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14/12/2011 - 19h00 - Atualizado em 21/05/2013 - 12h12

Caminho de pedra

Gabriela Corrêa, Luiz Guilherme Silva, Marcella Lourenzetto e Nilo Vieira (1º ano de Jornalismo); Ana Carolina Neira, Giulia Afiune, Danillo Oliveira e Helder Ferreira (2º ano de Jornalismo)

A situação da Cracolândia contada por ex-usuários de crack, moradores da região e organizações envolvidas na sua revitalização

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A região da Luz, no Centro de São Paulo, costuma ser lembrada pelo alto consumo e venda de drogas. Estima-se que atualmente 2.000 usuários frequentam o local. Conhecida como Cracolândia, a região também abriga pontos turísticos, como a Pinacoteca do Estado, o Museu da Língua Portuguesa e a Sala São Paulo. Adentrar neste mundo é arriscado, como estar em território livre e sem lei, onde até mesmo as autoridades encontram dificuldades para trabalhar. Alguns vivem por ali, outros chegam apenas para comprar, fumar e sair. “O que tem aí fora é um mundo que vocês não imaginam, é um submundo”, afirma Luiz Gomes, pastor da ONG IBS Reviver.

Guilherme Burgos

Uma noite na Cracolândia

Largo Coração de Jesus, bairro de Campos Elíseos. Sexta-feira, 20h. A Alameda Dino Bueno e suas ruas adjacentes estão repletas de pessoas que se aglomeram nas esquinas, calçadas e até mesmo no meio da via. Ouvem-se risadas, gritos, diálogos e falas desconexas. O movimento é intenso e a cena até se assemelha a uma festa de rua. A atração principal é o consumo de crack. 

A pé ou de carro, é complicado transitar. O público é composto, em sua maioria, por moradores de rua. Grande parte deles vive ali mesmo, dentro de dormitórios improvisados – que vão de um prédio invadido, conhecido como “O Buraco”, a colchonetes e pedaços de papelão espalhados pelo chão.

Pessoas misturam-se e consomem juntos cachimbos de crack. Há confusões, pequenos atritos e até mesmo uma mulher ferida, com a testa sangrando. As vendas acontecem aos olhos de todos, com preços que vão de R$2,00 a R$10,00, em média, dependendo da quantidade.

Na mesma rua, quinze pessoas se reúnem num pequeno apartamento de dois andares. São missionários da Igreja Apostólica Batista Philadélfia Portas Abertas, que por meio da ONG IBS Reviver fazem um mutirão de evangelização semanal no lugar. Em círculo, fazem uma oração, vestem seus coletes – que os identificam perante os usuários de droga e a polícia – e partem, com violão e  Bíblia nas mãos. “Hoje vamos orar, ajudar esses irmãos”, é o que diz um dos rapazes presentes na entrada do apartamento.

Percorrendo as ruas paralelas ao Largo, entregam panfletos com palavras de apoio religioso para aqueles que aceitam. O respeito impressiona: em nenhum momento os missionários são maltratados ou agredidos. Por realizarem este tipo de trabalho há longo tempo, eles são conhecidos entre os dependentes químicos, chegando até a serem calorosamente recebidos por alguns. “Meu amigo!”, diz um usuário ao avistar um dos integrantes da ONG.

A IBS Reviver existe há cinco anos e surgiu dentro da Igreja Batista. “No começo eram apenas três pessoas andando pelas ruas. Achavam que éramos loucos por ficar ali na chuva, tocando violão, orando e ajudando”, diz seu Luiz Gomes, o Luizão, um dos líderes do grupo. Para aqueles que aceitam socorro, a ONG disponibiliza tratamento em um sítio localizado em Caucaia do Alto, interior de São Paulo. Quem vai para lá passa nove meses no processo de desintoxicação e adaptação a uma nova rotina. Após esse tempo, a pessoa fica na república mantida pela ONG, dentro da própria sede localizada no Centro de São Paulo, em plena Cracolândia. Nesse tempo há todo o apoio: tratamento médico, ajuda para procurar um novo emprego, providência de novos documentos, cursos profissionalizantes e oficinas artesanais, além do contato com os familiares, na medida do possível. Tudo gratuito e fonte de doações. Os profissionais que dão assistência também trabalham de maneira voluntária.

