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03/08/2012 - 17h02 - Atualizado em 24/05/2013 - 15h21

O rei do lixo

Gabriela Frones, Jéssica Miwa, Júlia Mello de Resende - 1º ano de jornalismo Débora Pinho - 3º ano de jornalismo

Sergio Longo teve uma história de vida cruel, mas encontrou na reciclagem a oportunidade de reescrevê-la

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Sergio acordou assustado ao perceber que estava sendo chutado. Abriu os olhos e viu rostos estranhos, pensou que estivesse sonhando. Remotamente, conseguiu captar uma voz se sobressaindo ao caos. “Por que você não vai dormir na sua casa?”, perguntaram. A única resposta que tinha era uma frase que ecoava há algum tempo em sua mente: “Eu não tenho casa”.

 

Hoje, com 37 anos e casado, ele é o presidente de uma das maiores cooperativas de reciclagem de São Paulo, a Coopere Centro, situada no bairro Armênia. Sergio comanda 100 funcionários, a maioria ex-moradores de rua. “Para uma pessoa se recuperar, sair da rua e das drogas, não adianta só dar tratamento psicológico e dinheiro. Ela tem que trabalhar também”, declara Sergio.

 

A trajetória sinuosa

 

Nascido em 1975, em Itapira, no interior de São Paulo, Sergio Luis Longo traçou uma jornada difícil. Passou a adolescência em Mogi Guaçu, onde teve o seu primeiro contato com a cocaína e, em seguida, com o crack. Aos 13 anos, tornou-se dependente químico. Em decorrência disso, começou a ter problemas com sua família. Passou por muitas casas de parentes: avós, tios e tias, mas nunca se adaptou. Era agressivo, temperamental e não conseguia controlar o vício.

 

De toda a sua família, a última pessoa que tentou ajudá-lo foi sua irmã, com quem morou em Santo Antônio de Posse. Mas mesmo que ela tentasse protegê-lo, não conseguia. Na situação em que estava, nem ele mesmo poderia resolver tantos problemas. A última casa em que morou foi a de um traficante, na mesma cidade de sua irmã, mas o seu gênio forte não permitiu, novamente, a sua permanência. “Minha irmã tentava me ajudar, mas quando ela viu que não conseguiria, me colocou numa fazenda no meio do nada. Foi aí que eu percebi que estava sozinho”, narra Sergio. “Nunca dava certo, porque sempre tentavam me matar. Fui morar nas ruas da cidade, mas todos ficavam me olhando com o ‘rabo dos olhos’. Passava tanta vergonha que resolvi sumir do mapa.”

 

Aos 20 anos, sem ter mais para onde ir, foi tentar a sorte nas ruas. A única pessoa com quem poderia contar, a avó, já estava idosa e impossibilitada de lidar com as crises de Sergio. Era ela quem necessitava de cuidados e Sergio não poderia oferecer esse apoio, por mais que quisesse. Dormia em túneis, pontes, casas desertas e cemitérios. Ali, longe daquele passado atordoante, se deliciava com a ideia de liberdade que a rua lhe permitia ter. Sem dever nada a ninguém, dono de si mesmo, Sergio se entregou ao mundo das drogas.

 

Durante muito tempo viveu com vergonha e humilhação: além da mendicância, em suas constantes peregrinações, encontrava conhecidos de infância e via que eles tinham casa, emprego, família. Sergio pensava que, talvez, esse pudesse ter sido o seu destino. “Dormia no banco da praça em frente à escola onde estudei quando era pequeno. As pessoas que estudaram comigo passavam e indagavam: ‘Justo você, que era o cara que parecia que mais daria certo?’ Eu não tinha mais escolha. Quando olhava pra trás, via que mais ninguém poderia me ajudar. Esqueci de tudo e de todos, virei bicho, achei que ia morrer debaixo de uma ponte”, conta.

 

O rei das ruas

 

A rua era sua casa, ali sabia sobreviver. “Quando estava na rua, achava que era o rei”, revela Longo. Nunca roubou, mas tinha muita habilidade para pedir dinheiro. Qualquer pessoa lhe dava esmola, porque inventava histórias para sensibilizá-las. “Tinha velhinha que chorava me dando dinheiro, só não dava quem não tinha”, relembra.

 

Muitas vezes, Sergio passou por momentos de sufoco devido a esta habilidade. Quando chegava a uma nova cidade, os pedintes que nela estavam percebiam que ele conseguia muito mais dinheiro, e, por isso, era ameaçado, coagido e expulso diversas vezes de diferentes cidades. “Eu dizia que tinha vida de gato. Já escapei mais de nove vezes, e uma delas foi por ser melhor que os outros”.

