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02/05/2011 - 13h24 - Atualizado em 17/05/2012 - 04h35

O Brasil no cinema, o cinema no Brasil

Jaqueline Gutierres e Luana Fagundes

Com competência e muito talento, as produções nacionais vivem uma boa fase depois de um longo período de oscilações

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Por 34 anos, a comédia de Bruno Barreto foi o recorde
de bilheteria nacional

Luzes, câmera, ação! Para filmar um bom longa-metragem é preciso muito mais que isso: o sucesso de filmes que marcam a história do cinema brasileiro é consequência não só de uma boa produção, mas do senso de oportunidade dos diretores, que sabem falar a língua de seu tempo e retratar cenas de um país que precisa ser visto e vivido

Há 34 anos a comédia Dona Flor e seus dois maridos, dirigida por Bruno Barreto, chegou às telonas brasileiras para ser um sucesso. Baseada no livro homônimo de Jorge Amado, a produção foi a então recordista nacional de bilheteria, atraindo 10,6 milhões de espectadores às salas de cinema. Recorde que se manteve de 1976 até o ano passado.

A trama conta a história da professora de culinária Dona Flor, personagem interpretada por Sônia Braga, que tenta remediar a morte do marido

Há 34 anos a comédia Dona Flor e seus dois maridos, dirigida por Bruno Barreto, chegou às telonas brasileiras para ser um sucesso. Baseada no livro homônimo de Jorge Amado, a produção foi a então recordista nacional de bilheteria, atraindo 10,6 milhões de espectadores às salas de cinema. Recorde que se manteve de 1976 até o ano passado.

A trama conta a história da professora de culinária Dona Flor, personagem interpretada por Sônia Braga, que tenta remediar a morte do marido boêmio Valdomiro (vivido por José Wilker), casando-se com o recatado farmacêutico Teodoro Madureira (Mauro Mendonça). A falta do antigo companheiro de boas safadezas leva Dona Flor a trazê-lo de volta em espírito, o que a deixa em dúvida sobre o que fazer com os dois maridos.

Um salto no tempo nos leva ao ano de 2010 com Tropa de elite 2, do diretor José Padilha, que destronou Dona Flor e bateu o até então recorde nacional de público. A produção chegou com a responsabilidade de fazer jus ao primeiro longa, Tropa de elite, de 2007. E foi muito além dos 3 milhões alcançados pelo antecessor. O enredo traz à cena o ex-capitão do BOPE do Rio de Janeiro, Nascimento, agora promovido a coronel, vivido por Wagner Moura, diante de novos inimigos: políticos corruptos e milícias que agem nas favelas cariocas. A trama levou 12 milhões de espectadores às telas.

Mais de três décadas separam Dona Flor de Tropa de elite 2. O que mudou no cinema brasileiro de lá para cá? Por que filmes tão distintos caíram no gosto do público?

De acordo com o cineasta, produtor de TV e professor da Faculdade Cásper Líbero, Ninho Morais, o cinema brasileiro herdou características estéticas e temáticas de outros meios de comunicação. “Dona Flor fez muito sucesso porque utilizou artifícios narrativos radiofônicos e televisivos, tanto que depois virou minissérie. Além disso, nas décadas de 1960 e 1970, as pessoas tinham o hábito de ir ao cinema, era um programa de família”, relata.

Se por um lado assistir a um filme deixou de ser motivo para reunir parentes, o vínculo do cinema com a televisão permanece evidente até os dias de hoje. Sobre essa influência, a crítica de cinema da revista Veja, Isabela Boscov, aponta que se trata de um processo natural. “O público se identifica quando vê o ator da novela contracenando no filme. Não vejo como poderia ser diferente, pois a teledramaturgia foi um grande unificador nacional. É uma cultura forte, por isso ainda se reproduz numa parte do cinema”, opina.

É claro que não basta um pouco de teledramaturgia para realizar um filme bem aceito. Há muitos fatores externos que colaboram para o sucesso de uma produção e um deles é a próspera situação financeira do país. O cineasta e vice-coordenador do curso de Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero, Marco Vale, exemplifica essa evidência relembrando o contexto histórico que o Brasil vivia quando a trama de Bruno Barreto foi exibida. “Períodos de euforia econômica geram sucessos de bilheteria. Com Dona Flor, se vivia o milagre dos militares, época em que o Brasil foi, talvez, o país que mais cresceu no mundo”, comenta.

