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23/04/2010 - 10h00 - Atualizado em 25/05/2012 - 05h12

Jornalismo online como prática cidadã

Entrevista de Camila Baos, Gabriela Capo e Suellen Fontoura, 1º ano de Jornalismo | Edição: Lidia Zuin

Ex-aluna da Cásper, Daniela Silva conta sobre seus vários projetos que defendem a representatividade dos cidadãos pela internet

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"Uma coisa fantástica na rede é que
ninguém precisa trabalhar em uma
grande corporação de mídia para ser
comunicador"

Daniela Silva é uma das criadoras do Clone do Blog do Planalto, fundou a empresa Esfera e participa ativamente de movimentos da web como o Transparência Hackday. Direto da Casa de Cultura Digital, ela também organizou o lançamento do Mozilla Drumbeat, outra rede social relacionada ao crescente movimento cidadão na web. Confira a entrevista que Daniela, ex-aluna da Faculdade Cásper Líbero, concedeu:

Recentemente, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um artigo sobre a sua iniciativa conjunta com Pedro Markun de clonar o blog do Planalto. Como tiveram essa ideia?
Nós sempre acreditamos que a Internet é uma plataforma propícia para o cidadão atuar. Foi aí que vimos a discussão sobre os comentários fechados no blog do Planalto e resolvemos lançar uma provocação na rede, justamente para que as pessoas envolvidas nessa discussão percebessem que, com ou sem comentários, o espaço de conversação já estava posto a partir do momento que o governo colocou seu blog na internet. Infelizmente, fechando os comentários, o governo deixou de fazer um importante convite à participação e ao diálogo com o cidadão. Mas, na nossa ponta - que é a ponta da sociedade -, tentamos mostrar que podemos e queremos participar dessa conversa pública por meio da rede.   

Qual foi a repercussão do blog? Houve receio de serem processados?
A repercussão da clonagem do blog foi muito grande. Hoje temos cerca de 39 mil comentários no blog, mas recentemente demos uma apagada nos milhares de spams (mensagens automáticas) que aparecem por lá, porque deixamos o blog totalmente sem moderação. Nos quatro ou cinco primeiros dias da "clonagem", tivemos 25 mil visitas. Além disso, a mídia tradicional e os portais da web cobriram intensamente a ação que, muitas vezes, as entrevistas tentavam classificar como "a favor" ou "contra" o governo. Então nós tivemos que reafirmar que essa era uma ação política, mas apartidária, ligada às possibilidades de participação por meio da rede. Mas não houve receio de sermos processados, especificamente quanto à clonagem do blog, porque o governo federal acertadamente escolheu uma licença Creative Commons para o conteúdo. Eles deixaram claro que o que era publicado poderia ser reutilizado, contanto que se declarasse a fonte, que foi o que nós fizemos. Nunca pedimos permissão para clonar o blog e o governo não entrou em contato diretamente conosco após o feito, justamente por causa das possibilidades abertas por essa licença. Sabemos, pela mídia, que o posicionamento do governo, depois do clone, foi a de reforçar o caráter livre da internet e o uso coerente da licença Creative Commons

E quanto aos comentários feitos? Vocês são responsáveis por eles?
Existe uma jurisprudência no Brasil que atribui ao dono do blog a responsabilidade pelos comentários postados em seu domínio e não aos comentadores. Sendo assim, se alguém usar a caixa de comentários do blog para ofender ou caluniar alguma outra pessoa, nós podemos ser responsabilizados por isso. Mas mais do que ter receio de sermos processados por isso, nós acreditamos que essa jurisprudência deve mudar. Achamos que o dono do comentário é o comentador e não o dono do blog. A forma como a internet possibilita que muito mais pessoas se manifestem no discurso público só será reforçada se alcançarmos essa mudança no plano jurídico. Confiando na possibilidade dessa transformação, nós mantemos os comentários abertos e não moderados.  
 
