O retrato de um país onde os jogos de interesse contrastam com a luta de líderes que desafiam os poderosos
O jornalista e escritor Zuenir Ventura ao escrever sobre a vida e a luta do líder ambientalista Chico Mendes acabou por alcançar uma façanha ainda maior do que a de contar a história de um dos maiores mitos brasileiros: traçou um nítido retrato do Brasil.
Em Chico Mendes - Crime e Castigo, Ventura expõe as fraudes, a impunidade e a falta de recursos mínimos disponíveis àqueles que ainda têm coragem de lutar pela justiça em um país como o Brasil. Um Brasil que, entretanto, conta com o privilégio de ter tido Chico Mendes entre os seus cidadãos: um símbolo do engajamento ambiental, da defesa do trabalho dos seringueiros e dos povos da floresta, além da resistência contra o desmatamento da Amazônia e das florestas brasileiras.
A série de reportagens intitulada O Acre de Chico Mendes, publicada no Jornal do Brasil, tornou-se livro 15 anos depois do assassinato do seringueiro. Ao longo das três partes da obra (O crime – a primeira viagem ao Acre em 1989; O castigo – segunda e terceira ida ao Acre para o julgamento em 1980; Quinze anos depois – a quarta viagem em outubro de 2002), o autor acaba completamente imerso no universo pessoal e social de Chico Mendes. Ventura, além de inteiramente comprometido em mostrar os desdobramentos da tragédia, traça o perfil das personagens envolvidas, revelando a gama de interesses que permeiam o assassinato do ambientalista e as pontas soltas de um crime ainda não totalmente solucionado.
É impossível não se sensibilizar com a simplicidade de Eunice Feitosa, a primeira mulher de Chico Mendes, nem se surpreender com a coragem do juiz Adair Longuini, que condenou os assassinos Darly Alves da Silva e Darci Pereira, pai e filho, respectivamente. Também se mostrou audaz o garoto Genésio Ferreira da Silva, quem denunciou os criminosos. Ao passo que o leitor se envolve com as personagens, Ventura apresenta os fatos que levaram ao assassinato de Chico Mendes e aos poucos revela as pessoas influentes relacionadas ao crime.
A realidade acreana
Em um estado onde se vende votos, fazendeiros travam guerras contra os seringueiros e se juram ambientalistas de morte, a polícia não conta com recursos e condições técnicas para investigar as denúncias. Os proprietários de jornais, como João Branco, dono do jornal Rio Branco, e autoridades políticas, como Aragão – ex-prefeito da capital acreana –, estão por trás de crimes desse gênero.
Ventura demonstra, por meio de relatos e de documentos, a impassibilidade de parte da polícia e o desinteresse das autoridades. Chico anunciou a sua morte em artigos, entrevistas e cartas enviadas ao Secretário de Segurança e Governador do estado, o então Diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma; ao Ministro da Justiça, Paulo Brosard, e até mesmo a José Sarney, na época presidente. Nenhuma providência foi tomada.
Após o assassinato, cometido em 22 de dezembro de 1988, os criminalistas se depararam com sucessivas falhas no inquérito e com uma completa falta de rigor na preservação do local do crime. Estes fatores comprometeram parte da investigação. Hoje, 18 anos depois do assassinato, Darly, o fazendeiro mandante do crime, está em liberdade condicional e seu filho, Darci, cumpre pena em regime semi aberto.
Por meio de uma completa apuração e de entrevistas com as personagens relacionadas ao caso Chico Mendes, Ventura chama a atenção do leitor para uma das regiões do Brasil onde a justiça custa chegar e onde as ameaças de morte são promessas que se cumprem.
Mas o Acre não é só isso, afinal, é um estado também marcado pelo enorme legado deixado por Chico Mendes. Seringueiros de todo o Acre dão continuidade ao trabalho e à luta do homem que conquistou o apoio do Congresso Americano e de bancos importantes, como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento).
Isso tudo é feito por meio da Fundação Chico Mendes, do Projeto Seringueiro que alfabetiza os povos da floresta, e das Cooperativas das Reservas Extrativistas, que garantem o sustento de milhares de famílias. Por meio do Comitê Chico Mendes, eles pressionam autoridades da Segurança Pública e da Justiça do estado para que o caso Chico Mendes permaneça aberto e para que suspeitos como Jardeir Pereira,acusado de co-autoria do crime, seja condenado.
Através de uma série de reportagens ganhadoras do Prêmio Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Reportagem, Ventura mostra de forma brilhante que apesar dos confrontos e das ameaças de morte, a luta de Chico Mendes não foi em vão. Como o jornalista e autor bem diz, o líder permanece vivo em cada seringueiro.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.