Uma terça-feira preenchida de literatura, novas mídias, artes plásticas e música
O segundo dia do II Congresso de Jornalismo Cultural começou com o debate “Como se forma um crítico literário. A importância da linguagem e a construção de um repertório”. Pouco depois das 9 da manhã, os jornalistas Humberto Werneck e Manuel da Costa Pinto subiram ao palco para se unir ao escritor Milton Hatoum e a Marcio Seligmann-Silva (crítico literário e professor de teoria literária da Unicamp). Com mediação de Frederico Barbosa (poeta, professor de literatura e diretor da Poiesis), a mesa discutiu a crítica literária tanto em historicidade quanto em método.
A primeira palavra foi de Manuel da Costa Pinto, o mais jovem dos convidados. O apresentador do programa Letra Livre, na TV Cultura, iniciou seu pronunciamento comparando o crítico literário com o comentarista de futebol, ao encontrar em ambas as práticas a paixão e a segmentação por times e tipos de literatura. Pinto também explicou que a crítica não nasceu com o homem, mas com a modernidade, que trouxe consigo os conceitos de indivíduo, autor, direitos autorais e a necessidade de se criar a figura do outro, do alheio. “O crítico funciona como um mediador entre a obra e o público. Ele descobre enigmas, busca o literário na literatura”, afirma.
Seligmann falou mais sobre duas tendências da crítica literária: a institucional e a feita por escritores-críticos. A primeira, mais ligada à indústria cultural, é tida por Seligmann como responsável por apresentar as obras como produtos, “sem muita pretensão”. Já a segunda é um gênero reservado ao século XIX, quando a crítica analisava livros como bons seguidores das normas e critérios requeridos na época. Mas Seligmann afirmou que, desde o romantismo, já não existe mais esse julgamento pela técnica, uma vez que não existe o bom e o ruim. A função do crítico se torna, então, a de um iluminador de novas tendências, sendo capaz de discernir o que é realmente inédito e interessante. Para exemplificar, Seligmann citou Walter Benjamin, que estudou a crítica alemã e mesmo assim “não era canônico, nem nacionalista e nem especialista”.
Depois de serem ouvidos os críticos, foi a vez do escritor Milton Hatoum dar sua palavra. Após explicar que ainda sentia sono, comentou que havia escrito um texto de três páginas que foi tanto lido quanto comentado durante seus 15 minutos de apresentação. Para ele, o bom crítico é aquele que sabe ler e consegue ensinar aos outros. Sendo assim, Hatoum acredita que os profissionais da crítica não devem se deixar contaminar pelos best sellers e nem perder o discernimento do que é ficção e fato. O escritor diz que o “nascimento” de um crítico vem a partir do momento em que ele se torna “um grande leitor, com paciência de escultor”, quando a paixão pela leitura aflora. Ele também mostrou discordar de críticas acadêmicas demais, considerando tais textos entediantes e obscuros.
Werneck preferiu ser saudosista, uma vez tendo revelado seus 42 anos de carreira jornalística. Abordando a “morte do rodapé” e as críticas assinadas por grandes nomes, como Antonio Cândido, ele falou sobre a modernização do país como agente influenciador mesmo da imprensa: “A literatura deixou de ser a espinha dorsal para a cultura. Foi aí que entrou o cinema e a MPB, por exemplo”. Retomando a idéia de Hatoum, Werneck indica que a resenha crítica da literatura acabou se escondendo no ambiente acadêmico quando esses estudiosos eram trazidos à grande mídia, como na Veja dos anos 1970. “O leitor necessita de informação sobre livros, sobre lançamentos. O jornalista deve buscar na produção aquilo que seja relevante e não necessariamente um best seller”, comenta. Werneck afirma que para se criticar uma obra, é preciso fazer uma “leitura caprichada” e não se pode viver de “achismos”: “O crítico tem que ter repertório”. O jornalista também falou sobre o pouco espaço reservado pelos jornais à literatura e sobre a falta de mistura de gerações de críticos. Ele diz que uma crítica boa deve ter espaço para que se possa contar como é o livro, desfazendo-se equívocos e abrindo o apetite. “O vício da imprensa é o derramamento de idiossincrasias”, concluiu.
