Eliane Brum consegue transformar histórias comuns em enredos interessantes
A vida que ninguém vê é uma compilação das crônicas-reportagens escritas por Eliane Brum para o jornal gaúcho Zero Hora. Publicadas durante o ano de 1999, aos sábados, foram 46 matérias que, para o livro, reduziram-se a apenas 23. Editada em 2006, a obra reuniu histórias da coluna homônima e teve a divisão feita em duas partes: a primeira conta com 21 narrativas e a segunda com duas, revelando o desenrolar da vida de dois dos personagens presentes na primeira parte.
A autora observa e descreve o que passa despercebido por nós no dia-a-dia. Ao explorar os fatos sob uma perspectiva diferente torna visível o extraordinário presente no ordinário. Através dessa estratégia revela situações e vidas como a de Antonio, que enterrou o filho (na primeira parte) e a mulher (na segunda) por consequência de erros médicos; Seu Vico, que há 30 anos pede dinheiro na região central de Porto Alegre; Maria, alfabetizada aos 55 anos; e David, que faz comerciais como “vovô bonzinho” quando na verdade carrega as feridas do holocausto no corpo e na alma.
Conforme as histórias vão se desenvolvendo, Eliane critica o sistema público de saúde e tenta conscientizar a sociedade dos problemas existentes e convencionalmente ignorados. Para tanto, faz uso constante da emoção, ocasionalmente trazendo algumas lágrimas aos olhos do leitor. Ao mesmo tempo em que mostra a complexidade e a simplicidade das pessoas coloca-as no mesmo patamar e explicita o lixo, os olhares e as jaulas presentes na vida de todo homem.
Enquanto no prefácio o ex-diretor de redação do jornal Zero Hora, Marcelo Rech, conta como na época incumbiu Eliane de tal tarefa, no posfácio, o jornalista Ricardo Kotscho traça um perfil da autora. Conta histórias de sua vida como a gravidez na adolescência, a relação com a família, a faculdade e os empregos, sempre destacando o gosto pela leitura e o modo como inova e foge dos lugares-comuns. E justamente essa acaba por ser a “fórmula” do que um dia foi uma coluna no jornal: apurar os sentidos, escrever não o que já está certo, mas desconfiar. Acima de tudo ousar.
O livro traz uma verdadeira lição para jornalistas experientes ou iniciantes: procure inovar, reveja as possibilidades e fuja do que já está estabelecido, mergulhe nas fontes. “Se o telefone e a internet são invenções geniais, não há tecnologia capaz de tornar obsoleto o encontro entre um repórter e seu personagem”, afirma Eliane no capítulo de encerramento intitulado “Sobre a melhor profissão do mundo – O olhar insubordinado”.