"Eu acho que faculdade pode e deve formar bons jornalistas", diz Heródoto Barbeiro
Heródoto Barbeiro nasceu há 61 anos, no bairro Parque Dom Pedro II, Centro de São Paulo. Formou-se em Direito e História – que lecionou por cerca de 20 anos, muitos desses na Universidade de São Paulo (USP). Simultaneamente, começou a trabalhar como jornalista, apresentando o programa Vox Populi na TV Gazeta e sendo comentarista de política internacional na rádio Jovem Pan. Foi também professor do cursinho Objetivo da Avenida Paulista e pela obrigatoriedade do diploma de Jornalismo, Heródoto decidiu subir alguns andares no prédio e fazer o curso na Cásper Líbero. Diz que aprendeu muito, tanto com os professores quanto com os alunos: “Tinha cara lá que era editor-chefe, redator-chefe, repórter especial e até uma autora consagrada, como a Maria Adelaide Amaral”. A experiência surtiu efeito em sua carreira. Após se formar, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Rádio Globo. Foi um dos autores do projeto da rádio CBN, onde trabalha até hoje, como gerente de Jornalismo. Também é apresentador do Jornal da Cultura, na TV Cultura. Contrasta a correria do jornalismo com a meditação budista, religião da qual é adepto há mais de 40 anos. Nos recebeu em sua sala na CBN onde falou sobre sua vida, formação e carreira.
Qual a origem do seu nome? Ela tem alguma relação com a sua formação em História?
Quando eu fui fazer vestibular, na época tinha exame oral e escrito na USP. Então no exame oral de História Geral, o catedrático que ficava na mesa de avaliação era especialista em História Antiga. A primeira coisa que ele falou quando olhou na minha cara foi: “Você quer fazer História por causa do seu nome?”. Mas não. Na verdade, todos os meus irmãos tem nomes gregos. Eu tenho irmão que chama Hipócrates, e não é médico. Tenho um outro que chama Teofrastes, e não é filósofo. Tem um outro que chama Aristóteles. Então não foi por isso, não. Eu sempre adorei história. Foi a primeira paixão da minha vida antes do jornalismo. Por isso decidi cursar.
Depois de trabalhar tanto tempo como historiador você resolveu cursar jornalismo. Por que tomou essa decisão?
Eu resolvi cursar jornalismo por uma imposição legal. Eu trabalhava na TV Gazeta, onde apresentava um programa de cultura que ia ao ar às quartas-feiras chamado Show de Ensino e era comentarista de política internacional no Jornal da Jovem Pan. E na época as DRTs [Delegacias Regionais do Trabalho] estavam dando em cima das empresas. Quando entrei na Cásper, eu não pensava em trocar de profissão, deixando de ser professor e me tornando jornalista. Eu fiz por causa de uma obrigação legal, e agora eu não me arrependo. Primeiro pelos professores. Aprendi muito com eles. Também por causa dos alunos, com os quais eu aprendi muito. Como eles foram obrigados a voltar para a faculdade, tinha cara lá que era editor-chefe, redator-chefe, repórter especial e até uma autora consagrada, como a Maria Adelaide Amaral. Então, na minha vida pessoal foi muito importante voltar pra faculdade, virar aluno novamente, e isso talvez tenha me ajudado a mudar definitivamente de profissão.
Você concorda com a obrigatoriedade do diploma?
Não, eu não concordo. Eu acho que faculdade pode e deve formar bons jornalistas. Ela é boa e tem que existir, mas eu sou contra a obrigatoriedade.
De quais professores você guarda boas recordações?
Bom, de maneira geral eu tenho boas recordações dos professores, mas talvez o que me marcou mais foi o professor José Marques de Melo. O Gaudêncio Torquato [que escreve no Estadão] era também um excelente professor. O Fernandes Neto, também era muito bom. O professor Ebrahim Ramadan, na época era editor-chefe do jornal Notícias Populares, e por incrível que pareça dava boas aulas. A Eva Lakatos, também era muito boa professora.