Enfim, um debate

A mesa “O jornalismo pós mídias digitais” contou com a presença de Márion Strecker (jornalista e diretora de conteúdo do UOL), Ivana Bentes (professora de comunicação e cultura na UFRJ) e Carlos Graieb (editor-executivo da revista Veja). Mediado por Endrigo Chiri Braz (jornalista e editor do site B-Coolt), o debate começou com ponderações negativas e positivas que Márion fez sobre a internet.
“Nunca se ouviu tanta música e se viu tanto filme como hoje, mas o jornalismo cultural está em crise”, ou Márion. Para a jornalista, a internet é valorosa enquanto meio de distribuição global e descentralizada, já que ajuda muitos artistas a se popularizarem. Além disso, ela indica, há uma mudança de eixo sobre quem dita os fenômenos culturais: da mídia para o público. Sem mais controle absoluto das opiniões, a imprensa pós-internet, para Márion, acabou sendo igualada aos usuários. No entanto, a jornalista acha que os assuntos que fazem parte da produção de jornalismo cultural online acabam falando apenas de entretenimento e não da alta cultura: “Você só vê um monte de sites e blogs sobre o BBB”. Ela também falou sobre a supervalorização da imagem em detrimento de textos reflexivos, além do tempo gasto pelos jornalistas para apurar os comentários que são deixados em seus portais. “Muitas vezes eles são anônimos e ainda cometem injúrias”, diz.
Márion comentou sobre a troca de papéis: quando, por exemplo, os cinemas criam portais para divulgar sua programação em vez de depender da imprensa. Também levou em conta sites institucionais que vêm produzindo textos mais profundos, sem contar os artistas que se autopromovem, dispensando o papel mediador do jornalista. “Com o espaço ganho com a internet, qualquer um pode opinar e a crítica acaba decaindo”, comenta. Após reconhecer que os principais sites e twitters são especializados em futebol e política, Márion mostrou acreditar que o exagero de liberdade faz perder o sentido e a força da crítica. Indignada com a hierarquização feita na internet, ela termina sua fala questionando-se se Big Brother Brasil e televisão também podem ser considerados fenômenos culturais.
Carlos Graeb comentou que a internet acabou reduzindo os custos de publicações e que também provocou uma “explosão da capacidade de expressão”. Concordando com a troca de papéis levantada por Márion, Graeb afirma que isto ilustra uma “perda de relevância”. Ele acredita que o conteúdo publicado na internet não vem de um processo colaborativo, como de uma pesquisa científica feita por um grupo ou como em redações e universidades. “No processo colaborativo, há revisão de texto por semelhantes. Assim é possível polir com uma hierarquia positiva”, indica. Sem essa mediação, Graeb acredita que o conhecimento perde seu valor. “Nem todo mundo no seu quarto tem bagagem cultural para ser especialista”. O editor-executivo da Revista Veja acredita que o jornalismo cultural de hoje está na defensiva, unindo-se às massas quando, na verdade, deveria “abraçar valores e práticas tradicionais”.
De uma apresentação de idéias a uma crítica. O pronunciamento de Ivana começou desbancando o preciosismo da crítica, considerando-a um antro de “seres iluminados e escolhidos, trabalhadores da raridade”. A professora, apesar de concordar com os outros debatedores quanto à troca de papéis entre mídia e usuário, considerou a mudança mais sob o viés do deslocamento de eixos de poder que uma troca automática. “Não dá mais para voltar para o fordismo”, insistia Ivana, ao dizer que o jornalismo já não é mais capaz de desqualificar o leitor. “Todos são produtores virtuais de conteúdo. Jornalistas e pesquisadores não vão desaparecer, mas vão criar sites”, disse Ivana pouco antes de brincar que “jornais impressos são notícias velhas em árvores mortas”.