O blog do Planalto é uma iniciativa semelhante ao Transparência Hackday. Como atua esse programa?
O clone do blog do Planalto é anterior ao Transparência HackDay e não está diretamente ligado a ele, apesar de que podemos dizer que o clone é um "hack", já que ele utiliza as possibilidades técnicas da internet e a própria lógica do sistema político para questioná-lo, mas ele não é um "fruto" desse movimento.
O Transparência HackDay é uma comunidade independente e autônoma que nasceu em um evento organizado pela Esfera, em outubro do ano passado. Nós nos inspiramos em algo que já existia, porque os hackdays são eventos comuns que juntam desenvolvedores ou hackers para criar códigos, pelo simples prazer do desafio. O nosso objetivo era virar essa prática para o interesse público, colocando num mesmo espaço desde desenvolvedores até gestores públicos. Nós aproveitamos essa diversidade para criar projetos que possam gerar novas formas de participação política na rede. A partir do evento, formou-se uma comunidade que hoje se encontra em uma lista de e-mails para discutir e empreender pequenos projetos sobre essas mesmas questões, da política e da cidadania na rede.   

Como a empresa Esfera funciona no contexto da webcidadania?
Nós lançamos a Esfera pouco antes do primeiro Transparência HackDay, então ela também não é um fruto do movimento. Aliás, é importante dizer que o Transparência HackDay é totalmente independente da Esfera. Nós fizemos os primeiros eventos e somos moderadores da lista. Aliás, adoraríamos dividir essa tarefa com mais gente. Mas qualquer um pode entrar no grupo do THackDay, organizar um evento ou criar um projeto que siga essa mesma linha em qualquer lugar. A Esfera pretende ser um think tank, um espaço que gera pensamento e crítica política ligados ao tema da transparência pública, da política e das tecnologias. É uma empresa, mas com uma forte perspectiva crítica e engajada.
A respeito da webcidadania, este é um conceito novo que se propõe a abranger algumas ações. Muitas das coisas que fazemos tem a ver com isso, mas muitas não tem. Mesmo assim, a webcidadania ainda não é um movimento consolidado. Há outras pessoas e grupos, como o nosso, preocupados em pensar os temas da cidadania e da Internet, usando essa tag em comum. Nós temos preocupações e ações análogas às desses grupos, que desempenham um excelente trabalho na rede. Apesar de não concordar muito com essa nomenclatura, por gostar mais de pensar nas dimensões da "cidadania" no mundo digital a pensar que a "web" inaugura uma "cidadania" nova, acho que é muito importante todos nós nos aproximarmos e juntarmos forças em prol de objetivos comuns.   
 
Há algum tipo de retorno financeiro? Como vocês conseguem recursos?
Trabalhamos com ações independentes e de ativismo na ponta da sociedade, com apoio de instituições não-governamentais. Também oferecemos serviços para governos que querem se posicionar de uma forma diferente na rede, que seja em prol da transparência e da participação.   

Como alguém pode participar ativamente dos projetos de webcidadania?
É só começar! As ferramentas estão aí pra quem quiser se inserir no discurso público, propagar ideias e empreender projetos ligados à cidadania e à política. Pra quem quiser compartilhar conhecimento ou encontrar colaboradores, indico a lista do Transparência HackDay.    

Na sua opinião, qual a influência que o Twitter, enquanto rede social, tem sobre o movimento da webcidadania?
Não acredito que exista um "movimento da webcidadania" já consolidado como tal. Nas ações da Esfera, o Twitter é muitíssimo importante. Posso dizer que do Blog do Planalto até o Transparência HackDay e seus projetos, a divulgação de tudo o que nós fazemos acontece no boca a boca do Twitter. É por lá que encontramos participantes, colaboradores e novas ideias pra empreender.   

Quando você viajou para a Suíça, chegou a reconhecer alguma diferença entre os suíços e os brasileiros, nesse sentido? Como procura incitar o movimento durante essas visitas?
Minha visita à Suíça foi muito breve. Fiquei lá apenas três dias, que serviram para falar especificamente de um projeto que será realizado no Brasil, nas eleições deste ano. Será um projeto ligado à transparência dos valores políticos envolvidos no processo eleitoral, com foco principalmente no Poder Legislativo e no Senado. A iniciativa vem do Center for Research on Direct Democracy, uma instituição da Universidade de Zurich. O projeto será financiado pela Fundação Avina e coordenado pelos Institutos Ágora e pela Esfera, juntamente com a Rede Abracci, da qual fazem parte o Instituto Ethos e outras organizações.

