Em "Os Últimos Soldados da Guerra Fria", Fernando Morais volta a escrever sobre um de seus temas preferidos: Cuba e a Revolução

Quando lançou no último mês de agosto o livro-reportagem Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras, 408 páginas), Fernando Morais só fez evidenciar duas características de sua carreira. A primeira, a de que o jornalista nascido na cidade mineira de Mariana em 1946 é um dos maiores escritores brasileiros de grandes reportagens. A segunda: desde que publicou A Ilha, em 1976, nunca deixou de dar atenção a Cuba e sua cinquentenária Revolução.
Após passar pelas maiores redações jornalísticas do país, ser autor de best sellers como Olga e Chatô, o Rei do Brasil e vencer três Prêmios Esso, Morais dispensa apresentações. No entanto, mesmo com tamanho respeito conquistado em sua trajetória jornalística, o escritor não mediu esforços para contar a história de agentes cubanos que foram presos nos Estados Unidos após se infiltrarem em organizações anticastristas de Miami. Ao longo de três anos, Morais teve acesso a documentos secretos de Cuba e do FBI, além de entrevistar os personagens envolvidos nessa anacrônica história de espionagem.
Na entrevista, o jornalista conta sobre as duas obras de sua autoria que tratam de Cuba, além de compartilhar opiniões sobre a delicada realidade que o país vive. Entusiasta da Revolução liderada por Fidel Castro em 1959, Morais não esconde sua posição: “Não sou irrestritamente favorável a tudo o que o governo cubano faz, mas não vou dar arma para o inimigo. Não vou sair falando mal de Cuba para fazer o jogo dos falcões de Washington e muito menos da extrema direita de Miami”.
De maneira geral, quais são as semelhanças e diferenças da Cuba de A Ilha para a de Os Últimos Soldados da Guerra Fria?
Eu voltei várias vezes a Cuba nesse período. Devo ter ido ao país mais ou menos 30 vezes, isso antes de começar a escrever o livro novo. Nunca fui passear, estou me devendo até hoje uma viagem a Cuba com minha filha e minha neta. Ia para lá fazendo atividade política ou como membro do júri do prêmio literário Casa das Américas. Então, na verdade, não houve impacto quando retornei a Cuba para fazer este último livro, nada que me tirasse o fôlego ou que me assustasse. Eu vinha acompanhando as mudanças e vi o país ir para cima, para baixo, para cima, para baixo...
E como surgiu a ideia de escrever sobre os agentes cubanos infiltrados?
Em 1998, estava dentro de um táxi com a minha esposa atual, a Marina. Era um fim de tarde com um trânsito infernal e ouvi um locutor de uma rádio, no meio do noticiário internacional, dizendo que foram presos em Miami dez agentes de inteligência cubana que estavam infiltrados em organizações de extrema direita da Flórida. Uma notícia dada sem muito alarde.
Mas comentei com a Marina que esse fato rendia alguma coisa, não sabia se era uma matéria, um freela ou um livro. Na primeira vez que voltei para Cuba depois daquelas prisões, fui bater na porta de meus amigos e pedi para que liberassem o material secreto. E eles disseram “Pode tirar o cavalo da chuva, isso é informação sensível”. No fundo, acredito que eles estavam protegendo a segurança de alguém que ainda estava nos Estados Unidos e não tinha conseguido escapulir.
Em 2005, portanto sete anos depois das prisões, estava no país para a Bienal do Livro de Havana e fui procurado por um dirigente cubano. Ele disse que o pedido do material havia sido liberado. Mas estava no meio da biografia sobre o Paulo Coelho, já tinha recebido o dinheiro e precisava entregar a mercadoria. E falei para eles “Não posso pegar esse material agora, mas quero que vocês guardem isso para mim”. Eles tinham de jurar que não poderiam entregar aquilo para ninguém. O problema é que era jura de comunista, que não acredita em Deus... Mas eles cumpriram e três anos depois, em 2008, comecei a trabalhar no projeto.
Apesar de o tema ser bastante familiar, qual foi o maior desafio ao escrever Os Últimos Soldados da Guerra Fria?
Na hora de pesquisar tive dificuldades. Primeiro em Cuba, porque embora eles tivessem autorização para liberar todo o material secreto, eu estava atrás de três coisas que eles relutavam em passar. Primeiro, o dossiê que o presidente Fidel Castro tinha feito para o presidente Clinton, com papeis, discos e DVDs contendo informações sobre as organizações cubano-americanas de extrema direita que estavam circulando na Flórida. A segunda era o informe do Gabriel García Márquez, o pombo-correio que mediava a conversa entre Castro e Clinton. E em terceiro lugar, queria entrevistar um dos mercenários que estivessem presos em Cuba por colocar bombas no país.