A platéia passou a se envolver com o discurso emocionado da professora da UFRJ. Inflamada, Ivana defendeu seu ponto de vista contra a obrigatoriedade do diploma de jornalismo: “Isso cria um estado do ‘excepcional’, faz uma reserva artificial que não se sustenta mais no novo perfil analista e produtor do capitalismo cognitivo”. A expressão “capitalismo cognitivo”, aliás, foi várias vezes repetida pela professora ao explicar que a internet criou uma nova forma de economia que ainda não parece ser bem aceita. Polêmica, ela afirma que “o melhor suplemento de cultura do mundo é o Google” e que “a cultura da linkagem acaba com a hierarquia”, fazendo menção à Wikipédia. “Isso é a intelectualidade de massa”, reforçava a professora. Finalizando sua apresentação, Ivana reiterou que não há o desaparecimento de mediadores mas a criação de outros. “Se você odeia a mídia, torne-se mídia”, concluiu, fazendo menção a ativistas italianos.
A discordância nasceu ali, quando Grieb apontou ingenuidade na fala de Ivana: um mal entendido fez com que o editor-executivo da Veja, que teve seu veículo criticado pela professora, achasse que Ivana não sabia dos processos de relevância que funcionam nas páginas do Google. Márion também criticou a professora, mostrando-se descontente com o que ela disse sobre o jornal impresso; a resposta foi pôr a persistência dos livros em pauta e a construção da hidrelétrica de Belomonte como uma desculpa para o funcionamento de mais computadores.
A diretora de conteúdo do portal UOL também criticou o Google, dizendo que ele traz muita “inutilidade, vírus e pornografia”. Márion acabou julgando Ivana romântica quanto suas opiniões, mas a professora se defendeu afirmando que aquela era sua interpretação sobre um novo contexto econômico e não ideológico. “Nós devemos impedir o discurso corporativo de impedir a nova economia”, ou. Ivana acha que o medo da grande mídia diante da internet é porque não há “onde colocar o taxímetro, uma vez que tudo é replicável”.
Para encerrar, Márion ou aos participantes para que refletissem sobre a dissolução da vida pessoal com a profissional, na internet. Grieb também deixou uma frase de impacto correspondida com aplausos: “Experimentem pensar durante uma semana antes de publicar um tweet”.
Novos autores não quer dizer autores jovens
“A crítica e os novos autores” foi o tema debatido por Alcir Pécora (crítico literário e professor de literatura da Unicamp), Antônio Gonçalves Filho (repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo), Jerônimo Teixeira (crítico de literatura da revista Veja) e Luciana Villas-Boas (diretora editorial do Grupo Record).
Pécora fez questão de diferenciar produção literária contemporânea de jovem autor, fazendo menção a escritores como Dalton Trevisan e Roberto Piva, que têm mais de 50 anos de idade. “Jovem autor não é categoria literária, talvez comercial”, comentou o professor. Pécora, além de levantar as acusações feitas às universidades, que ressaltam apenas velhos autores, indicou também que é preciso fazer crítica da produção contemporânea: “Ela precisa fazer parte da herança cultural”. Segundo o professor da Unicamp, não é necessário ser solidário com os novos autores, porque assim pode-se acabar menosprezando-os. “A crítica literária não deve distinguir autor morto do vivo, apesar de levar em conta a época”, diz.
Já Gonçalves Filho prefere esclarecer logo de início que não acredita em “lobby de editoras que forçam autores”. Em vez de criar conspirações, Gonçalves Filho aconselhou os jovens autores a se preocuparem em escrever bem e com sua bagagem cultural. Teixeira preferiu falar sobre a natureza da literatura, a qual considera “solitária” desde a leitura à escrita. “O escritor tem que passar por instâncias de juízo”, afirma. Ele acredita que a internet pode ser vantajosa, que um blog pode abrir espaço ou não, desde que este não se mantenha como “panelinha de bar da Vila Madalena”, comparou. Teixeira também falou sobre a pressa e a exigência dos novos autores de serem rapidamente reconhecidos pela academia, apesar de continuar incentivando os escritores a produzir. “Qualquer pessoa com repertório pode tentar começar num blog e então partir para a imprensa”, concluiu, dando palavra à representante do Grupo Record.