 

Longo descreve que, certa vez, estava mendigando em uma nova cidade e os moradores de ruas locais ? que sempre tinham um líder ? o abordaram dizendo que para ficar ali, teria que entregar parte do dinheiro que conseguiria.  Prontamente concordou. Porém, à noite, ao arrecadar mais dinheiro que os outros, estava tão alucinado pelas drogas que se esqueceu do acordo.

 

A única coisa da qual se lembra é de acordar no meio de uma mata e estar diante dos mendigos da noite anterior. Eles o agrediam furiosamente. Seu raciocínio estava muito lento por causa do excessivo uso de drogas. Longo só acordou de fato quando, em meio à confusão, ouviu a ordem de um deles para matá-lo. Mas o líder do bando não permitiu a execução por medo de ser descoberto pela polícia. Ao tentar dialogar, Sergio descobriu que o motivo de todo o ódio era porque devia um real. Ele garantiu o pagamento, foi libertado e em minutos conseguiu a quantia necessária para quitar a dívida. Após isso, Sergio, mais uma vez, mudaria de cidade, indo para Ribeirão Pires.

 

Uma nova história: a reabilitação

 

Durante a jornada de 17 anos nas ruas, Sergio passou por sete casas de recuperação e um hospício. Ele não sabia o que era gentileza, e só conversava com as pessoas se recebesse algum trocado por isso. A convivência e paciência do diretor da última casa de recuperação pela qual passou o ajudaram a controlar sua constante ira. Sentia raiva de tudo, até dos abraços que recebia das pessoas da igreja. “Ele me obrigou a ser gentil. Antes eu ficava escondido para não ter que falar com ninguém e ele me mandava abrir o portão e receber os convidados. Eu tinha dificuldade em receber abraços”. A confiança e amizade nunca encontradas na rua o fizeram resistente ao abrigo que lhe era concedido nessas casas. Francisco foi um dos expoentes na recuperação de Sergio. Como coordenador, ele era de quem Longo sentia mais raiva e, em contrapartida, quem mais confiava em seu potencial de recuperação.

 

Entretanto, conforme os dias passavam, Sergio começou a receber um “tipo de iluminação”, nas palavras dele, uma paz interior que o fazia ignorar os problemas em volta e se concentrar em sua melhora. “Eu achava que todos me odiavam, até ser eleito o coordenador da casa de recuperação. Naquele dia eu senti uma mudança inexplicável dentro de mim. Depois que ele me deu essa oportunidade, eu deslanchei.”

 

O rei voltou

 

Quando saiu da clínica, acreditando que havia se recuperado, voltou para Itapira, sua cidade, para mostrar a todos que “o rei havia voltado”, nas palavras do presidente da Coopere. Logo viu que a convivência com os antigos amigos não daria certo. Resolveu tentar a sorte em São Paulo.

 

Durante o redirecionamento de sua vida, percebeu que, talvez, a boa vontade não seria o suficiente. Cedo ou tarde acabaria retornando para as ruas. O desejo de voltar às drogas, somado à falta de oportunidade de emprego, fez com que seu desespero aumentasse: “Não tinha documento, experiência e habilidade em nada. Depois de uma semana procurando trabalho, percebi que ia voltar ao crack. Passadas duas semanas, eu já olhava pros lugares pensando onde eu poderia dormir. Entrei em pânico”.

 

Enquanto esperava conseguir dinheiro suficiente para comprar passagens para alguma cidade sem cracolândia, Sergio trabalhou em uma cooperativa de reciclagem, a Corpel. Todas as tardes, após o trabalho, ele pedia a uma irmã de caridade por uma passagem para ir embora da cidade. “Ela perguntava para onde eu queria ir, com um mapa na mão. De cidade a cidade eu recusei, porque já tinha passado pela maioria ou sabia que tinha ponto de droga”, lembra Sergio.

 

Eles fizeram um acordo: todos os dias ela lhe daria três reais e um lanche. Ao fim de uma semana teria dinheiro suficiente para uma passagem. Porém, “ela sempre falava que me daria no dia seguinte e não dava. Assim, fui sentindo amor na reciclagem, vendo que as pessoas eram iguais a mim.” Longo se acostumou com a rotina. Mais que isso, se apaixonou pelo ofício da reciclagem. O morador de rua não acreditava mais na vida, mas o trabalho com o lixo transformou a sua percepção do mundo. “A reciclagem te faz parte desse planeta. Faz você acreditar no mundo de novo”, reflete Longo.