A atual realidade econômica do país também é positiva e 35conta com o aumento do poder aquisitivo da classe C, o que colaborou com a grande repercussão de Tropa de elite 2. É o que reitera Ninho Morais ao afirmar que “O ingresso é caro, mas as pessoas estão elevando a capacidade de compra”. Deve-se destacar também que o sucesso se deve à competência com que o longa foi produzido. Para Morais, “O filme é um fenômeno porque é magistralmente bem feito. A violência e a corrupção são mostradas de forma bem costurada, com roteiro elaborado e boa trilha sonora”.

Outro fator importante para o sucesso do filme de Padilha é apontado por Marco Vale: saber registrar a contemporaneidade de um povo. “O Tropa de elite 2 é o filme certo na hora certa. A economia está aquecida e o filme está entrosado com seu tempo, porque soube captar, como todos as produções de grande sucesso sabem, o momento da sociedade”, pontua. Ainda de acordo com o cineasta, em Tropa de elite 2, o diretor José Padilha não se detém a repetir a fórmula que funcionou no primeiro longa. “O filme vai além. O Padilha mostrou que tinha muito mais a dizer sobre o assunto”, afirma.

Como um dos méritos da produção, o jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e crítico de cinema, Gabriel Carneiro, comenta que “Tropa de Elite 2 é um filme que conseguiu fazer voltar o público popular ao cinema – aquele mesmo que lotava as salas nos anos 1970 e 1980 para ver filmes nacionais, incluindo Dona Flor”. Porém, Carneiro faz uma observação: com o passar do tempo e o aumento da população, o número de salas de cinema diminuiu. “A população em 1975 era de 90 milhões. Hoje, são 185 milhões, o dobro. Em 1975, havia quase 4 mil salas. Hoje, não são nem 3 mil”, conta o jornalista.

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Chico Xavier, de 2010, fez com que a temática religiosa
ganhasse espaço

Nos anos 1970 e 1980, o ingresso do cinema tinha o mesmo preço de uma passagem de ônibus. Atualmente custa em média R$ 20, o que dificulta a frequência das classes C, D e E. Na opinião de Gabriel Carneiro, o aumento de preço é um dos motivos do recorde nacional de bilheteria só ter sido batido em 2010. Além disso, para o crítico, ainda há a pequena distribuição dos filmes nacionais se comparados aos de Hollywood. “No Brasil, os blockbusters conseguem assombrosas bilheterias e os filmes pequenos disputam a tapa algumas poucas salas, torcendo para se manter em seu circuito limitado”, comenta. Carneiro complementa sua crítica afirmando que “50 mil espectadores, para um filme brasileiro, é uma vitória. Isso porque ainda há um preconceito grande com a nossa produção – de quem distribui, de quem exibe e de quem assiste”.

O cinema brasileiro e os outros 

Algumas marcas registradas das produções brasileiras mostram o que seria a “cara” da nossa cinematografia. Para Ismail Xavier, teórico de cinema brasileiro, no país há duas temáticas que recebem boas respostas do público: a comédia e a violência. Ele explica que isso se repete ao longo do tempo. “Quando se compara Tropa de elite 2 com Dona Flor, não se pode esquecer que no momento em que este fez sucesso, o filme Lúcio Flavio, o passageiro da agonia, do diretor Hector Babenco, também fez”, aponta. “E agora, nós vivemos o mesmo momento: as várias comédias que têm relação com a TV e estão fazendo sucesso e um filme que trata da questão da violência, que é o Tropa 2”, conclui. Além das duas vertentes principais, o ano de 2010 contou com um fator específico: os filmes espíritas, como Chico Xavier e Nosso Lar. Ismail comenta que as produções de cunho religioso conquistaram espaço. “Apareceu um ciclo que fez enorme sucesso. O fator religião tem uma penetração muito maior aqui no Brasil do que as pessoas pensam e esses filmes vieram provar isso", comenta.

Além da temática que cada produção aborda, para Ninho Morais, há características da cinematografia nacional que são muito ligadas a roteiro e direção. O cineasta afirma que “o cinema brasileiro se habituou a ter o diretor como roteirista” e que essas e outras questões se deram por fatores culturais. “Os cinemas argentino e uruguaio, por exemplo, não tiveram influências radiofônicas como o nosso. Na Argentina, há esse distanciamento entre roteiro e direção”, esclarece o produtor, contando que “Eles têm uma boa indústria, sabem fazer bem, bonito e barato”.