“A família costuma desconfiar, mesmo quando a pessoa já está recuperada. É difícil conquistar a confiança deles outra vez. Às vezes é rápido, às vezes não. A família também precisa de apoio”, afirma Luiz. Concluídas estas etapas, após garantias de sua capacidade de viver por conta própria e se sustentar, os pacientes são liberados do tratamento. A ONG, no entanto, continua acompanhando de perto a vida do ex-viciado , tendo em vista a alta possibilidade de retorno às drogas. Contudo, ele tem o direito de interromper o tratamento quando quiser.
Usuário de crack durante 20 anos, Luizão foi resgatado da Cracolândia há 14.  Hoje é um dos protagonistas da causa da IBS. Sua história se aproxima do passado de muitos usuários. Abandonando a esposa e uma filha de apenas 3 anos na época, deixou-se levar pelo vício. “Do baile veio o cigarro, depois a bebida e, então, as drogas. Fui da maconha ao crack. Um mal puxa outro mal, vira uma bola de neve”, opina. 

Sair dessa, obviamente, também não é fácil. “Eu tive que ficar doente, ver amigos morrendo, a saúde piorando. Eu tive cirrose hepática, leucemia. Quando cheguei ao hospital disseram que eu estava morto. Só então eu fui resgatado, quando um pessoal cristão me deixou na porta de uma igreja de madrugada e me disseram: ‘fique aí, porque aí é o seu lugar’. De lá pra cá, me ajudaram e eu me curei. É por isso que eu me esforço para ajudar esse pessoal. Eu acredito”. Os nove meses de tratamento de desintoxicação se transformaram em seis anos. O próprio Luiz decidiu prolongar esse tempo, em busca de entender melhor o mundo pelo qual havia passado e a força espiritual que o salvou. Um caso raro, ele sequer teve recaídas, apenas crises de abstinência. De volta ao lar, hoje ainda está casado com a mesma mulher que abandonou no passado e com orgulho da filha já crescida. “Por causa do crack, eu não pude ver minha filha crescer”, diz.

Caminhando pela Alameda Dino Bueno encontramos Seu Gerardo Soares. Ele parecia perturbado pela situação que via ali. Sentado na calçada com poucas peças de roupas e seus documentos, afirmava ser motorista de caminhão e não sabia explicar muito bem como havia chegado a Cracolândia, há três dias. Não parecia estar sob o efeito de drogas e pedia apenas uma coisa: voltar para Campinas, sua cidade natal. “Eu quero ir pra lá, minha família está lá, eu não aguento mais ficar aqui”, era o que o homem repetia o tempo todo. Seu Luiz Gomes foi ao seu encontro e após conversar com ele por alguns instantes, propôs que Gerardo fosse levado até a rodoviária e colocado dentro de um ônibus em direção a cidade do interior paulista. Com a ajuda de voluntários da ONG, ele embarcou na mesma noite ao encontro de seus familiares. 

Na mesma rua também há um cortiço. Janaína da Conceição, 27 anos, é moradora do lugar e estava com as duas filhas na calçada esperando o marido, que retornava do trabalho. “Eu moro aqui há uns 2 anos e sempre foi assim aqui, essa gente toda se drogando, dia e noite. Mas eles respeitam, não mexem com a gente. Quando as crianças passam na rua, eles até avisam uns aos outros que tem criança no lugar. Mas mesmo assim, não tenho como deixá-las livres por aqui, tem que estar sempre de olho”. Quando questionada sobre as dificuldades de morar no local, ela se limita a responder: “não tem outro jeito, né?”.