A respeito da vida social casperiana, que lugares vocês freqüentavam?
Eu dividia meu tempo entre dar aula – era professor de História no Objetivo e na USP – e fazia Cásper Líbero. Na Cásper, eu freqüentava muito o Centro Acadêmico, que tinha um pessoal muito animado. Eu sempre gostei de agitação. Às sextas-feiras, a gente saía da faculdade pra tomar cerveja e bater papo, naquele bar que tem ali na rua Joaquim Eugênio de Lima, o Prainha. Era muito gostoso.
Quais as melhores recordações que você tem dessa época?
As boas recordações vêm dessa convivência com os jornalistas, porque eu era o único ‘foca’[jornalista iniciante] na sala de aula, o resto era tudo ‘cobra criada’[jornalista experiente]. Pra mim era uma grande satisfação conviver com essa gente e ter um aprendizado prático com eles. Depois, também por ocasião da nossa formatura, quando eu fui o orador da turma, mas de um discurso feito coletivamente. O grupo de jornalistas se reuniu e fez o discurso pra eu ler. Por ainda estarmos na época da ditadura, foi um discurso muito duro e importante, e pra mim foi uma grande honra ter sido o orador da minha turma.
Como foi sua trajetória profissional depois da Cásper?
Eu saí da [TV] Gazeta e fui para a TV Cultura, onde apresentei por alguns meses o programa Vox Populi. Fiquei na Jovem Pan por sete anos, quando saí para trabalhar na Rádio Globo. Ao mesmo tempo, eu trabalhei no SBT, por cerca de dois anos. Depois, participei do projeto inicial da CBN, onde trabalho até hoje, e entrei também na TV Cultura. Parei de dar aula. Não tinha mais tempo. Para dar aulas você precisa estudar, preparar as aulas, e eu via que o jornalismo absorvia muito do meu tempo.
Você sente falta de dar aulas?
Não, eu não sinto falta. Eu estou sem dar aula há um bom tempo. Mas não é muito comum você trocar de profissão perto dos 40 anos. É complicado. Quando eu disse “Bom, agora eu estou conseguindo viver só de jornalismo”, eu decidi parar de dar aulas. De vez em quando eu dou palestras, tenho livros escritos – didáticos, inclusive – e agora mesmo eu vou lançar mais um sobre o centro de São Paulo.
Como surgiu essa idéia de fazer um livro sobre o centro da cidade?
Eu escrevia uma coluna no Diário de São Paulo, em que, de vez em quando, eu falava sobre o centro da cidade. Além disso, eu morei e trabalhei lá, e ainda hoje continuo vivendo nessa região, que eu conheço desde a época em que era mais preservado. Então, a editora Boitempo propôs fazer um livro, que é uma contribuição pra chamar a atenção sobre o centro de São Paulo e a preservação da região, que tem muita história. Já derrubaram muitas casas históricas por lá. Se você pegar uma foto, por exemplo, do Anhagabaú, na década de 1950/1960, era uma coisa extraordinária. Um grande jardim, mas acabaram com tudo em nome do tal progresso. É um patrimônio cultural, que foi destruído.
Qual é sua rotina diária?
Levanto às 4h50 e começo na CBN às 5h30, horário em que acontece a reunião de fechamento do jornal. Às 6 horas eu entro no ar e fico até 9h30. Depois do programa, como sou gerente de Jornalismo, fico por aqui mesmo. Tem vezes que fico o dia inteiro. Às vezes saio para dar palestras, participar de debates ou para escrever. E, por fim, à noite, eu vou para a TV Cultura.
Você é apaixonado por Kombis. Como isso começou?