Além de se diferenciarem na produção, os cinemas argentino e brasileiro também buscam abordar assuntos distintos. Segundo Gabriel Carneiro, os diretores argentinos dominam um tema que os brasileiros não conseguem: o retrato da classe média. “Parece-me que o cinema argentino consegue levar a classe média do país a ver seus filmes justamente por falar dela, o que não acontece no Brasil”. Uma característica relevante que diferencia os dois cinemas, na opinião de Ismail Xavier, é a cinefilia argentina ser maior que a nossa. “A Argentina estava em crise econômica e isso não diminuiu a vitalidade enorme de seu cinema. A cultura cinematográfica argentina é vivida com intensidade”, destaca.

Para a crítica Isabela Boscov, a Argentina se destaca em termos de qualidade. “É um cinema que tende a ser consistente do ponto de vista criativo e qualitativo. Eles têm um domínio de narrativa que nem sempre é encontrado no Brasil”. De acordo com Boscov, enquanto a vocação narrativa brasileira é a comédia, o ponto ao qual tende o cinema argentino é o drama. “Um drama elaborado, equacionado narrativamente. Os diretores têm uma autoridade mais eficaz da narrativa cinematográfica se comparados aos produtores brasileiros”, reforça.

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O diretor José Padilha comanda as gravações de
Tropa de Elite 2

A qualidade da dramaturgia da vida urbana produzida na Argentina também é reconhecida por Ismail Xavier, “São filmes capazes de dialogar com plateias do mundo inteiro. Não há dúvida de que tenha uma capacidade maior do que o cinema brasileiro”. Xavier enfatiza que a boa recepção dos filmes argentinos no exterior é um fenômeno oscilante, que acontece com produções de todo o mundo. “Nos anos 1960, o cinema brasileiro foi muito melhor do que o argentino. Isso depende do momento cultural”, conta.

Considerando as características singulares de cada produção e a necessidade de valorizá-las, Ninho Morais comenta a atual desordem do cinema mundial. “O cinema perdeu a convicção do que é. O cinema australiano, por exemplo, vinha muito bem, inclusive exportando atores, como Nicole Kidman, Russell Crowe, até que se perdeu, por não conhecer mais o público a que pretendia atingir”, relata.

Sem limites, nem parâmetros

Além do trabalho árduo de produção comum a qualquer um que se disponha a realizar um longa-metragem, no Brasil há uma outra questão. O número de películas que estão sendo produzidas é muito grande – são 300 filmes em montagem – comparado à baixa visibilidade que a maioria deles terá nas salas de exibição. 

O “boom” de produção, para Ninho Morais, se deve a dois fatores: os avanços tecnológicos que aumentaram a qualidade e baratearam a produção audiovisual, e as facilidades da Lei Rouanet, que simplificaram o processo de levar adiante um filme. Segundo ele, a questão é que “Há uma lógica meio perversa. Por ser democrática e permitir que todo mundo faça, permite também que ninguém veja”.

Nessa mesma discussão, a crítica à Lei Rouanet é que se, or um lado ela é positiva, ao incentivar a produção nacional, por outro é pouco rígida e não cobra os resultados de quem se beneficia dela. Para Ninho Morais, o debate é longo e está longe de ter um fim, mas não se pode ignorar que o incentivo “Alimenta uma indústria, o que é fundamental. A indústria do audiovisual é uma das que mais cresce no mundo, até porque tudo hoje é audiovisual”, argumenta. Já Marco Vale comenta que a criação da Lei foi uma manobra muito esperta. “Ela faz com que o governo não dê o dinheiro, se adaptando muito bem ao momento neoliberal”, explica.

A existência desta lei, no entanto, possibilitou que o cinema brasileiro saísse da crise em que se encontrava depois do fechamento da estatal Embrafilme, nos tempos de Fernando Collor, e que reconquistasse seu espaço. Porém, ela tem suas falhas. Marco Vale aponta uma, “Com a Lei de Incentivo você passa a decisão do que é produzido para o departamento de marketing das empresas. Então, muitos projetos aprovados não conseguem patrocinador, pois não se quer a empresa vinculada ao tema”.