Enquanto isso, um grupo de policiais fazia uma busca dentro de um antiquário daquela rua, após receberem um chamado de denúncia. O policial militar Camilo, à porta do local, diz: “de qualquer maneira, não adianta prender o traficante se nada além disso é feito na região. É preciso muito mais para melhorar isso aqui”. Há oito anos trabalhando na Cracolândia, ele afirma que a vigilância efetiva é feita pela Guarda Civil Metropolitana, sendo que a Polícia Militar só atua quando recebe algum chamado. “A gente precisa cobrir todas as áreas e ocorrências, aquilo que a Prefeitura considera como prioridade. Não tem como ficar aqui toda noite”.
Um buraco chama a atenção em uma das paredes da Alameda Dino Bueno. Há um túnel ali, que chega até a rua Helvétia. Ninguém da ONG chegou a entrar ali algum dia, um reduto para aqueles que preferem não usar o crack nas ruas e calçadas. Quanto tempo essas pessoas passam ali é um mistério, mas da rua já é possível ver o estado degradante de uns poucos que se encontram mais próximos à saída do lugar. Alguns já saíram dali sem vida.
Às 23h, o grupo da ONG retorna para a sede, satisfeitos com mais um mutirão bem sucedido. E toda sexta-feira é assim: sempre o mesmo ritual, a mesma missão e situações parecidas. Ainda que com muitos projetos para si, a Cracolândia permanece imutável.

Guilherme Burgos
Portas de antigas construções na Cracolândia
carregam pichações contra o uso do crack

Projeto Nova Luz

É justamente essa realidade que o projeto Nova Luz, criado pela prefeitura da cidade de São Paulo, propõe transformar dentro dos próximos 15 anos. Concebido em 2009, suas atividades foram iniciadas somente em junho de 2010 e tem como objetivos  promover a revitalização de seus prédios históricos e todo o espaço público, melhorar a infraestrutura e impulsionar o comércio – em especial, de produtos tecnológicos – presente na região. A iniciativa também compreende a instalação de escolas, creches, parques e unidades de moradia popular.  “A ideia é que a Nova Luz torne-se um espaço que seja ocupado e aproveitado 24 horas por dia, 7 dias por semana”, declara Érica Munhoz, assessora da Coordenadoria Geral de Imprensa.

A questão, no entanto, é um pouco mais complexa quando analisada da maneira prática: segundo a consultora de imóveis Wanda de Britto, da imobiliária Souza & Reis, “o metro quadrado de um imóvel na região central, como República e Santa Ifigênia, custa em média R$ 4 mil. Enquanto em Moema, na zona Sul, o custo gira em torno de R$ 5 mil. Logo, fica difícil não desvalorizar o centro da cidade, visto a quantidade de problemas lá existentes”.

Para o antropólogo Daniel De Lucca, as motivações do projeto Nova Luz vão além das melhorias estéticas: elas também são econômicas e políticas. “A presença dos usuários de droga desvaloriza bastante a região. Por mais que um deles dificilmente vá ferir ou matar alguém, a existência deles é vista como uma ameaça à nossa vida. Portanto, seguindo esta lógica, manter-los longe, é manter-nos seguros”, afirma ele, que acredita que a iniciativa é uma medida de expulsão dos dependentes químicos e que, provavelmente, não será bem sucedida.

Lucas, gerente da loja de calçados Clóvis, afirma que “por causa desses projetos da Prefeitura, acabou aumentando o número de usuários aqui. Eles migraram da região da rua dos Gusmões e vieram para a Luz. O pessoal que consome drogas só foi de um lugar para o outro”.

Paula Ribas mora há 37 anos na Santa Ifigênia e é presidente da AMOALUZ - Associação de Moradores e Amigos da Santa Ifigênia e Luz. Segundo ela, as negociações com a Prefeitura estão em um momento crucial, já que as audiências públicas aconteceram nos dias 28, 29 e 30 de setembro, em São Paulo. “O que nós queremos é incluir demandas sociais no projeto. Tem que haver planos para a saúde pública, mais escolas com atividades para esse povo, se preocupar com as pessoas”. 