Luciana iniciou sua vez comentando que o mercado editorial brasileiro, em oposição à tendência internacional, possui bons resultados. O aumento do teto de venda de alguns livros se deve, segundo a diretora editorial, ao surgimento de novos leitores no mercado. “O aumento de renda da classe C e o aumento da valorização dos livros não tão importantes para a formação ajudaram no fortalecimento do mercado editorial”, explicou. Apesar dessa valorização da leitura, a literatura brasileira ainda passa por dificuldades de reconhecimento, sendo que algumas obras só vêm ao público por conta de prêmios ganhos ou por festivais de leitura, por exemplo. “Mesmo assim, isso não significa aumento de venda”, Luciana fez a ressalva.
A diretora editorial do Grupo Record, complementando a sua tese sobre a pouca valorização da literatura brasileira, afirmou que pouco da produção nacional chega aos jornais. Ela também informou que os novos autores sequer fazem parte da lista de compras do governo, as quais acabam beneficiando apenas os autores consagrados. Depois disso, Luciana passou alguns números: quantidades de livros de ficção que são publicados pela Record desde 2007. “A maioria dos livros encontra apenas o silêncio da mídia”, comenta. Ainda assim, ela consegue enxergar o pouco espaço dedicado ao jornalismo literário, além da falta de tempo para o leitor.
Por uma nova França
O francês Hervé Aubron, editor-adjunto da revista francesa Le Magazine Littéraire, sentou-se ao lado de Juvenal Savian (editor de ciências humanas da revista CULT) para a mesa “Conferência – O jornalismo cultural francês”.
Foram liberados fones de ouvido wireless para aqueles que quisessem acompanhar a tradução simultânea, disponibilizados na entrada do teatro pouco antes de Aubron começar a falar sobre as mudanças ocorridas desde o fenômeno da “sociedade do espetáculo”. Segundo ele, o anterior exagero da especialização começou a se desfazer diante do advento que possibilitava a generalização. No entanto, Aubron fez ressalva, apontando o jornalismo “especializado” como uma vertente que pode pecar com paradoxos: ao ser resumido como “jornalismo cultural”, o segmento não se foca no mínimo, mas pretende abordar todas as várias formas de cultura.
“Não somos mais peritos, mas na internet vemos uma superespecialização”, comenta. Levando em conta o jornalismo online, Aubron afirmou que é possível continuar a dar sentido às coisas, ou seja, falando um pouco “de tudo e do que cada um faz”. A esse observador móvel, Aubron deu o nome de “navegador do magma multimídia”, uma vez que não é mais “obrigatório” fixar-se e aperfeiçoar-se em apenas uma área: “No hiperliberalismo, não há mais fronteiras. Somos levados pela correnteza apesar de ainda haver soberania cultural”.
Sobre seu país, Aubron disse que a França vive em conflito entre a teoria e os clássicos. Enquanto ele vê sua pátria como uma antítese que se move por especificidades e por generalizações, Aubron afirma que os jornalistas franceses estão numa dúvida inquietante entre aceitar a cultura de massa e a persistência passado glorioso. “A França não aceita a cultura de massa. Somos o país do bom gosto, mas o elitismo mata”, diz. Ele crê que a cultura acaba se tornando uma justificativa para se manter a desigualdade entre classes. “Se isso continuar, teremos bons artesões e ‘guardiões do bom gosto’ que nos impedirão de pensar na multimídia”, a.
Aubron explicou que a França precisa aprender com seus erros, reviver a postura da crítica de cinema existente nos anos 1950. “Nesse sentido, os Estados Unidos e a América Latina estão mais adiantados que a França”, disse Aubron ao fazer menção à ignorância da cultura de massa por parte dos franceses. O editor insistiu na importância da cultura como “a última coisa que não polui, porque arte não polui”. Ele se mostrou preocupado ao ver a Europa, que é considerada um “laboratório cultural”, como decadente caso o atual “ponto morto” não seja superado. Para concluir, Aubron comparou o jornalista cultural a um geógrafo, por delimitar fronteiras da sociedade.
