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14/12/2011 - 21h50 - Atualizado em 18/06/2013 - 11h33

Sociedade “pós-sushi”

Gabriela Sá Pessoa e Tiago Mota, 2º ano de Jornalismo

O filósofo Vladmir Safatle conta sobe sua trajetória, a vida marcada pela ditadura militar e classifica sua própria geração como “uma catástrofe”

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“O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros, me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem tem nada a ver com ele”. A citação é de Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (Paz e Terra, 2008). Com inquietação similar, no dia 26 de outubro de 2011, Vladimir Pinheiro Safatle, de 38 anos, leciona para os jovens do movimento Ocupa Sampa, acampados no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, desde o dia 15 do mesmo mês. “O pensamento, quando usa sua força crítica, questiona os problemas, os pressupostos, as respostas”, discursou. 

Safatle, em 2002, concluiu seu doutorado em Filosofia na Université de Paris VIII, na França. Anos depois, em 2009, se tornaria livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP) – instituição na qual leciona desde 2003. Além disso, o filósofo é colunista fixo do jornal Folha de S.Paulo, onde escreve às terças-feiras, e da revista Cult.

No Anhangabaú, falando a centenas de manifestantes, o professor soa eloquente. Segurando o microfone com a mão esquerda, ele inclina-se ligeiramente para frente, enquanto, empolgado, gesticula com a direita. No entanto, em sua sala no departamento de Filosofia da USP, revela-se um sujeito reservado. Enquanto conversa, em tom de voz baixo, senta na cadeira, com o tronco inclinado para trás e os olhos direcionados ao chão.

Logo no começo da conversa, ele avisa: “tenho pouco tempo, pois preciso terminar de escrever minha aula de hoje à noite”. Ele conta que não há uma aula que ministre sem tê-la escrito antes. O intuito é formar um arquivo, “um grande rascunho”, para depois reler e aprofundar os temas. A única exceção foi a aula dada ao Ocupa Sampa. “Mas isto é muito raro”, ressalta.

Tiago Mota

De Pinochet a Geisel

Vladimir Safatle nasceu no Chile, em 1973. Com poucos meses de vida, ele e a família se mudaram para o Brasil, em virtude da ditadura militar de Augusto Pinochet, que se instalou no país naquele ano. “Minha família estava lá para ajudar na construção do socialismo chileno”, lembra o filósofo. “Então, quando houve o golpe, todos foram perseguidos”. 

Naquela época, a família tinha duas opções: ou “pulava o muro de alguma embaixada” e se refugiava em algum país, ou voltava para o Brasil. “Meu pai não quis ter vida de exilado, então ele voltou e se instalou em Brasília. Minha mãe e meu avô são de lá”, explica. A mudança da ditadura chilena para a brasileira, para o casal Safatle, representou uma “eterna sensação de isolamento. Meus pais são ex-guerrilheiros, participaram da luta armada pela ALN [Aliança Libertadora Nacional]”. 

O filósofo conta que não “sabia muito” sobre a ditadura, porque a família evitava falar sobre o assunto. “Nossa casa vivia cheia de pessoas que tinham sido perseguidos políticos, gente que tinha circulado e voltou”, revela. “Então, sabíamos que não fazia parte da normalidade do país, as opiniões não podiam ser faladas em voz alta – ainda mais morando em Brasília”. Safatle conta que só foi conhecer, de fato, os detalhes do cotidiano de sua família naquele período quando “passou dos 20 anos”.

Fernando Safatle, pai de Vladimir, foi engajado, um radical de esquerda. A mãe, Ilneide Tavares Pinheiro, era de religião protestante – “duas pessoas praticamente antagônicas”.  Em 1987, Fernando assumiu um cargo de secretário do planejamento no governo de Goiás, graças ao processo de abertura política durante o governo Geisel. 

O novo emprego fez com que a família se mudasse para Goiânia. Porém, o então adolescente Vladimir Safatle ficou por lá somente até os seus 16 anos: “Foi um período complicado, para todo adolescente é meio confuso”, recorda. “Ainda mais porque meus pais tinham acabado de se separar, então achei que era um bom momento para ir embora de casa”. Ele voltou para Brasília, onde morou com alguns amigos até 1991, quando foi a São Paulo começar os estudos universitários.

Muito prazer, Heigel

Safatle cursou duas graduações ao mesmo tempo. De manhã, assistia às aulas de Filosofia na USP e, à tarde, de publicidade na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Fiz Comunicação para encobrir o fato de eu fazer Filosofia”, revela. “Não contei para ninguém da minha família, eles só foram saber quando eu tinha me formado”.

Os pais do filósofo – e comunicador – “entraram em pânico” quando ele disse pretender prestar vestibular para Filosofia. “É uma família de imigrantes, com toda essa paranoia de eu ser sustentado o resto da vida”, justifica Vladimir.
Ele conta que o pai só foi descobrir mesmo que o filho havia se formado em Filosofia quando o curso acabou. “Minha mãe descobriu antes. Ela sempre teve menos ilusões sobre os filhos”, lembra o filósofo. “Quando ela viu meu nome na lista dos aprovados, eu recebi como prêmio um tapa”.

