Viagens no tempo são traiçoeiras, mas Homens de Preto III consegue utilizá-las muito bem no novo e surpreendente filme da franquia
Brincar com o tempo é uma coisa muito difícil de fazer, tanto na realidade quanto na ficção. Henrique VIII disse uma vez que o tempo é o único bem impossível de ser recuperado, e Cazuza já explicou, como todos nós sabemos, que o tempo não para. Nenhuma dessas afirmações parece ser um problema para Will Smith e Tommy Lee Jones, em seu retorno à franquia MIB, em Homens de Preto III (Men In Black III, EUA, 2012).
Para impedir que um alienígena recém-fugitivo de um presídio mate seu parceiro na década de 60, J (Smith) precisa voltar no tempo e encontrar um K mais jovem (interpretado por Josh Brolin) convencê-lo de que é seu parceiro no futuro, e se unir a um alienígena simpaticíssimo chamado Griffin (interpretado pelo maravilhoso Michael Stuhlbarg) e deter Boris, o Animal - ou simplesmente Boris como ele mesmo prefere -, que pretende criar uma invasão em larga escala ao planeta Terra.
Os primeiros quinze minutos de Homens de Preto III são pouco encorajadores, o que é uma pena, pois são os únicos minutos em que aparece Tommy Lee Jones, numa sensação de “perderam o melhor da festa”. Há excesso de ação, pancadaria e orçamento e falta de imaginação. Mas conforme a trajetória dos dois heróis mais divertidos da ficção científica contemporânea progride, a coisa melhora.
Especialmente quando J finalmente viaja no tempo e encontra seu parceiro no passado. Brolin, numa atuação impressionante, não tenta apenas imitar seu conterrâneo, Tommy Lee Jones, mas descobrir novas características num personagem que não era inicialmente dele. Sua interação com Smith é outro ponto alto, mas a melhor coisa do filme é Griffin, um indivíduo capaz de enxergar diversas linhas temporais ao mesmo tempo e que auxilia J e K em sua missão.
Emma Thompson, fazendo o papel da nova comandante da MIB (substituindo o personagem de Z, que faleceu) aparece muito pouco para criar uma impressão duradoura, mas ela é sempre perfeita. Assim como Tommy Lee Jones, fazendo K, que agora possui características emocionais mais desenvolvidas e uma certa melancolia que transcende sua aparência controlada.
Homens de Preto III é mais voltado para a ação do que para a comédia, primeiro elemento que o diferencia dos outros dois. Os efeitos especiais melhoraram consideravelmente. Afinal, já faz dez anos desde o sucesso do segundo filme, em 2002. A trilha sonora de Danny Elfman acompanhou a jornada de sua época e agora tem mais toques eletrônicos, ao mesmo tempo em que é mais rápida que suas antecessoras.
A obra, que também marca o retorno do diretor Barry Sonnenfeld ao cinema depois de seis anos, é muito diferente de suas duas predecessoras. Isso não é ruim. Além da proeminência da ação, ela também levanta questões sobre integração racial e tem um belo final, que aprofunda a relação entre J e K de uma maneira inusitada. Uma surpresa mais que bem vinda, de fato, num ano em que a ficção científica esbanja efeitos especiais com pouca inteligência, como o Prometheus de Ridley Scott. Mas ao contrário do que se poderia esperar, Homens de Preto III não apenas é uma das mais agradáveis surpresas do ano, como um daqueles filmes que – se lhe for dada justiça – resistirá ao teste do tempo.