 

Sergio não imaginava, mas, o cargo de coordenador na Coopere, seria o divisor de águas em sua vida. “Eu nunca mais fui o mesmo. Nunca mais ninguém conseguiu ganhar de mim e eu nunca mais consegui perder para ninguém. Também nunca me senti menos do que sou”, explica.

 

Somente nesse momento ele percebeu há quanto tempo não erguia a cabeça ? sequer para olhar o céu. “Eu fiquei 15 anos sem ver as estrelas”, conta Sergio emocionado. O trabalho com a reciclagem mudou até a maneira com que tratava as pessoas. “O lixo me tornou educado”, assume.

 

O ex-morador de rua percebeu que não era apenas um lixeiro, que seu trabalho ajudava a transformar o mundo. “Eu descobri que era melhor do que um médico”, afirma ele com empolgação. Sergio não tem ambição de enriquecer, mas, sim, de continuar tendo uma vida digna. Com uma casa simples para morar, tendo o que vestir e comer. Sonhos, ele aprendeu a ter: quer construir, com seriedade, uma grande casa de recuperação para dependentes químicos.

 

Vidas recicladas

 

Após ter permanecido quase toda a juventude à margem da sociedade, Sergio, hoje, se dedica também a ajudar moradores de rua e das cracolândias. Entre estes está Julierme Sales Gomes, 35 anos, um ex-transformista. “Antes as pessoas me amavam pelo o que eu tinha, pelo dinheiro e glamour. Aqui não, aqui eles me amam pelo Sales, não pelos meus strass e paetês”, conta Gomes.

 

Há dois meses, Gomes conheceu a Coopere. “Passei aqui e eles me acolheram com muito amor. Logo comecei a trabalhar”, conta. Recém-chegado da Itália ? onde morou por quatro anos no luxo fazendo shows como transformista ?, a primeira impressão que teve sobre Sergio foi a de ser um homem rígido. E por mais controverso que possa parecer, ele acredita que essa característica do coordenador lhe está “fazendo bem”. “Eu o admiro porque é sincero. Estou aprendendo com ele. Antes eu era o tal, o único, e não aceitava ser corrigido. Quem ama, disciplina. E eu não sabia disso”, comenta Julierme.

 

Assim como Sergio e Sales, Olinda Pedro da Silva, 66 anos, encontrou na reciclagem uma oportunidade de transformar a própria história. Ela trabalhou das mais variadas formas para criar sozinha os dois filhos: vendeu cafezinho, foi cabeleireira, manicure e diarista. Mas num determinado momento se viu desempregada e desamparada. “Eu não era moradora de rua, era uma cidadã que perdeu tudo e tinha filhos para criar”, conta.

 

Na Coopere Centro há oito anos, seis como coordenadora-secretária, Olinda dá palestras em diversos locais, inclusive em órgãos públicos, como a Câmara Municipal. Ela diz que o material reciclado salvou a sua vida. “Assim como o Sergio costuma dizer, aqui nós reciclamos vidas. Reciclamos a vida dele, a minha e de várias pessoas”, garante ela.

 

“Eu cheguei aqui e só vi aquele monte de lixo. Não sabia que lixo dava dinheiro”, relata. Aos 66 anos, Olinda deseja realizar muitos sonhos, como terminar o Ensino Médio e cursar faculdade de Gestão Ambiental. “Tenho um projeto: quero fazer sabão para aumentar a renda do pessoal”. Se não der certo, já que os utensílios são caros, ela pretende sair da cooperativa e se manter como palestrante.

 

O melhor que poderia ser

 

Quando Olinda chegou à Coopere, Sergio já estava lá. “Ele é uma pessoa batalhadora. Não tem interesse em nada para si próprio, não quer guardar nada. Quer ajudar. Tudo o que tem, ele dá”, revela. Ela conta que Sergio só anota o horário que chega à cooperativa, nunca o de saída, já que trabalha muito além do horário que, de fato, seria o seu dever.

 

Trabalhando juntos há oito anos, eles criaram um ambiente agradável na cooperativa. Colaborando um com o outro, fazem a Coopere se destacar. Dão palestras juntos e programam atividades para enriquecer o dia a dia dos cooperados. “Eu brinco falando que quero ficar rica. Ele não. Fala que é rico de amor, de querer cuidar das pessoas, não de dinheiro”, sintetiza Olinda. Com humildade, Sergio confessa: “Eu não falo que sou melhor que os outros. Sou o melhor que posso ser”.