Mesmo iniciando o curso de maneira conflituosa com os pais, a Filosofia ajudou Safatle a refletir sobre suas questões familiares. Para ele, o curso sobre Hegel, ministrado pelo professor Paulo Arantes na metade da graduação, “foi uma verdadeira descoberta. Aquilo me mostrou que eu realmente gostava de Filosofia e que eu queria continuar, ter uma carreira”. 

Um dos motivos para isso ter acontecido é porque “Hegel resolveu dois problemas” do filósofo. O fato de o pai ser comunista e a mãe protestante foi uma “cisão muito forte” na família Safatle. “E Hegel era protestante e, ao mesmo tempo, era a base do marxismo. Então resolvia dois problemas”, conta.

Entre conceitos e tons

Vladimir considera a relação entre teorias e vida

Tiago Mota

particular fundamental à construção do conhecimento. “Você só consegue trabalhar as questões que é capaz de sentir de verdade”, acredita. Assim, os temas a que se dedica, como “a articulação entre psicologia, psicanálise, filosofia e filosofia da música”, dizem muito sobre o gosto pessoal e a trajetória do filósofo.

“A filosofia é muito parecida com a composição. Pelo menos na minha cabeça sempre foi”, conta Vladimir, que toca piano desde os seis anos. “Fiz trilhas sonoras para algumas peças durante um tempo e cheguei a fazer recitais na Fundação Nacional de Artes (Funarte) e no Museu Brasileiro da Escultura (Mube). O último concerto que dei foi em 2008, eu acho, no Centro Cultural Maria Antônia”.
Na adolescência, quando ainda morava em Goiânia, ele teve uma banda de rock, da qual era tecladista. O conjunto não era politicamente engajado, mas, ainda assim, “resolveu os problemas” de Vladimir. “É uma coisa que recomendo, que todo adolescente precisa fazer na vida. Você teatraliza um pouco sua vida em um momento complicado – rico e turbulento como toda fase de transição”, diz.

Nova fase

O próprio Vladimir diz não ter sido politicamente engajado na juventude. Por dois motivos: “primeiro, porque meu pai era muito. Eu ficava muito mais ajudando ele a fazer campanhas do que qualquer outra coisa”, explica. “Segundo, porque eu sempre tive problemas com organizações. Nunca consegui me adaptar bem a organizações onde se deve submeter um tipo de pensamento crítico a um pensamento estratégico. Do tipo: ‘bem, estamos aqui em um partido. Estes são os nossos objetivos, então feche os olhos para certas coisas em prol do nosso programa’”.

Hoje, o filósofo avalia que esse posicionamento foi positivo para que ele desenvolvesse opiniões e comportamentos equilibrados. Ele diz não ter “contas a acertar com alguma besteira” que fez na juventude, ao contrário de algumas pessoas de sua geração. “O que aconteceu com muita gente que teve uma militância forte na juventude é que, quando chegaram aos 40, depois de se envolverem tanto, penderam para o outro lado. Tornaram-se radicais de direita”.
No entanto, o fato de Vladimir adotar uma “terceira via” ideológica não significa que ele ignore as questões políticas atuais. Pelo contrário: o filósofo defende uma situação “mais flexível”, de construção permanente da democracia. Para ele, é possível “criar estruturas de conjuntos de grupos transpartidários, que se reúnem em defesa ou contra uma causa. Acredito numa democracia mais direta”.
Foi isso que ele defendeu no Ocupa Sampa (veja página 32), movimento cujos participantes, “jovens de vinte e poucos anos”, ele admira. “Quando vejo esta geração, percebo que são muito mais conscientes. Eles não têm medo de expor seu descontentamento”.

Quanto à própria geração, o filósofo é categórico: “foi uma catástrofe”. Ele conta que, quando tinha 18 anos (no início dos anos 1990, pós-queda do muro de Berlim), acreditava-se que o mundo não tinha fronteiras, “como se todos pudessem se juntar em uma grande rave. A juventude daquela época tinha que ser criativa, trabalhar com publicidade e admirar estrategistas do marketing. Steve Jobs era seu grande líder revolucionário”. 

Safatle acredita que a juventude de sua época, impressionada com a globalização, “se deleitava em comer sushi” e, hoje, aos 40 anos, investe na Bolívia sem ao menos saber onde está o país no globo. “E o que a gente colocou na balança? Nada! Foi a geração que quebrou o mundo”, reflete a respeito da atual crise econômica mundial. 

Se o Safatle gosta de sushi? Mais ou menos. “Até que gosto. É interessante como esses pequenos símbolos dizem muito sobre o que é uma época”, diz. “Eu gosto de churrasco, eu sou um homem do povo”.