Há ainda outros problemas que surgem com a Lei de Incentivo. Isabela Boscov acredita que quase não há quem fique à margem dela, o que mostra seu uso indiscriminado. “A Lei contribui muito mais do que deveria”, comenta, emendando que “Os grandes precisam de muito dinheiro e os pequenos estão pedindo pouco. Além disso, as empresas quase nunca concentram as verbas em uma só produção.”

Outro ponto, além verbas destinadas à produção, é a desigualdade entre os setores – produção, distribuição e exibição – que a Lei deveria atender. Na opinião de Ismail Xavier, “Há muito mais dinheiro para a produção do que para distribuição e exibição. Com verbas incentivadas, são poucos que se preocupam se seu filme será visto – o que é uma pena”. O crítico ainda comenta a responsabilidade social que vem junto com a Lei, “Acho ainda mais preocupante o governo e o povo não se mexerem, pois, afinal, é verba pública, vinda de impostos”. 

Ademais de uma maior cobrança pela população e pelo governo, para Marco Vale o mais importante é discutir quem, de fato, está decidindo o que é produzido no Brasil. “O ideal mesmo é que se tenha incentivo à diversidade, a vozes dissonantes, ao contraditório, à busca de propostas e olhares diferentes e não a um discurso hegemônico”, opina.

A cara do Brasil

A imagem do Brasil lá fora, formada pelo que a maioria da população vê nos filmes – e não pelo que chega aos festivais ou aos olhos dos cinéfilos – é um estereótipo criado com base nos grandes sucessos como Cidade de Deus, Carandiru Central do Brasil. Isso não é uma característica apenas do cinema brasileiro, acontece em todo o mundo. Um bom exemplo desse fenômeno são os Estados Unidos, exportados por Hollywood de tantas maneiras diferentes, que até parecem familiares para os espectadores de outras regiões do planeta. Segundo Ismail Xavier, pela variedade de filmes produzidos, há a ilusão de se conhecer várias realidades diferentes daquele lugar. “No caso de um país cujo cinema exporta menos, se tem menos chances de mostrar aspectos variados, se você tivesse 50 filmes brasileiros exportados por ano como Hollywood tem, você teria a diversidade”, afirma.

Petrus Lee
O teóricodo cinema brasileiro Ismail Xavier

A pequena exportação de filmes que o Brasil faz acaba criando sua imagem ao mesmo tempo em que autoriza os cineastas dessas produções serem os únicos grandes nomes no exterior. Para a historiadora e professora da Faculdade Cásper Líbero, Mônica Campo, a “cara” do cinema brasileiro acaba ganhando um quê de estrangeira devido à “Produção de filmes com uma linguagem comum internacional”. “Alguns cineastas são percebidos como internacionais, como é o caso do Fernando Meirelles, Walter Sales, José Padilha. Eles dão um caráter específico para a cinematografia e marcam um tipo de leitura do que se deve ser um filme feito no Brasil”, opina a professora.

Já o que acontece dentro do país com relação aos filmes de violência, é uma maneira de o cidadão conhecer e confirmar algo que ele acredita ser verdade. Na opinião de Ismail Xavier, “O povo reconhece no filme aquilo que ele tem como visão do processo; ou o modo como o filme traz aquilo que ele não sabe o convence de que seja o que acontece de verdade”. Para o pesquisador, existe também uma questão que não se pode ignorar: “A contundência do tempo mostra que, em geral, quando um filme trata de violência é porque há algum problema social que está incomodando”.

A questão da violência não é novidade no país e, segundo Marco Vale, é relacionada a um problema social que ainda não foi superado: a miséria. “O legado do cinema novo continua atual: a temática sobre a miséria. Mudou-se a forma de abordar, mas continua-se abordando”, comenta. “O dia em que os cineastas e o público brasileiro passarem a não precisar ter tanta urgência em abordar esses temas pode ser que a coisa no país esteja melhor.”

Apesar dos percalços, Marco Vale se diz confiante no futuro de nossa dramaturgia. “Sou muito otimista com relação ao nosso cinema, acho que ele tem uma diversidade que não tinha há um tempo.”



Comentários Comentários Postados
Samuel Chaves[07/11/2011 - 01:31]

O que você acha que mudou no cinema desde a década de 90?

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