O foco da associação são os moradores e comerciantes da região: “Não somos contra esses projetos, muito pelo contrário. Mas queremos a garantia de que quem está aqui não vai precisar sair, de que não vai ter desapropriação. Até agora o projeto é um trator que passa por cima dos mais fracos e se não formos fortes e resistentes, ficamos para trás. É absurdo ter que ouvir que só começaremos a ter melhorias dentro de 15 anos!”, indigna-se.

Guilherme Burgos
"Na redução de danos a gente tem que ouvir o usuário,
entender o que ele quer, chamar ele pra junto", diz Thiago
Calil, um dos líderes do centro de convivência da ONG

É de Lei

A ONG É de Lei existe desde 2001 e surgiu da união entre professores da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e do núcleo de estudos da Universidade de São Paulo (USP) há 12 anos. Desde 2002 eles realizam trabalhos com usuários de crack. Uma das ações mais polêmicas e que chamou a atenção foi a distribuição, sob comando de um projeto piloto do Ministério da Saúde, de cachimbos de madeira àqueles que utilizam a droga. “Na redução de danos a gente tem que ouvir o usuário, entender o que ele quer, chamar ele pra junto”, afirma Thiago Calil, o Thika, psicólogo e um dos líderes do centro de convivência da ONG. No entanto, os cachimbos não foram bem recebidos, já que inviabiliza a raspagem da borra (resina), que é uma parte mais forte do crack que fica acumulada no fundo. “A raspagem é uma cultura de uso, assim como o compartilhamento do cachimbo”, diz Thiago.

O cachimbo usado normalmente é feito de antena de carro, um redutor eletrônico com um plástico em volta. O material superaquece, provocando fissuras e feridas na boca, que viram porta de entrada para uma série de doenças. A ideia do novo projeto era de minimizar esses danos, método já utilizado na França há alguns anos. “Embora não tenha dado certo, foi interessante porque abriu uma porta pra gente, eles entenderam melhor a proposta da redução de danos. Tivemos a ideia de criar uma piteira de silicone e fomos incentivando cada um usar a sua”, lembra Thiago. Além disso, também são distribuídas embalagens com manteiga de cacau, para tratar os ferimentos bucais. Nem todos utilizam os novos métodos, mas o psocólogo confirma que tais medidas já surtem algum efeito.
A polêmica ficou por conta de declarações de Andrea Matarazzo, então secretário das Subprefeituras de São Paulo e um dos idealizadores do projeto de reurbanização do centro da cidade. Ele afirmou que a política de redução de danos é um dos caminhos, mas não como vem sendo feito pela É de Lei, algo que ele classifica como “absurdo”. 

“A galera entende que a gente tá incentivando o consumo, fazendo apologia. Mas, na verdade, o que temos é uma construção junto com o ministério e com os usuários. Tudo o que a gente faz é ligado à secretaria da saúde. A redução de danos não é contra nada, apenas contra a internação compulsória. Nós somos apenas mais uma estratégia de atenção com o usuário. As questões sociais que envolvem o uso trazem muito mais danos do que o uso em si.”

Desde 2008 a Prefeitura vem desenvolvendo um programa voltado exclusivamente ao tratamento dos viciados, com a ajuda de agentes de saúde. Desde então, foram inseridas na região 27 Equipes Especiais de Saúde da Família, que se dedicam apenas ao atendimento de moradores de rua, com o objetivo maior de convencê-los a aderir ao tratamento da dependência. Esses profissionais atuam nas ruas da região central, todos os dias, incluindo feriados e finais de semana, das 10h às 22h. 

‘“Nos últimos dois anos mais de 4 mil pessoas saíram das ruas e foram encaminhadas para tratamento médico. Nesse tempo também foi inaugurado o Serviço de Atenção Integral ao Dependente, que tem capacidade para atender 500 pessoas por ano”, afirma Michele Scarasati, assessora de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde. Além disso, os dependentes químicos também contam com 237 leitos contratados pela Prefeitura em comunidades terapêuticas privadas.