Discussões sobre arte e o fazer artístico
A mesa de debate “Artes visuais: como o jornalismo cultural pode abordar as novas formas do fazer artístico”, mediada por Katia Canton (escritora, curadora e professora do MAC/USP), recebeu Agnaldo Farias (crítico, curador e professor de história da arte da FAU/USP), Alexandre Orion (artista plástico), Fabio Cypriano (crítico de arte do jornal Folha de S. Paulo e professor da PUC/SP) e Leda Catunda (artística plástica).
Katia preferiu intercalar os expositores: ora crítico, ora artista. Cypriano foi quem deu o pontapé inicial do debate, querendo ver o sentido da arte, o que legitima uma criação como um trabalho artístico. Ele indica meios institucionais, como circuitos de arte, para serem legitimadores do “fazer artístico”. “É lá que o jornalista deve procurar a sua pauta”, indica. Apesar disso, Cypriano não ignora a possibilidade de se observar o que não faz parte desse ambiente, apesar de duvidar um pouco da prática visionária. Para ilustrar, ele faz menção ao graffiti e à pixação, tomando a obra “Sobre a TV”, de Pierre Bordieu, como referência. “Existe uma ingenuidade jornalística provinda do desconhecimento. Isso faz com que ele se surpreenda e provoque a espetacularização”, comentou Cypriano pouco antes de questionar o que é arte mais uma vez: “Até que ponto ‘fazer para chamar a atenção’ é arte?”.
O crítico da Folha reforçou a ignorância e a pressa jornalística de criar ciclos, como “a volta da pintura”, exemplificada por ele. “Se a pintura está de volta, o que está sendo produzido de novo?”. Leda prolongou essa conversa reiterando que os “novos fazeres da arte não são tão novos assim, mas que têm quase 50 anos de idade”. Ela mostra que vê um aumento de pessoas interessadas em se tornar artistas, que chegam a procurar faculdades para se profissionalizar. “O público também aumentou. Já cheguei a ver filas de exposições dobrando quarteirão”, conta. Ela acredita que essa vontade de se voltar para arte é natural, já que se vive num mundo de imagens e, enfim, as imagens podem se tornar mercadoria. “Te gente que entra em conflito, sem saber que estilo escolher, se vai conseguir ganhar dinheiro. Uma coisa é fazer arte, outra coisa é fazer arte para vender”, concluiu a artista.
A fala de Farias começou mais pessimista, pondo a cultura como marginalizada no ambiente jornalístico. “Ela é acessória”, afirmou o crítico, que acredita que esse problema tem a ver com a formação. “Artistas devem ser conhecidos e estudados. Shakespeare foi quem ajudou a criar o inglês, assim como Camões, Pessoa e Drummond auxiliou na criação do português”, constatou. Farias criticou o ensino, indicando a metodologia como voltada em demasia para as ciências exatas: “A arte é marginalizada. Nas faculdades, ela passa a ser técnica, mas as técnicas de abordagem não conseguem preparar o jornalismo cultural”.
O professor de arte continuou justificando a importância do artista como um agente da dúvida. “Descartes já indicou que o conhecimento surge da dúvida, que verdade é pretensão. Enquanto o cientista quer estabelecer uma verdade, o artista discute, faz reflexão e abre os olhos, faz sentir”. Farias acredita que as universidades devem oferecer uma educação flexível, sem se enroscar em discussões sobre o que é arte. “Como é que vamos trabalhar com cultura se não fomos preparados?”, perguntou ao público. Farias vê solução não apenas nas visitas a exposições, mas na produção de aparato crítico. Apesar de reiterar que gosto não se discute, o crítico diz que cada objeto oferece uma linguagem própria e que novos objetos precisam de novos olhares para que seja desfeito “o abismo entre críticos e artistas”.
Para finalizar, Orion deu seu parecer como artista de maneira rápida e sucinta. Ele assumiu o fascínio do artista diante da divulgação de seu trabalho pela mídia, como um artigo sobre suas obras traz satisfação. “A mídia multiplica o alcance da informação, mas ainda existe uma necessidade rotular, sendo que isso é muito subjetivo”, diz. Orion mostra concordância com o ceticismo de Farias ao apontar a cultura como um elemento secundário na cultura brasileira. “Dá para ver mesmo pelo nome dos cadernos de cultura: Caderno 2, Segundo Caderno”, o artista comenta, rindo. Ainda assim, ele não se sente desmotivado, porque vê a arte como uma forma de protesto que não precisa estar apenas no caderno de cultura, mas no caderno Metrópole, da Folha, por exemplo. “E quando não está na parte de cultura, pode ganhar ainda mais destaque porque mais gente vai ler e tem mais destaque”, brinca.