Eu tenho há muitos anos um sítio na Serra do Mar, que até hoje é uma região de estradas muito ruins, e o melhor carro pra chegar até lá é a Kombi, que dá pra levar todas as minhas coisas, inclusive meus animais. Eu já tive cinco ou seis delas e hoje, eu tenho uma. Meus filhos quando eram adolescentes saíam pras baladas de Kombi. Todo mundo queria ir. Cabe bastante gente. A gente faz excursões. Na época da faculdade eu já possuía uma. Lembro que, certa vez, eu estava na esquina no cruzamento da rua Augusta com a avenida Paulista com uma Kombi velha, que acabou pegando fogo. Foi o maior escândalo, correu todo mundo com o extintor de incêndio, o maior vexame. O pessoal brincava bastante. Falavam, “Joga essa ‘jabiraca’ fora!”, “Taca fogo”, essas coisas todas.
Quando se tornou budista?
Quando eu fui convidado para dar aulas de inglês para uma senhora japonesa no bairro da Liberdade, ela morava em um templo budista e era esposa do superior do local. E por acaso, um amigo e professor meu da USP, Ricardo Mario Gonçalves, era monge nessa comunidade zen-budista. Percebi que eu não ia conseguir dar aulas de inglês, porque ela não falava português e eu não falava japonês. Acabei perguntando para o Ricardo o que era esse negócio de Budismo. Ele disse que não dava pra explicar e se eu quisesse poderia ir sábado à meditação. Cheguei lá e achei que aquilo era coisa pra doido, com todo mundo virado pra parede. Eu fiquei lá, olhando pra parede durante uma hora, e ele andava com uma régua grande na mão, que de vez em quando ele usava para bater nas costas das pessoas. Depois da meditação, teve um chá com vários senhores, japoneses e brasileiros, e eu perguntei pro Ricardo onde teria um catecismo ou um livro pra eu aprender mais sobre o Budismo. Ele respondeu que não tinha, e que o Budismo era um aprendizado interno, que não é transmitido oralmente. Eu encarei aquilo como um grande desafio e resolvi tentar. Acabei me tornando budista. Isso já faz 41 anos.
Você também é formado em Direito. Por que escolheu essa carreira? Já exerceu a profissão?
Primeiro, porque eu gostava de Direito e achava que daria para conciliar com o curso de História, e realmente deu. Depois eu fiz exame na OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e trabalhei um pouco no escritório de advocacia do meu irmão, logo no começo. Depois eu comecei a fazer muitas outras coisas e diminuí a minha atuação como advogado, até parar. As pessoas me perguntam se eu sou advogado, professor de História, e eu digo que não. Eu acho que a gente é o que faz. Eu sou jornalista porque só trabalho com jornalismo.
Por qual motivo você cursou japonês?
Por dois motivos. Primeiro, por causa do templo budista. E segundo, porque eu estava fazendo um trabalho de mestrado e doutorado na USP sobre o Japão, então eu achei que precisava saber alguma coisa de cultura oriental e me matriculei no curso de japonês, que estudei por dois anos.
Você foi eleito por dois anos consecutivos o radialista mais confiável pelo povo. De onde vem essa credibilidade?
Credibilidade não é uma coisa estática, é dinâmica. Assim como você constrói, pode perder de uma hora pra outra, tem que tomar o máximo de cuidado com ela. E todos os dias eu persigo duas coisas: isenção e ética. Tem dia que eu consigo, tem dia que não. Mas eu acho que na maioria das vezes eu consigo. As pessoas têm essa percepção. Mas eu me esforço pra ir nessa direção, ainda que muitas vezes não consiga.
Você acredita em imparcialidade?
Não. Acredito em isenção. Imparcialidade, não. Eu não sou um jornalista imparcial. Eu sou um jornalista parcial.
E como é possível conciliar isso com a credibilidade?
Eu acho que no momento que você é parcial, você tem que ser transparente. As pessoas têm que saber o que você pensa, quais são as suas escolhas, porque assim elas podem fiscalizar melhor e acabam confiando mais em você.
O rádio é a sua grande paixão no jornalismo?
Não importa se é rádio, televisão, internet ou livro. A minha grande paixão é o jornalismo.