Quais são os principais obstáculos encontrados na implementação desses projetos de discussão cidadã na Internet?
Estamos num momento riquíssimo para trabalhar com cidadania na web. Felizmente, nós temos encontrado muitas portas abertas para repensar a política por meio da rede. Não acho que existem obstáculos que possam nos impedir de realizar aquilo que realmente queremos fazer. Mas vivemos os mesmos desafios enfrentados por muitas das pessoas que resolvem empreender no Brasil.  Financiamento escasso, tempo raro, ideias mirabolantes (adoramos) e foco quase inexistente: tudo isso combinado com uma dose de idealismo e de vontade real de transformar as coisas no mundo em que vivemos. Essas mudanças começam pelo nosso próprio entendimento do que é trabalho e pelas ideias que tentamos compartilhar livremente com as pessoas, indo na contramão do que o mercado prega. Mas, no fim das contas, é um malabarismo divertidíssimo!   

Qual a influência da Faculdade Cásper Líbero na sua formação e na escolha da área de atuação?
Na Cásper eu conheci meus melhores amigos, que hoje são colegas de trabalho na Casa de Cultura Digital, coletivo do qual a Esfera faz parte. Somos um conjunto de pessoas que trabalham com tecnologias capazes de transformar a sociedade, em diversas áreas e de diversas maneiras. Foi fazendo jornal-laboratório na Cásper que eu aprendi que jornalismo não precisa ser feito como nas redações tradicionais, ou seja, às pressas, sem inovação, sem criatividade e de olho nas lógicas de mercado. Nos laboratórios e nos corredores da Cásper, interagindo com colegas sensacionais, com os professores de cultura geral e de novas tecnologias, era possível fazer o que quase não dá tempo de fazer no mercado: refletir sobre o sentido dessa profissão. E acho que essa reflexão foi essencial para que eu deixasse os planos de trabalhar numa redação, com o objetivo de construir um caminho diferente, mais autônomo, que hoje me faz muito feliz. 
Também na Cásper eu conheci o professor Sérgio Amadeu, ativista e profundo conhecedor das questões da sociedade e da internet. Foi ele quem me incentivou a ingressar no mestrado nessa mesma instituição onde eu já havia me formado em jornalismo. Com o desligamento do professor Sérgio Amadeu, ele não participou da minha banca de mestrado, que aconteceu dia 5 de abril. Minha dissertação teve como tema a Transparência na Esfera Pública Interconectada.

Como jornalista formada e atuante, que recomendação você daria para os iniciantes na área?
Uma coisa fantástica na rede é que ninguém precisa trabalhar em uma grande corporação de mídia para ser comunicador. Não considerem isso uma ameaça, é apenas uma transformação social necessária e benéfica para a democracia. Existe muito corporativismo na área, muito receio da "revolução" proporcionada pelas novas mídias. No meu ponto de vista, nosso papel não deve ser o de "defender a classe", mas sim o de defender o direito de todas as pessoas à comunicação ativa na esfera pública. 
Pra quem é iniciante, a rede também representa a chance de se posicionar desde o começo como comunicador e não apenas "estudante de jornalismo", por exemplo. É muito importante fazer exercícios laboratoriais, levar os trabalhos da Faculdade a sério, fazer muita foto e muito vídeo (aproveitando que nunca na história foi tão barato), jogar toda a produção na internet: ninguém precisa esperar por um emprego num jornal ou na TV para se colocar nesse novo espaço de comunicação.  
Uma dica legal para quem está começando e quer mostrar seu trabalho é publicar tudo em Creative Commons. Tudo o que você produz e coloca na rede, ou em qualquer lugar, tem uma licença padrão, o "copyright" (todos os direitos reservados), que não permite que ninguém reproduza seu conteúdo em outros espaços. Com o Creative Commons, é possível tomar poder sobre seu próprio conteúdo e entrar num contexto maior de colaboração, em que nenhuma produção é finita. Tudo pode ser republicado e reaproveitado por outras pessoas, de acordo com as regras que você mesmo define. Dá, por exemplo, para liberar um texto ou uma foto para reprodução não-comercial, pedindo que se cite sempre o seu crédito.
Por último, eu recomendaria que ninguém tivesse medo de criar seu próprio caminho a parte do mercado, como freelancer ou como empreendedor, se tiver vontade de repensar a forma de fazer comunicação. Nunca houve um tempo melhor para repensarmos o nosso papel na sociedade. E eu acredito que vale a pena!