manutenção da cultura brasileira, além das atualizações do banco de dados das bibliotecas virtuais que estão recheadas de vídeos e fotos históricas da cultura nacional. As exposições, shows, peças de teatro e outros eventos são inteiramente gratuitos, facilitando desse modo o acesso do público. 

O jornalista Mário Mazzili, representando a CPFL Energia, justificou o interesse de empresas privadas em relação à cultura e às artes. Segundo ele, tanto a CPFL como as outras instituições que realizam eventos semelhantes visam o patrocínio à cultura a uma maior interação com a sociedade brasileira, participando de maneira significativa da vida social da nação. A CPFL, em questão, optou por investir nas artes ditas mais “eruditas”, financiando os programas televisivos Café Filosófico e Invenção do Contemporâneo, assim como o patrocínio de um programa de rádio sobre a música clássica contemporânea, todos esses em parceria com a Fundação Padre Anchieta. 

O coordenador do curso de Relações Públicas da ECA/USP e diretor da Aberje, Paulo Nassar, debateu sobre a falta de uma maior participação do capital privado com a cultura nacional, denunciando que o termo “empresa bacana” já não existe mais. Nassar acusou as grandes empresas de desenvolverem uma homogeneização, anulando de todas as maneiras uma possível alteridade. “Em uma sociedade altamente comunicadora, as empresas devem se abrir mais para a sociedade”, disse Nassar, que concorda com uma mestiçagem dos protagonistas da sociedade, tendo em vista a convivência e a partilha de idéias que acontecerá todo o tempo.

Na Alemanha, o jornalismo cultural tem grande espaço

Julia Encke conta que na Alemanha as revistas não
são sobre cultura, mas se especializam em áreas
mais específicas como balé ou literatura, por exemplo

Julia Encke foi a convidada especial da última mesa do II Congresso de Jornalismo Cultural. A repórter e crítica literária do jornal alemão Frankfurter Allgemeine contou sobre a prática do jornalismo cultural em seu país, mostrando o vasto espaço reservado ao segmento.

Segundo Encke, as críticas culturais alemãs conseguem ser longas, chegando a ocupar até mesmo uma página inteira do jornal. “Alguns jornais chegam a publicar dez páginas apenas sobre livros”, contou. Assim, o discurso de Encke mostrou-se inverso ao que foi bastante discutido durante o evento todo: a constante reclamação dos críticos convidados foi justamente a falta de espaço reservada ao jornalismo cultural no Brasil.

Na Alemanha, diz a repórter, não existem revistas de cultura, já que essa “abrangência” fica por conta dos jornais diários. “As revistas são mais segmentadas: uma fica só com balé, outra com música e outra com literatura”, explicou. Contudo, Encke diz que nem por isso é mais fácil de se trabalhar com jornalismo cultural em seu país. Como crítica literária, um de seus desafios é o mesmo de todos os críticos no mundo: a escolha dos livros. “Às vezes preciso ler um livro de mil páginas em uma semana, então não dá tempo para nada. Mas eu não leio como se lê normalmente: é um trabalho”, a.

Seu enfoque foi na responsabilidade de ser crítica, de como suas palavras podem soar como verdades apesar de não terem esse intuito. “Eu não posso dizer se isso é literatura ou se isso não é. Devo me justificar, mostrar como cheguei àquela conclusão”, disse Encke pouco antes de concluir que o jornalista tem uma posição confortável, por poder criticar em “duas horas o que alguém demorou anos para fazer”. Por isso, ela reforça: “É importante nós respeitarmos e argumentarmos aquilo que fazemos análise”.

Sobre a internet, Encke afirmou não a ver como ameaça, porque acredita que as publicações impressas não vão sumir do mercado. “Eu acredito que sempre haverá jornais e livros. Podemos ver o jornalismo impresso agora como um desafio e mesmo assim não desprezar as novas mídias”, finalizou.



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