A crítica cultural na contemporaneidade
O penúltimo debate da noite foi mediado por Marta Raquel Colabone (gerente de estudos e desenvolvimento do Sesc-SP). Foram convidados Chico Oliveira (sociólogo e professor emérito da USP), Jorge Caldeira (jornalista e escritor), José Arbex Jr. (editor da revista Caros Amigos e professor da PUC/SP) e Ruy Braga (professor de sociologia da USP). A mesa tinha como título as perguntas “Qual é o papel da crítica cultural contemporânea? Como ela pode ser compreendida diante de tantas mudanças? Qual é a função social do jornalismo cultural na democratização do conhecimento?".
Foram discutidas as funções da cultura, como ela deve ser vista e avaliada não apenas como erudita mas também como entretenimento, uma vez que, segundo Oliveira, a cultura é reflexiva e não somente usufruída. Os debatedores comprovaram a importância de se continuar fazendo reflexões a partir da crítica e do fazer jornalístico.
Como boa parte dos convidados possuía formação no socialismo, a cultura foi pensada a partir da teoria e trazida à prática por Caldeira, jornalista que acredita que é preciso se manter e, ainda, desenvolver mais debates sobre as produções contemporâneas.
Sem muitos desencontros
A mesa “A crise da indústria fonográfica e os caminhos para a produção musical contemporânea” foi composta por Jotabê Medeiros (crítico de música do jornal O Estado de S. Paulo), Júlio Medaglia (maestro e arranjador), Lobão (músico) e Sérgio Martins (crítico de música da revista Veja). Com mediação de Ivan Giannini (surperintendente de comunicação social do Sesc-SP), o debate foi finalizado pelo maestro Medaglia, que quebrou o clima de “fatalismo” e concordância que pairou entre os convidados: “Eu sabia que a pirataria e a internet iam ser culpadas pela merda (sic) de música que ouvimos hoje”
Estavam tratando de um tema “velho”. Jotabe Medeiros assinalou que, há dez anos, a emergência das novas mídias mudou a maneira como se escuta e consome música. “No ano passado, a indústria fonográfica faturou R$350 milhões, o que é apenas o ‘troco’ das grandes empresas. A Casas Bahia, por exemplo, ganhou R$20 bilhões”. E como os músicos fazem, então, para ganhar dinheiro? “Já que isso não é possível com discos, os artistas têm que trabalhar mais, fazendo loucas e intermináveis turnês”. Sérgio Martins concorda, dizendo que as gravadoras estão mais interessadas nos shows do que na venda de discos. “Os artistas já negociam os contratos com lucros de seus shows direcionados diretamente para as gravadoras".
O músico Lobão disse que há quem não goste de fazer shows, mas essa é uma realidade que os artistas são obrigados a encarar. Segundo ele, a crise da indústria fonográfica está ligada ao fato de que “a classe média criativa brasileira se satisfaz com a internet e o pessoal da cena independente também se basta, de forma ilusória”. Para o músico, os novos caminhos para contornar a crise nasceriam com a volta do vinil, o poder do rádio, os shows e o mainstream.
Seria a crítica capaz de mudar o gosto do brasileiro? Indagados por Julio Medaglia, os críticos de música aram que o trabalho deles não é fazer um manual do que é bom ou ruim. Sérgio Martins disse que a crítica da cultura sofre com as redações mais enxutas, além de elas estarem demasiadamente ocupadas com a política. “Os meios de comunicação desaprenderam a lidar com o talento”, concluiu o maestro.
Em seqüência, o congresso foi finalizado com a performance de Lobão.
Foto de Daniel Deak 
Depois da última mesa, o debatedor Lobão fez performance de encerramento do segundo dia do II Congresso de Jornalismo Cultural
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.