Nos Estados Unidos também encontrei dificuldades porque os agentes do FBI têm um contrato que não os autoriza tornar público temas que tenham investigado. Além disso, quando pedia entrevistas para a gente da extrema direita, eles digitavam o meu nome no Google e falavam “Ah há! Esse é um comuna!”. Mas jornalistas americanos e correspondentes estrangeiros me ajudaram a quebrar o gelo. O pessoal do FBI também se dispôs a dar alguns offs. Ou seja, eles me diziam “Tal informação que você quer, entra no arquivo tal da Justiça e pega aquela pasta que você vai achar”.
Ao todo foram três anos de trabalho e esse livro tem uma particularidade porque ele é um dos poucos em que fiz tudo sozinho. Em geral, recorro a jovens jornalistas, os pauto para fazer algumas entrevistas. Mas fiz tudo sozinho, um pouco por egoísmo, porque não quis ceder a ninguém o prazer de fazer as entrevistas.
Os agentes infiltrados cubanos infringiram leis americanas. Em Cuba também há espiões americanos presos. Por que essa é uma história especial de ser contada?
Porque nenhum dos agentes cubanos nunca botou as mãos ou botou os olhos em um papel norte-americano. Se eles tivessem sido acusados por espionagem, todos estariam condenados à prisão perpétua. Mas só um foi condenado a essa pena e não era por espionagem: supostamente, e essa é uma acusação falsa, ele avisou que os aviões cubano-americanos iriam viajar no dia 24 de fevereiro, data em que Cuba derrubou duas aeronaves Cessnas. Mas pegue os jornais da Flórida na época: o próprio José Basulto [um dos líderes das organizações anticastristas] anunciou que iria viajar no dia 24 de fevereiro. A Casa Branca sabia do risco e avisou que os aviões poderiam ser derrubados. E quem afirmou que esse julgamento foi injusto não sou eu, mas o ex-presidente americano Jimmy Carter, que esteve em Cuba e disse que houve um erro judiciário na condenação dos cinco agentes.
Você entrevistou Fidel em 1977. Qual é a lembrança de ficar frente a frente com essa personalidade histórica?
Já estive com ele quando fiz A Ilha. O governo cubano tinha dito que o Fidel não falaria comigo e assim acabei entrevistando o vice-presidente, Carlos Rafael Rodríguez. Enquanto o entrevistava noite adentro, ouvi passos, passos de bota. E daí chega o Comandante, dizendo que queria me conhecer, já que eu era o primeiro brasileiro a visitar o país desde o golpe de 1964 e começou a me entrevistar, perguntando o que tinha achado de Cuba, disso, daquilo outro. E na saída, ele assumiu um compromisso comigo, dizendo que não concederia uma entrevista naquela viagem porque as relações entre Brasil e Cuba eram muito ásperas, mas quando esse cenário melhorasse, a primeira entrevista que ele daria a um veículo brasileiro seria para mim.
Dois anos depois, em 1977, estava na Veja e recebi um telex informando que eu havia sido convidado para ir a Cuba. Era no finzinho de abril, conversei com o Guzzo, o diretor da revista, e ele disse “Se manda, vá para lá agora”. Chegando, descobri que não estava em Cuba para entrevistar o Fidel, mas para assistir o desfile do 1º de maio. Já no desfile fui conversar com ele no palanque, disse que se voltasse ao Brasil de mãos abanando estaria desempregado. Fidel chamou o secretário dele e pediu para que nos acertássemos. Fiquei dois meses em Cuba esperando a entrevista e acabei conseguindo. Fui para o Palácio da Revolução nove, dez horas da noite e saí de lá com o dia claro. Depois, fiz outra entrevista pela Playboy brasileira que a norte-americana reproduziu. Mas estive com ele várias vezes informalmente, é uma pessoa interessante, bem-humorada. O Fidel tinha conhecido minha primeira mulher, me divorciei e tempos depois voltei a Cuba com a segunda esposa que é muito alta, magrinha e alta. Apresentei-a para ele e conversamos um pouco. Nos despedimos e logo depois o Darcy Ribeiro foi falar com o Comandante. Tempos depois, o Darcy me disse que Fidel chegou para ele e disse: “Darcy, Fernando se casó com una mujer más grande que el milagro brasileño”.
Os Últimos Soldados da Guerra Fria conta uma história anacrônica...
Claro, é a Guerra Fria, que acabou em 1991 quando o Gorbachev assina o fim da União Soviética. Mas você tem um microcosmo de guerra fria tropical no Caribe que era um negócio absolutamente anacrônico, obsoleto, mas que permanecia até a prisão dos agentes cubanos.
De lá para cá as agressividades caíram bastante por várias razões, entre elas, tudo aquilo que foi denunciado pelos próprios agentes cubanos, mas também pelos órgãos de imprensa norte-americanos, como o The New York Times. Em segundo lugar porque está havendo um problema geracional. Os líderes das organizações são velhinhos, a juventude não quer mais saber de bomba. Eles querem saber de salsa. Há pouco tempo, o cantor Pablo Milanés fez um recital em Miami, que foi aplaudido por 15 mil pessoas. Do lado de fora tinha 5, 10 velhinhos com cartazes dizendo “Comunista!”. Claro, do ponto de vista do pessoal de Miami você entende em parte o ódio a Fidel. Afinal, eles eram donos de usinas, donos de bancos que do dia para a noite perderam tudo, sem direito a uma indenização. Mas eu acho que a perspectiva pode ser otimista e que já não tem sentido esse cenário de hostilidade. Os Estados Unidos têm relações com o Vietnã, com a Líbia do Kaddafi...
E a cobertura da imprensa em relação a Cuba também não segue esse anacronismo?
Claro. Quando fui escrever a história dos agentes cubanos, pesquisei os jornais da época. Tantos atentados a bomba contra Cuba e só lia notícias de rodapé. Porque no fundo a imprensa brasileira é muito conservadora e tudo aquilo que possa cheirar a algo que denuncie a brutalidade dos Estados Unidos contra Cuba vai para a lata do lixo. E isso é compreensível, porque a gente não pode ter ilusão: a imprensa está a serviço da ideologia e dos interesses de quem paga as contas no final do mês. Isso em qualquer lugar do planeta: Havana; Washington; Pequim; Mariana, a cidade onde nasci...
Há esperança? Sim, a internet. Ela é uma revolução. A imprensa escrita vai continuar sendo assim, representando esses interesses, mas a internet permite que, desde que você tenha um notebook e uma lista telefônica, você é o seu próprio Roberto Marinho, você é o seu próprio Chateaubriand. Se você tiver o que dizer, vai ter audiência. Se tiver audiência, terá anunciantes.
Eu achava que a liberdade de expressão dos meios de comunicação seria conquistada nas trincheiras, nas barricadas, nas tribunas. Mas a tecnologia andou mais rápido que a ideologia, um negócio chamado internet, de uma hora para outra, derrubou este conceito de que a luta política iria obter a liberdade de expressão. Eu era um leitor dependente químico de jornais: o dia podia estar feio, podia estar com problemas, mas a excitação de ler quatro jornais diários, Estadão, Folha, O Globo e Jornal do Brasil era um prazer. Acabou isso. Salvo uma ou outra coisa, você já leu tudo na véspera na internet e com imagens em movimento. Isso me lembra de um trecho de uma música profética do Gilberto Gil que dizia “O jornal de manhã chega cedo, mas não traz o que eu quero saber. As notícias que leio, conheço. Já sabia antes mesmo de ler”. É isso, está havendo uma revolução nas nossas barbas.
Você já teve contato com a prensa digital, como é chamada a imprensa alternativa cubana?
Tenho contato com todo mundo que quero em Cuba. Em uma das vezes, levei dinheiro para um jornalista dissidente. Fui para Havana, entreguei o dinheiro, não sei se a polícia me seguiu ou não. Entrei na casa dele, tomei um café, fumamos um charutinho e voltei para o meu hotel. Ninguém nunca me aborreceu. A honestidade é um instrumento muito forte nas relações.
Não me aproximo dessa Yoani Sanchez [blogueira do Generación Y, que critica o governo cubano] porque não gosto dela. Sou de outra tribo... O provedor de internet dela pertence a um grupo alemão que reconhecidamente é um recrutador de atletas cubanos, eles dão dinheiro para que os atletas abandonem sua delegação.
Se tivesse a oportunidade de entrevistar Fidel mais uma vez, o que perguntaria a ele hoje?
O futuro. Como é que ele acha que Cuba irá lidar com este mundo que mudou, com a internet, com a globalização. Na próxima vez que for a Cuba quero ter uma oportunidade de vê-lo. Perguntar “E o futuro? E as chamadas liberdades democráticas? A liberdade de expressão, a internet?”. Quem sabe depois desse livro não faço uma entrevista com ele, propor mais uma longa entrevista com o Fidel?
Eu gosto muito de Cuba, é um país muito parecido com o Brasil, com o povo passando dificuldades enormes, mas mesmo assim sendo hospitaleiro. É um belo país, com gente com vergonha na cara. Quero ver se volto o mais breve possível para descansar. Mas eu também brigo muito com os cubanos, divirjo. Uma coisa que poucas pessoas sabem é que em 1992, Cuba fuzilou três pessoas que mataram dois soldados para roubar um barco e fugir para Miami. Eu sou contra a pena de morte. E fomos a Cuba, Frei Betto, Antônio Calado e eu com uma carta do Dom Paulo Evaristo Arns para o Fidel pedindo que acabassem os fuzilamentos. Não sei se essa carta ajudou ou não, mas de lá para cá não se fuzilou mais ninguém. Não sou irrestritamente favorável a tudo o que eles fazem, mas não vou dar arma para o inimigo. Não vou sair falando mal de Cuba para fazer o jogo dos falcões de Washington e muito menos da extrema direita de Miami.